Credores externos da Raízen formam grupo para conduzir conversas sobre reestruturação da dívida
Os detentores de títulos de dívida emitidos no exterior (bonds) pela produtora de açúcar e álcool Raízen (RAIZ4) contrataram a assessoria financeira Moelis para a formação de um grupo “ad hoc”, que conduzirá eventuais conversas com a companhia sobre uma reestruturação de suas dívidas, segundo apurou o Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
O escritório White & Case também foi contratado pelos detentores de bonds. A Raízen, por sua vez, já fechou com os escritórios Pinheiro Neto Advogados e Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP como assessores legais para buscar saídas para sua situação financeira.
Na média, os bonds da Raízen estão sendo negociados nesta quinta-feira, 12, a 30% do valor de face, ou seja, com um desconto de 70% em relação ao valor nominal. Até o fechamento do segundo trimestre do ano-safra 2025/2026, a dívida líquida da Raízen somava R$ 53,4 bilhões, dos quais cerca de R$ 27 bilhões em bonds com vencimentos entre 2027 e 2054.
Para tentar baixar esse endividamento, a Raízen – uma joint venture entre a Cosan e a Shell- tenta conseguir um aumento de capital estimado em US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão, além tentar vender ativos na Argentina, que podem render mais US$ 1,5 bilhão.
A viabilidade desse aporte, porém, está condicionada à entrada de um novo sócio no negócio, para além das duas controladoras. É um movimento considerado complexo. Procurada, a Raízen não concedeu entrevista por estar em período de silêncio por conta da divulgação de resultados na sexta-feira, 13.
Na segunda-feira, 9, a companhia confirmou que iniciou processo de contratação de assessores financeiros e legais para auxiliar na elaboração de um diagnóstico de opções estratégicas voltadas ao fortalecimento de sua posição de liquidez, à otimização de sua estrutura de capital e à sua interação com o mercado.
A Raízen investiu pesado nos últimos anos para se consolidar como líder global em transição energética, mas o momento se mostrou inadequado. A aposta na construção de fábricas de etanol de segunda geração (E2G), bem como aquisições como a da Biosev, que a consolidou como maior produtora mundial de açúcar e etanol, demandaram bilhões em capital.
Como boa parte dessa dívida foi contraída em um cenário de taxas de juros mais baixas, a manutenção da Selic (taxa básica de juros) em patamares elevados encareceu drasticamente o serviço da dívida, acabando com sua lucratividade.
A companhia apostou suas fichas no E2G como o grande diferencial tecnológico, sob a promessa de transformar bagaço de cana em combustível limpo e rentável, de olho na exportação principalmente para a Europa. Na prática, porém, o projeto enfrentou uma curva de aprendizado complexa, com desafios tecnológicos.
As poucas fábricas desse tipo construídas demoraram mais do que o esperado para atingir a capacidade plena de produção, e gargalos técnicos atrasaram o retorno sobre o investimento. O mercado catalogou a Raízen como uma empresa de “tecnologia verde” de alto crescimento, mas a execução operacional acabou não acompanhando as expectativas.
A empresa paralisou o plano de investir R$ 25 bilhões até 2030 na construção de diversas unidades, mas parte do aporte já havia sido realizado em quatro usinas, duas delas em operação.
O setor de açúcar e álcool é extremamente dependente do clima, e a Raízen não escapou ilesa. Períodos de seca severa, incluindo incêndios no segundo semestre de 2024, afetaram a moagem de cana-de-açúcar, reduzindo a eficiência das usinas.
A estratégia de retenção de estoques para venda futura, esperando preços melhores do açúcar e etanol, nem sempre se pagou. Com a queda recente nos preços dessas commodities, as margens de lucro evaporaram, gerando pressão adicional no fluxo de caixa imediato.
A larga oferta global de açúcar também tem pressionado os preços ao longo dos últimos meses. Dados divulgados recentemente mostram que a moagem de cana-de-açúcar nos nove primeiros meses da safra 2025/26 foi 9,2% menor do que no igual período do ciclo anterior. A produção total de açúcar e etanol, convertido em açúcar equivalente, recuou 10,4%.