Cripto: que tal mais transparência em 2020?

22/12/2019 - 11:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
2019 foi um ano de grandes avanços, mas ainda há muito o que fazer em relação a divulgação de informações dos projetos (Imagem: Pixabay)

Há dois dias, eu desabafei sobre minha frustração em relação à falta de padrões de dados e transparência em muitos dos dez principais projetos da indústria. Continuo afirmando isso.

Foi um chamado de atenção para algumas das grandes empresas financiadas na indústria: Ethereum Foundation, Block.One, Ripple, Stellar, Binance, Tezos Foundation, entre outras.

Elas devem melhorar como um todo na próxima dela. O sucesso recente da indústria depende da nossa capacidade de fornecer, como prometido, uma grande melhoria sobre o sistema financeiro atual, e não uma corrida até o fundo do poço em questão de qualidade e consistência.

Isso também se aplica à qualidade de dados e proteção de investidores/acionistas.

Existem quatro problemas aqui:

1. em especial, transparência seletiva não é boa o suficiente;

2. divulgações únicas são de baixa fidelidade e rapidamente ultrapassadas;

3. transparência análogica e não uniforme é inadequada (é sério…);

4. alegações autoavaliadas e não validadas não são confiáveis.

Vamos falar sobre cada uma delas, e depois sobre qual o papel da Messari em toda essa equação.

Como as redes podem se considerar descentralizadas se elas não transmitem transparência em relação a seus volumes, dados e outras informações importantes? (Imagem: Pixabay)

Em especial, transparência seletiva não é boa o suficiente

Vamos pensar nas melhores práticas atuais (e dar crédito quando for necessário!).

Ripple publica relatórios de transparência de trimestralmente há três anos.

Eles são bons, mas deixam muito a desejar, já que “transparência seletiva” teve o efeito de exagerar a capitalização de mercado da Ripple ao suavizar a taxa de liquidação dos ripples acumulados internamente (e o nível de descentralização da empresa).

Falo sobre esses problemas há dois anos.

Binance também é ótima com os relatórios mensais. O próprio CZ publica um resumo trimestral das queimas de tokensÉ a coisa mais próxima que a indústria tem de atualização ganhos trimestrais de uma grande empresa. Mas não sabemos qual é a política de liquidação do token BNB para a empresa e o fundador.

Onde fica a tesouraria e como ela pode ser distinguida do resto das posses da corretora? Onde estão as atualizações sobre o blockchain da Binance? Onde se aprende sobre casos de uso propostos ou existente (como, por exemplo, geração de valor) para o token BNB?

Binance Research tem um dos melhores relatórios de bibliotecas de token da indústria (40 até agora), mas, curiosamente, BNB não está entre eles, e a maioria dos perfis, apesar de bons, não são atualizados regularmente.

Tezos Foundation, fundada em 2017 na Suíça, acredita que sua criptomoeda vai trazer inovação social, política e econômica em escala global (Imagem: Bitrates)

Agora, Tezos Foundation publica atualizações semanais sobre o projeto, além de relatórios bianuais. Eles realizaram uma auditoria com a PwC e contratarem um antigo parceiro dessa empresa como CFO.

Eles são, provavelmente, os melhores do mercado entre os grandes projetos quando se trata de relato de tesouro de tokens. Mas não existe estrutura para as divulgações, discussão sobre risco ou análise sobre as políticas de tesouro contínuas.

De novo, essas são boas práticas.

Por outro lado, nós não tivemos absolutamente nada da Block.One em relação a suas contribuições contínuas à EOS, apesar do fato de que levantou um orçamento de guerra multibilionário dos investidores de token em 2017.

Além disso, diz-se que receberá 10% das recompensas por bloco da EOS ao longo dos próximos dez anos. Falar que a Block.One não é afiliada à EOS é como dizer que a Ripple não é afiliada com XRP. É uma afirmação claramente falsa.

Então, existe uma grande falta de relatórios que gera dúvidas. Em um dos nosso relatórios, identificamos uma falha de inflação no protocolo Stellar em 2017 que foi analisada e consertada em silêncio.

Recentemente, percebemos que a API (interface de programação de aplicações) da Stellar foi codificada em meados de setembro para devolver um fornecimento estático de 50 bilhões de lumens por conta da grande queima de tokens em airdrop.

Isso foi feito para abafar a notícia dos tokens queimados até o último momento, mas a API não foi atualizada por semanas.

Só para relembrar: esses são cinco entre os dez principais ativos por capitalização de mercado, e não ativos de cauda longa (grande número de produtos que são vendidos em pequenas quantidades, em contraste ao número pequeno de produtos bem-vendidos). Deus nos acuda.

Relatórios e atualizações constantes são essenciais para que a comunidade cripto saiba o que está acontecendo nos projetos e corretoras (Imagem: Pixabay)

Divulgações únicas são de baixa fidelidade e rapidamente ultrapassadas

Cripto muda rapidamente. Projetos são alterados, bifurcados, voltam ao controle de governança, caem para estado vegetativo, etc. Geralmente, existem colaboradores humanos que tomam essas decisões.

Podemos e deveríamos ter atualizações periódicas desses colaboradores. Não, não, não. Isso não é bom o suficiente.

Deveríamos “exigir” atualizações desses contribuidores se eles trabalham em uma empresa que levantou dinheiro de acionistas externos em troca da venda de um token.

Qiao escreveu, de forma sucinta, sobre o dilema de agência, ou “problema principal-agente” (“principal-agent problem” em inglês) em cripto:

“Qualquer um que queira muito investir em cripto precisa passar um tempo estudando o dilema de agência.

Investidores em países desenvolvidos não levam isso a sério. Reguladores como a SEC forçam as empresas a gastar grandes quantias em conformidade para relatório a fim de minimizar a assimetria de informação entre o agente e o principal.

Em cripto, existem pelo menos dez projetos em que eu, o principal, acho que tenho informações principais como o agente [isso é ruim para um ecossistema “descentralizado”].

O problema principal-agente é o motivo principal pelo qual a) investidores de varejo se queimaram durante a era 2017-2018 e b) investidores sérios estão por aqui, mas se afastando dessa classe emergente de ativos, incluindo alguns dos projetos mais legais.

Por que o mercado se reúne em torno do bitcoin e das altcoins? Em parte, é porque é o projeto mais descentralizado. Descentralizado significa menor assimetria entre os principais e os agentes.

Mas, antes dos projetos conseguirem se tornar completamente descentralizados, a única maneira de resolver o problema principal-agente, assim atraindo liquidez e apoiadores, é divulgar o máximo de informações importantes possíveis.”

O “problema principal-agente” ocorre quando um principal cria um ambiente em que os incentivos do agente não são alinhados aos seus. Geralmente, a responsabilidade é do principal em criar incentivos para o agente a fim de certificar que ele atue como o principal deseja (Imagem: Pixabay)

Eu não sei nem como isso pode ser testado a essa altura. O propósito desse movimento inteiro não era para ser “não confie, verifique”, usando a audibilidade de tudo que está disponível? Por que estamos confiando informações privilegiadas a esses órgãos principais se eles são um banco central?

Ainda assim, muitas equipes vão tentar se defender e dizer “não disseminamos informações porque o projeto é descentralizado”.

Eu tenho empatia pela dinâmica péssima e contraproducente criada pela SEC, onde as equipes precisam jogar esse jogo, geralmente sob aconselhamento do conselho, para fazer o possível para não “parecer” como um valor mobiliário pelo ultrapassado teste de Howey.

Mas, cá entre nós, é um atraso do caramba, não é?

Já passou da hora de as empresas e os projetos de cripto fornecerem mais informações atualizadas e claras para os investidores (Imagem: Pixabay)

Transparência análogica e não uniforme é inadequada

Também existe o problema de padronizar, continuamente, essas divulgações ao longo do tempo e as digitalizar. Ripple, Binance e Tezos (de novo, essas são as empresas boas) fazem essas atualizações em PDF, publicações e tuítes.

É sério.

Então algumas dessas equipes vão lá e acabam com a qualidade dos fornecedores de informações! CARAMBA!

É CLARO que os dados/as informações são ruins. São mal estruturados e mal padronizados! E nada está sendo feito para melhorá-los!

Existe uma deficiência estrutural nas comunicações de acionistas em cripto e que precisa ser corrigida.

Não temos (nem queremos, eu acho) que uma SEC imponha relatórios autoavaliados e padronizados sobre criptoativos e redes participativas, em que a maioria não foi criada para ser considerada como valores mobiliários.

Talvez poderíamos pedir algumas informações a países como Cingapura e Suíça sobre como não reprimir a inovação, aceitar o essencial e então começar a digitalizar esses registros para torná-los universais.

[Isso é exatamente o que fazemos na Messari, com nosso registro de divulgações.]

Imagine um mundo onde os padrões de contabilidade como GAAP (Princípios Contábeis Geralmente Aceitos) e IFRS (Normas Internacionais de Contabilidade) não fossem comuns, EDGAR (Sistema de Coleta, Análise e Recuperação de Dados Eletrônicos) não existisse e o padrão XBRL de relatórios não fosse criado.

É provável que Bloomberg, S&P, Thomson Reuters e FactSet retirassem informações diferentes das mesmas sociedades abertas e você não conseguiria combinar os dados. Um completo caos.

Contabilidade é a linguagem dos negócios e, agora, cada projeto de cripto fala uma língua diferente. Isso não vai mudar se as principais equipes (especialmente criadores de tokens e corretoras) não levarem isso mais a sério.

A vantagem adicional nesse tipo de investimento resultaria em um tipo de “aplicação comum” liderada pela indústria que ajuda a automatizar os processos de listagem entre os fornecedores de liquidez e, então, ajudar a evitar um cenário em que os tokens precisem ser registrados como valores mobiliários.

É necessário que um intermediário avalie os volumes relatados pelas corretoras para que não haja problemas na hora de disponibilizar informações claras e precisas para os interessados (Imagem: Pixabay)

Alegações autoavaliadas e não validadas não são confiáveis o suficiente

Existe um motivo pelo qual as empresas de contabilidade, conhecidas como “Big Four” existem, e não é porque a maioria dos contadores são a alma da festa. É bem óbvio que “confie, mas verifique” deveria ser o padrão nos mercados públicos porque as pessoas, por natureza, tendem a superestimar boas notícias e subestimar (ou esconder) más notícias.

Esses verificadores globais ganham quase US$ 60 bilhões por ano por serviços de auditoria. Nesse caso, os agentes são os criadores de ativos (emissores corporativos) que pagam por essas auditorias para cumprir com as demandas dos seus principais (os investidores). Esse sistema costuma funcionar.

Em cripto, não será diferente.

Se você quer materiais de projeto de marketing e informação completamente duvidosa, então a expectativa é de os projetos continuarem a se autoavaliar com base em estatísticas-chave sem que um terceiro os avalie.

Além disso, o público vai continuar não tendo informações públicas suficiente para fazer suas próprias avaliações com cuidado.

Parabéns! Nunca vamos chegar onde estão os maiorais.

Se alguns padrões de divulgação e avaliadores independentes (leia-se serviços externos às corretoras listadas) surgirem, então a indústria vai avançar e atrair mais capital e credibilidade.

Messari é um grupo de especialistas que tem grande conhecimento sobre o mercado e busca continuar esse aprofundamento sobre os projetos (Imagem: Pixabay)

Acho que já apresentamos nossa proposta

Sim, esse é o negócio da Messari, mas não é nosso ganha-pão a longo prazo.

Nós propomos um serviço de registro que atua como um guia de como achamos que a indústria precisa fazer nos próximos anos em relação a autoavaliação.

Isso não porque queremos ficar super-ricos com esse produto, mas sim porque não queremos que toda a nossa outra infraestrutura de dados construída se desfaça como um castelo de cartas.

Queremos ajudar a todos a resolver esse problemão para, então, podermos competir com maiores ofertas de valor.

Para solidificar isso (e provar que esse tipo de mercado de auditoria poderia existir), cobramos US$ 10 mil por ano como uma taxa fixa aos projetos. Isso nos permitiu trabalhar com equipes que sabíamos que colaborariam de forma séria além de ser apenas uma jogada de publicidade.

Anunciamos com quais projetos com quais projetos estamos trabalhando, então você sabe exatamente quanto ganhamos de receita por essa linha de negócios.

Todas as informações estão disponíveis. Então vá pegá-las do nosso API gratuito.

Mas adivinha só…

Digamos que, agora, nosso mercado endereçável seja de cerca de 200 projetos com capitalização de mercado superior a US$ 10 milhões. Também vamos pensar, de forma não realista, que acrescentamos 100% dessas equipes ao nosso registro no ano que vem.

A US$ 10 por ano por consumidor, isso ainda não é o suficiente para cobrir os custos de financiamento anual da Messari.

Messari é um dos facilitadores que querem ajudar os projetos a solucionar seus problemas estruturais e fornecer aos investidores melhores análises e melhor compreensão sobre o mercado cripto (Imagem: Pixabay)

Por outro lado, a maioria das pessoas na comunidade de negociação, de corretoras e de projetos de tokens parecem querer que nós continuemos a existir. O que fazer quando existe macrointeresse, mesmo quando há microceticismo/microcríticas?

Como resolvemos esse problema? Críticos nos acusam de “chantagear” as equipes ao forçá-las a trabalhar conosco (e nos pagar uma pequena taxa), mas, realmente, é um trabalho mal agradecido e não muito rentável, mas extremamente necessário.

Eu não tenho uma resposta imediata, mas eu vou propor algo para as dez principais equipes que recusaram nossa taxa anual de US$ 10 mil ou a consideraram como um obstáculo:

Ajude nossa equipe de pesquisa a ter dados atualizados e compreensíveis de seus projetos, assim como já fizemos com mais de 70 equipes menores, e faremos esse trabalho de verificação de graça em 2020.

Então trabalharemos em direção à descentralização do processo de auditoria (talvez por meio de uma DAO) em 2020.

Em 2021, você pode escolher outra auditoria paga que entre na rede descentralizada se gostar da ideia, mas despreze a Messari por culpa minha e pelo fato de eu ser um estraga-prazeres persistente e detestável.

Mas, de novo, eu não posso estragar o seu prazer se você não tiver nenhum. Então eu quero saber quem são os que levam a sério e os que só falam, mas nada fazem.

O que a indústria precisa, em termos de divulgação, não é física quântica. Não são nem informações privilegiadas ou sigilosas. São apenas informações de senso comum, convenientes e básicas.

Vamos resolver isso.

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Matéria Original: "Transparency 2020"

Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 26/05/2020 - 10:30

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