CSN (CSNA3) promete começar em 2026 venda de ativos para reduzir dívida, mas ação recua quase 5%
As ações da CSN (CSNA3) revertiam o curso positivo de mais cedo e recuavam com força nesta quinta-feira (15), após nova apresentação da companhia sobre redução de alavancagem, com o mercado ponderando promessa do grupo de conseguir em um ano importantes vendas de ativos, que incluem o controle da segunda maior produtora de cimento do Brasil.
Às 11h30 (horário de Brasília), a ação da CSN estava entre as maiores perdas da sessão, recuando 4,8%, a R$ 9,77, enquanto o Ibovespa (IBOV) operava em leve alta, acima dos 165 mil pontos. A rival Usiminas (USIM5) caía 3,5%.
A empresa anunciou mais cedo que pretende levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões para reduzir cerca de 50% de sua dívida líquida de R$ 37,5 bilhões.
Para isso, a CSN, que ao longo das últimas décadas amealhou ativos em uma série de setores que hoje fazem a empresa ter negócios em aço, cimento, mineração, energia e logística, promete vender o controle de sua produtora de cimentos e uma participação relevante, mas minoritária, em uma holding de infraestrutura que pretende montar reunindo ativos de ferrovia, portos e até transportadora rodoviária.
Para a venda do controle da CSN Cimentos, que ganhou força em 2022 após a compra dos ativos brasileiros da europeia LafargeHolcim, a empresa promete assinatura de acordo com comprador entre o terceiro e quarto trimestres deste ano.
O mesmo prazo envolve a chamada CSN Infraestrutura, que apesar do interesse do grupo em torná-la uma holding única, será alvo de uma venda escalonada, com fatia em ativos do Sudeste sendo vendida também entre o terceiro e quarto trimestres de 2026 e operações no Nordeste, que incluem a ferrovia Transnordestina, em 2027.
Vendas de ativos são raras na história de décadas da CSN, mas nos últimos anos o controlador Benjamin Steinbruch tem repetido ao mercado que a empresa tem trabalhado para levantar capital com alguns deles como forma de obter recursos para investimentos e redução de dívidas.
A empresa fez IPO de suas operações de mineração, consideradas pelo mercado como “joia da coroa do grupo” em 2021, mas manteve uma participação entre 60% e 70% nelas.
No mesmo ano tentou abrir o capital de sua empresa de cimentos, mas não havia oportunidade para isso no mercado. No final do ano passado, a companhia anunciou a venda de uma participação de R$ 3,35 bilhões na transportadora ferroviária MRS para a sua própria mineradora.
Ao longo desses anos a empresa até foi na contramão das promessas de venda de ativos e comprou novos. Incluindo a geradora de energia CEEE, por quase R$ 1 bilhão, em 2022, e o controle da transportadora rodoviária Tora, por mais de R$ 700 milhões no final de 2024.
Analistas do JP Morgan disseram em relatório a clientes após a apresentação da CSN que as notícias dadas pela empresa são positivas, “entretanto, é importante mencionar que a companhia tem prometido vender ativos há algum tempo e uma execução bem-sucedida continua importante para estabilizar os ratings (da empresa) e criar um histórico mais forte de gestão de balanço”.
Nunca antes
Steinbruch afirmou na apresentação que a CSN “ao longo de 32 anos acumulou excelentes ativos” e, citando a continuidade de juros elevados da economia, afirmou que a empresa talvez tenha insistido “por mais tempo que o necessário (na manutenção deles dentro do grupo)”.
“Esperar mais não faz sentido e resolvemos tomar essas decisões em que vamos desalavancar por volta de R$ 18 bilhões”, afirmou o Steinbruch, citando que o nível de juros do país dificulta investimento e tem pressionado o endividamento do grupo.
“Nunca nos comprometemos dessa forma tão transparente e pragmática” para redução da alavancagem e venda de ativos, acrescentou.
Com isso, com as vendas do controle da CSN Cimentos e da participação na CSN Infraestrutura, a CSN quer reduzir sua alavancagem financeira de 3,14 vezes para 1,83 vez “no curto prazo” e chegar a 1 vez num intervalo de oito anos, disse o diretor de finanças, Antonio Marco Rabello.
Segundo Rabello, o nível de 1 vez será alcançado com uma esperada melhora nos resultados do grupo, com geração de caixa medida pelo Ebitda crescendo a partir de investimentos em modernização de suas instalações siderúrgicas e de mineração e avanço da área da CSN Infraestrutura, que inclui sete ativos dos quais quatro no Sudeste – MRS e Tora e os terminais portuários Tecon e Tecar.
Mudança de planos
Embora o mercado visse a CSN como mais inclinada a vender participação adicional na divisão de mineração, ainda mais num cenário de preços de minério de ferro favorável, Rabello afirmou que se trata de uma “grande reserva de valor para o grupo” e que a CSN não tem intenção de vender fatias adicionais da operação.
Analistas questionaram por que a empresa que sempre prefere ter controle sobre seus investimentos vai manter uma fatia minoritária na área de cimentos. “O interesse do investidor e o ‘valuation’ são os fatores que vão nortear o percentual que vamos monetizar” durante as negociações com interessados, explicou Rabello.
O interesse atual para venda do controle se dá pela ausência de janela de oportunidade para uma nova tentativa de IPO e pelo recebimento de “sinalizações importantes de grupos do mercado que indicaram múltiplos importantes, mostrando que isso vai trazer o ‘valuation’ que queremos mesmo sem IPO”, disse Rabello sem dar detalhes.
O executivo afirmou que entre os interessados nos ativos de cimento estão grupos sem participação no Brasil, o que pode facilitar a tarefa de obtenção de aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para o negócio. “Mas se for consórcio (de empresas), o Cade pode demorar um pouco mais”, disse o executivo.
Rabello explicou que a CSN prefere manter o controle da CSN Infraestrutura em razão do vínculo dessa operação com a atividade de mineração, uma das maiores exportadoras de minério de ferro do Brasil.
A CSN não afirmou quanto pretende levantar com cada venda, mas Steinbruch disse que apenas a alienação do controle da operação de cimentos “já resolve sozinha a questão do nosso endividamento e a partir das sobras (de recursos) a gente vai ver o que faz”.
Rabello disse que a CSN segue aberta a fazer IPOs de todos os seus negócios, um plano antigo do grupo, incluindo energia e infraestrutura, mas que não há oportunidade para isso no momento.
E a empresa também teria opções de vendas de ativos fora do Brasil, como operações de siderurgia na Europa, mas o executivo disse que os dois movimentos em cimento e infraestrutura “são suficientes” para a desalavancagem que a companhia quer fazer.
Questionado por analista sobre o nível de engajamento de investidores e interessados nos ativos do grupo, o diretor financeiro afirmou que a CSN “está fazendo tudo o que é correto e tudo o que os investidores estão pedindo nos últimos meses. Vamos descobrir nas próximas semanas”.
Steinbruch ventilou ainda que a divisão de siderurgia, cuja usina em Volta Redonda (RJ) remonta aos anos de 1940 e que tem recebido investimentos do grupo mais recentemente, vai precisar de parcerias para modernizar equipamentos. É um setor que como um todo tem sentido dificuldades em crescer no Brasil diante de alto volume de importações.
“Temos que passar por investimentos muito fortes, e temos que buscar essa forma de fazer fora do Brasil, através de (parceiros) asiáticos ou europeus”, disse o executivo citando que os investimentos em modernização precisam ser feitos “de forma compatível com a sobrevivência do negócio”.