‘Cuidado com esses números’; o alerta de Mansueto Almeida, do BTG, à economia brasileira
A economia brasileira não entrou em parafuso nos últimos anos. Pelo contrário: tem crescido, ano após ano, acima das expectativas do mercado. Em 2023, por exemplo, o PIB avançou 3,2%, acima da projeção de 2,9%. Em 2024, parte do mercado chegou a estimar expansão de 1,5%, mas o país surpreendeu novamente, com alta de 3,4%.
Boas notícias que, na visão de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, podem mascarar um problema estrutural nas contas públicas.
Em evento nesta quarta-feira, ele fez um alerta: é preciso cuidado com esses números.
‘Primeiro, o crescimento do Brasil no ano passado foi puxado pela indústria extrativa, como produção e exportação de petróleo, e pela agricultura. Isso é uma boa notícia, porque são setores muito competitivos. Mas não foi resultado de política econômica recente’, afirmou.
Segundo ele, o avanço decorre de fatores estruturais que vêm se consolidando há anos — e não de decisões conjunturais.
‘Ao contrário: em um ano de juros muito altos, isso machuca bastante o varejo e a indústria de transformação’, disse.
Hoje, o Brasil opera com taxa básica de juros em 15%. Mesmo que recue para algo próximo de 12% até o fim do ano, ainda será um patamar elevado. Com inflação em 3,9%, o juro real gira em torno de 8%.
‘Isso não é uma situação de equilíbrio’, resume.
Por que os juros são tão altos?
Se a inflação está mais comportada, por que os juros continuam altos? Pergunta que membros do governo, como o presidente Lula ou vice-presidente Geraldo Alckmin não cansam de fazer. Mas a resposta pode estar no próprio governo: gastos.
‘É fácil responder essa pergunta. Porque o crescimento do gasto público no Brasil é excessivo.’
Ele lembra que, nos últimos quatro anos, o gasto federal acumulou crescimento real próximo de 20%.
‘Isso é muita coisa, especialmente em uma economia com desemprego em queda.’
A taxa de desemprego está em 5,1%, praticamente pleno emprego. Ainda assim, o governo segue estimulando a demanda.
‘E o resultado é mais inflação. A única forma de trazer a inflação para baixo, nesse contexto, é trabalhar com a maior taxa de juros real do mundo.’
Bolsa sobe, mas é mérito do Brasil?
A bolsa brasileira acumula forte valorização em dólar neste ano — algo próximo de 25% — e janeiro registrou fluxo estrangeiro recorde de R$ 26,31 bilhões, acima de todo o volume de 2025.
Mas, para Mansueto, o movimento tem mais relação com o cenário externo do que com fundamentos domésticos.
Ele cita que bolsas como as da Colômbia, Peru e Chile também subiram.’Muito do que aconteceu no Brasil no fim do ano passado e início deste ano é movimento que vem de fora.’
Segundo ele, parte da rotação foi provocada pelas incertezas em torno da política econômica do presidente dos EUA, Donald Trump.
‘Os Estados Unidos são, há anos, o grande absorvedor de liquidez global. Quando surge alguma incerteza, mesmo pequena, há rotação de carteira. E qualquer fração de capital que sai de lá vira muito dinheiro para emergentes.’
Ainda assim, ele alerta: os problemas estruturais brasileiros continuam os mesmos.
Fiscal melhora, mas via imposto
Mansueto reconhece que houve melhora nos números fiscais. Em 2023, o déficit primário foi de 2,4% do PIB (R$ 240 bilhões). Agora, pode terminar próximo de 0,4% do PIB (cerca de R$ 50 bilhões).
Mas isso ocorreu, segundo ele, via aumento de arrecadação. ‘O governo foi atrás de mais receita. Parte justificável, parte não. Ao mesmo tempo que quer incentivar crédito, aumenta IOF.’
O economista lembra que a carga tributária brasileira já gira em torno de 34% do PIB.
‘Para resolver o problema fiscal, precisamos conter o crescimento da despesa. Não será aumentando impostos que vamos resolver.’
Seja quem for o próximo presidente
Com o cenário eleitoral ainda indefinido, Mansueto diz que a agenda fiscal será inevitável para qualquer governo.
Mais cedo, pesquisa mensal da Atlas/Bloomberg apontou que a diferença entre o presidente e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) caiu ao menor nível no primeiro turno.
‘Quem quer que seja o próximo presidente terá que controlar o crescimento do gasto público. Caso contrário, entraremos em um cenário muito mais desafiador.’
Ao assumir o governo em maio de 2016, Mansueto conta que adotou uma estratégia de forte ajuste fiscal, ancorada na promessa de conter o avanço das despesas públicas e restaurar a confiança dos investidores.
A principal medida foi a criação de uma regra que limitava o crescimento real do gasto público federal a zero, estabelecida por meio da chamada PEC do Teto. Ao mesmo tempo, houve um aperto no financiamento a estados e municípios.
‘Não me venham com essa história de que é impossível fazer ajuste fiscal no Brasil. É possível, desde que haja vontade política. O país não precisa de mais tributos para crescer — e não resolveremos nossos problemas aumentando a carga tributária.’