Economia

‘Cuidado com esses números’; o alerta de Mansueto Almeida, do BTG, à economia brasileira

25 fev 2026, 13:35 - atualizado em 25 fev 2026, 14:48
fiscal inflação mansueto almeida BTG Pactual
'Para resolver o problema fiscal, precisamos conter o crescimento da despesa. Não será aumentando impostos que vamos resolver' (Imagem: Reprodução/BTG Pactual)

A economia brasileira não entrou em parafuso nos últimos anos. Pelo contrário: tem crescido, ano após ano, acima das expectativas do mercado. Em 2023, por exemplo, o PIB avançou 3,2%, acima da projeção de 2,9%. Em 2024, parte do mercado chegou a estimar expansão de 1,5%, mas o país surpreendeu novamente, com alta de 3,4%.

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Boas notícias que, na visão de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, podem mascarar um problema estrutural nas contas públicas.

Em evento nesta quarta-feira, ele fez um alerta: é preciso cuidado com esses números.

‘Primeiro, o crescimento do Brasil no ano passado foi puxado pela indústria extrativa, como produção e exportação de petróleo, e pela agricultura. Isso é uma boa notícia, porque são setores muito competitivos. Mas não foi resultado de política econômica recente’, afirmou.

Segundo ele, o avanço decorre de fatores estruturais que vêm se consolidando há anos — e não de decisões conjunturais.

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‘Ao contrário: em um ano de juros muito altos, isso machuca bastante o varejo e a indústria de transformação’, disse.

Hoje, o Brasil opera com taxa básica de juros em 15%. Mesmo que recue para algo próximo de 12% até o fim do ano, ainda será um patamar elevado. Com inflação em 3,9%, o juro real gira em torno de 8%.

‘Isso não é uma situação de equilíbrio’, resume.

Por que os juros são tão altos?

Se a inflação está mais comportada, por que os juros continuam altos? Pergunta que membros do governo, como o presidente Lula ou vice-presidente Geraldo Alckmin não cansam de fazer. Mas a resposta pode estar no próprio governo: gastos.

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‘É fácil responder essa pergunta. Porque o crescimento do gasto público no Brasil é excessivo.’

Ele lembra que, nos últimos quatro anos, o gasto federal acumulou crescimento real próximo de 20%.

‘Isso é muita coisa, especialmente em uma economia com desemprego em queda.’

A taxa de desemprego está em 5,1%, praticamente pleno emprego. Ainda assim, o governo segue estimulando a demanda.

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‘E o resultado é mais inflação. A única forma de trazer a inflação para baixo, nesse contexto, é trabalhar com a maior taxa de juros real do mundo.’

Bolsa sobe, mas é mérito do Brasil?

A bolsa brasileira acumula forte valorização em dólar neste ano — algo próximo de 25% — e janeiro registrou fluxo estrangeiro recorde de R$ 26,31 bilhões, acima de todo o volume de 2025.

Mas, para Mansueto, o movimento tem mais relação com o cenário externo do que com fundamentos domésticos.

Ele cita que bolsas como as da Colômbia, Peru e Chile também subiram.’Muito do que aconteceu no Brasil no fim do ano passado e início deste ano é movimento que vem de fora.’

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Segundo ele, parte da rotação foi provocada pelas incertezas em torno da política econômica do presidente dos EUA, Donald Trump.

‘Os Estados Unidos são, há anos, o grande absorvedor de liquidez global. Quando surge alguma incerteza, mesmo pequena, há rotação de carteira. E qualquer fração de capital que sai de lá vira muito dinheiro para emergentes.’

Ainda assim, ele alerta: os problemas estruturais brasileiros continuam os mesmos.

Fiscal melhora, mas via imposto

Mansueto reconhece que houve melhora nos números fiscais. Em 2023, o déficit primário foi de 2,4% do PIB (R$ 240 bilhões). Agora, pode terminar próximo de 0,4% do PIB (cerca de R$ 50 bilhões).

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Mas isso ocorreu, segundo ele, via aumento de arrecadação. ‘O governo foi atrás de mais receita. Parte justificável, parte não. Ao mesmo tempo que quer incentivar crédito, aumenta IOF.’

O economista lembra que a carga tributária brasileira já gira em torno de 34% do PIB.

‘Para resolver o problema fiscal, precisamos conter o crescimento da despesa. Não será aumentando impostos que vamos resolver.’

Seja quem for o próximo presidente

Com o cenário eleitoral ainda indefinido, Mansueto diz que a agenda fiscal será inevitável para qualquer governo.

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Mais cedo, pesquisa mensal da Atlas/Bloomberg apontou que a diferença entre o presidente e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) caiu ao menor nível no primeiro turno.

‘Quem quer que seja o próximo presidente terá que controlar o crescimento do gasto público. Caso contrário, entraremos em um cenário muito mais desafiador.’

Ao assumir o governo em maio de 2016, Mansueto conta que adotou uma estratégia de forte ajuste fiscal, ancorada na promessa de conter o avanço das despesas públicas e restaurar a confiança dos investidores.

A principal medida foi a criação de uma regra que limitava o crescimento real do gasto público federal a zero, estabelecida por meio da chamada PEC do Teto. Ao mesmo tempo, houve um aperto no financiamento a estados e municípios.

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‘Não me venham com essa história de que é impossível fazer ajuste fiscal no Brasil. É possível, desde que haja vontade política. O país não precisa de mais tributos para crescer — e não resolveremos nossos problemas aumentando a carga tributária.’

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Editor-assistente
Formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, cobre mercados desde 2018. Ficou entre os jornalistas +Admirados da Imprensa de Economia e Finanças das edições de 2022, 2023 e 2024. Possui curso intesivo de mercado de capitais oferecido pelo Insper em parceria com a B3. É também setorista de bancos. Antes, atuou na assessoria de imprensa do Ministério Público do Trabalho e como repórter do portal Suno Notícias, da Suno Research.
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