Da Louisiana ao Alasca: Trump mira a Groenlândia e reacende antiga estratégia dos EUA de comprar territórios; veja as aquisições feitas até hoje
No xadrez político internacional, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça virar o tabuleiro de ponta cabeça. O republicano vem batendo de frente com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ao insistir em anexar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.
Em meio a um dos momentos mais tensos da história do bloco, os países europeus lançaram uma missão para reforçar a presença militar na região nesta semana, e até a Rússia se envolveu na história. O Kremlin disse que responderá qualquer militarização europeia na Groenlândia direcionada a Moscou.
Apesar de colocar disputas militares sobre a mesa, a estratégia inicial de Trump não é fazer uso da força. O presidente norte-americano tenta negociar a compra do território, que é avaliado hoje em aproximadamente US$ 700 bilhões (R$ 3,7 trilhões), segundo a emissora NBC News.
Porém, a investida de Trump vem se mostrando frustrada. Isso porque tanto os líderes europeus da Otan quanto a própria Dinamarca afirmam que jamais venderiam a Groenlândia para os EUA. O governo dinamarquês inclusive disse que a região não está à venda.
A outra possibilidade avaliada por Trump é, em vez de pagar ao Estado pelo território, oferecer dinheiro a cada um dos cerca de 57 mil habitantes da Groenlândia para apoiarem a incorporação em um eventual plebiscito. Essa pode ser mais uma estratégia fracassada.
Cerca de 88% dos moradores da região são inuíte, um grupo étnico nativo do Ártico, que reprovam a dependência da ilha a outro país, inclusive da Dinamarca. Além disso, são fortemente contra a exploração de minerais críticos e de recursos naturais, que são um dos principais interesses de Washington na Groenlândia.
Vale lembrar que Trump também tem questões geopolíticos no radar. Ele chegou a afirmar em janeiro que “se eu não fizer isso (tomar a Groenlândia), Rússia ou China farão, e não os teremos de vizinhos”.
A compra de território pelos EUA
Apesar de parecer inusitado, a compra de territórios não é uma prática incomum. Até a Segunda Guerra Mundial, países podiam negociar terras sem a participação da população, e os EUA eram mais do que adeptos a isso.
A aquisição das Ilhas Virgens, que também pertenciam à Dinamarca, foi a última realizada pelo governo norte-americano e ocorreu em 1917. Porém, os EUA recorreram aos cofres para ampliar o mapa norte-americano em outras 14 ocasiões antes de negociar a aquisição das ilhas.
A primeira compra foi realizada em 1803, quando os EUA fecharam a compra da Louisiana. A região, na época, era terras francesas de Napoleão Bonaparte, que por precisar de dinheiro para financiar uma guerra contra a Inglaterra, decidiu vendê-las por 60 milhões de francos. Foi um “combo territorial” que praticamente dobrou o tamanho do país.
Em 1819, foi a vez da Flórida, comprada da Espanha por US$ 5 milhões.
Depois veio o Texas, em um processo que acabou levando a uma guerra com o México. O conflito terminou em 1848 com o pagamento de US$ 15 milhões — e, de brinde, os EUA incorporaram áreas que hoje incluem Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e partes do Colorado.
Em 1867, os americanos desembolsaram US$ 7,2 milhões para comprar o Alasca da Rússia. Na época, muitos chamaram o negócio de “loucura”. Hoje, com reservas de petróleo e posição estratégica, ninguém mais ri.
Em 1898, após a Guerra Hispano-Americana, os EUA passaram a controlar Porto Rico e Guam, além de comprarem as Filipinas por US$ 20 milhões.
Por que está sendo mais difícil com a Groenlândia?
Não é de hoje que os EUA tentam adquirir a Groelândia. A primeira proposta foi feita em 1867, logo depois dos EUA comprarem o Alasca, que pertencia à Rússia. Na época, a Groenlândia recusou a oferta de US$ 100 milhões.
Agora, o detalhe é que o mundo mudou.
Hoje, além da recusa política, existem obstáculos jurídicos e democráticos. A anexação exigiria plebiscitos e acordos formais entre populações e governos, não sendo mais uma conversa fechada entre chefes de Estado.
Além disso, apesar de ter governo próprio, a Groenlândia ainda depende da Dinamarca em política externa e defesa. E os dinamarqueses não se consideram “proprietários plenos” do território a ponto de colocá-lo à venda.
Entre minerais estratégicos, rotas árticas e disputas geopolíticas, a Groenlândia virou peça-chave no tabuleiro global. Mas transformar essa peça em território americano pode ser bem mais complicado do que Trump imagina.