DeepSeek faz aniversário: o impacto da inteligência artificial chinesa um ano após abalar o mercado, segundo uma asset suíça
O que você estava fazendo há um ano? Em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump tomava posse pela segunda vez da presidência dos Estados Unidos, a guerra no Leste Europeu seguia sem solução à vista e Gabriel Galípolo estava em seu primeiro mês à frente do Banco Central (BC). Enquanto isso, a cena global da inteligência artificial começava a ser sacudida por um novo lançamento vindo da China: o DeepSeek.
É verdade que 20 de janeiro não foi exatamente o dia em que o mercado percebeu o alcance da nova IA. A ficha caiu uma semana depois, em 27 de janeiro de 2025, quando investidores e analistas passaram a dimensionar o impacto da tecnologia.
O episódio — descrito por especialistas como um “momento DeepSeek” ou até como o “Sputnik da IA” — não apenas abalou mercados e expectativas, como também acelerou um processo estrutural de transformação na tecnologia chinesa e intensificou a competição global no setor.
Choque imediato e repercussões nos mercados
O modelo DeepSeek-R1 chamou a atenção por entregar desempenho próximo ao de grandes modelos ocidentais, como ChatGPT e GPT-4, mas com custos de treinamento drasticamente menores.
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Relatórios de mercado apontaram que o desenvolvimento do R1 exigiu apenas uma fração do investimento feito por concorrentes ocidentais, que tradicionalmente gastam centenas de milhões de dólares em hardware e energia.
O impacto foi imediato. No dia seguinte ao anúncio, ações de grandes empresas de tecnologia sentiram o baque. A Nvidia, por exemplo, chegou a cair cerca de 18%.
Estrutura de crescimento: inovação sob restrição e open source
Segundo um relatório recente da Atonra, asset suíça especializada em investimentos temáticos, a importância do DeepSeek vai muito além do choque inicial nos mercados.
Para os analistas da casa, o evento ajudou a materializar tendências que já vinham ganhando força na indústria de tecnologia chinesa. Uma delas é a chamada inovação sob restrição. Diante de controles de exportação de tecnologias avançadas — especialmente chips de alto desempenho —, empresas chinesas passaram a priorizar eficiência computacional e novas arquiteturas, em vez de simplesmente ampliar poder de processamento.
Outro ponto destacado é a adoção do open source como estratégia competitiva. DeepSeek e outros grandes grupos, como o Alibaba, com o modelo Qwen, passaram a apostar em modelos de código aberto ou “open weights”, o que facilita a adoção, modificação e integração por desenvolvedores e empresas.
Há ainda a velocidade de produção e aplicação comercial. Diferentemente de iniciativas apenas demonstrativas, os modelos derivados do DeepSeek foram rapidamente incorporados a ambientes corporativos, com uso em setores como manufatura, logística e serviços financeiros.
Para a asset suíça, esses fatores mostram que a tecnologia chinesa não se limita a seguir tendências globais, mas vem construindo um caminho próprio.
Um novo “ativo tecnológico” e a relação com o Ocidente
Outro ponto levantado no relatório da Atonra é que a tecnologia chinesa, impulsionada por empresas como o DeepSeek, passou a funcionar como um ativo tecnológico com dinâmica própria e baixa correlação com a tecnologia americana.
Na prática, como não depende de tecnologia dos Estados Unidos, esse movimento abre espaço para que investidores globais diversifiquem carteiras em inteligência artificial, sem se limitar a apostas concentradas nos mercados ocidentais.
Além do mercado: implicações industriais e tecnológicas
Para além dos efeitos financeiros, o chamado “efeito DeepSeek” acelerou transformações importantes dentro da própria indústria de inteligência artificial chinesa.
Um dos desdobramentos foi a expansão do ecossistema de IA open source. Pesquisadores e desenvolvedores intensificaram a criação e o aprimoramento de modelos mais eficientes do ponto de vista computacional, fortalecendo um ambiente que começa a rivalizar com polos tradicionais do Ocidente.
Ao mesmo tempo, a maior adoção de modelos chineses trouxe debates sobre segurança e confiança, incluindo questões relacionadas à proteção de dados, possíveis vieses e conformidade regulatória em diferentes mercados.
O relatório também aponta caminhos divergentes de estratégia tecnológica. Enquanto empresas ocidentais seguem apostando em escala e integração da IA a produtos de consumo, a China tem enfatizado aplicações industriais, uso em processos corporativos e alinhamento com políticas domésticas de desenvolvimento.
Olhando para frente
Por fim, ainda segundo a Atonra, ao completar um ano de seu lançamento, o DeepSeek deixou de ser apenas um choque pontual nos mercados para se tornar um catalisador de tendências que redesenham o mapa competitivo da inteligência artificial.
Mais do que uma tecnologia específica, o episódio evidenciou a consolidação de um modelo alternativo de crescimento tecnológico, mais resiliente a restrições externas e mais integrado à economia chinesa.