Do consenso à coação: os impactos da eventual intervenção dos EUA no Irã
Boulevard Jourdan, 2 de novembro. Manhã de quarta-feira ensolarada, apesar do prospecto de uma ofensiva invernal que se aproxima prometendo temperaturas ainda mais baixas. O tempo vai virar. Já se vão alguns minutos que espero de pé na estação pelo tramway, destino à primeira aula do dia – exalo um suspiro, condensa no ar. A luz enseja uma fotografia – clique! Do outro lado da margem, capturo a paisagem com o celular – uma panorâmica do parque Montsourris.
Quase 10 anos depois, o detalhe na foto assume o protagonismo: colada ao lado de fora de uma banca de jornal, uma capa da Society, versão especial de eleições norte-americanas, Donald Trump e Hillary Clinton, duas visões de mundo radicalmente distintas – definitivamente, o tempo viraria. No conforto da sala de aula, digressões sobre o instantâneo do dia a dia e as correntes profundas da história.
Do consenso à coação
O presente texto não é sobre minhas memórias, claro, mas sobre um sintoma de mutação estrutural no exercício do poder norte-americano – que, por definição, pendula ora para uma lógica hegemônica, ora para uma lógica imperial.
A atual confrontação entre EUA e Irã não deve ser compreendida apenas como mais um episódio de rivalidade estratégica no Oriente Médio. Ela revela uma transformação mais profunda na natureza do poder americano.
Durante décadas, os EUA exerceram uma hegemonia estruturante: lideraram por meio de instituições, regras, alianças e regimes multilaterais que organizavam o sistema internacional sob seu primado.
Hoje, porém, observa-se um deslocamento progressivo para uma lógica mais direta, coercitiva e unilateral. Esse movimento pode indicar não apenas uma erosão da hegemonia liberal, mas a consolidação de uma postura de caráter imperial.
A ideia de hegemonia se sustenta na combinação entre superioridade material e capacidade de produzir ordem. Seu elemento central é a previsibilidade: regras compartilhadas, coordenação institucional e um certo grau de consentimento dos aliados. O poder é exercido de forma estruturante, não apenas impositiva. Entretanto, a política comercial recente dos EUA rompe com esse padrão.
A utilização recorrente de tarifas como instrumento de coerção estratégica introduziu instabilidade nas cadeias globais de valor, enfraqueceu mecanismos multilaterais e transformou o comércio internacional em campo de pressão unilateral. O que antes funcionava como liderança regulatória converte-se em barganha assimétrica.
Esse “desordenamento comercial” não é um detalhe técnico; ele corrói a base normativa da hegemonia. Ao substituir coordenação por coerção, os EUA deixam de atuar como organizadores do sistema e passam a agir prioritariamente como potência que impõe condições. A legitimidade, elemento central da hegemonia, é progressivamente substituída pela força e pela ameaça de retaliação.
EUA e Irã: mais do que uma crise
A crise com o Irã insere-se nesse contexto mais amplo. O emprego de ultimatos públicos, o reforço militar ostensivo e a disposição declarada de recorrer à força indicam uma postura que ultrapassa a lógica de contenção diplomática. Trata-se de impor uma redefinição estratégica ao Estado adversário – mudança de regime?
O próprio fundamento da incursão no Irã não é claro entre os expoentes do executivo norte-americano. Não se trata mais apenas de dissuadir, mas de condicionar estruturalmente as escolhas políticas de outro país. Essa verticalização da relação é característica de uma lógica imperial.
O mesmo padrão pode ser observado em outros episódios recentes. A incursão militar na Venezuela representou um gesto de intervenção direta que rompe com o discurso tradicional de respeito à soberania que os próprios EUA ajudaram a consolidar no pós-guerra.
As ameaças envolvendo o Groenlândia e as tensões recorrentes no âmbito da OTAN também evidenciam um deslocamento: alianças deixam de ser espaços de coordenação estável e tornam-se arenas de pressão. A garantia de segurança passa a ser condicional e instrumentalizada.
Um paralelo com o Iraque
O precedente da guerra do Iraque em 2003 é instrutivo. O que foi apresentado como intervenção rápida resultou em oito anos de conflito prolongado, instabilidade regional e custos econômicos significativos.
Os efeitos de mercado foram expressivos. O petróleo até andou de lado nos meses que se seguiram à incursão norte-americana no Iraque em março de 2003, com o spot FOB europeu saindo de US$ 30 para fechar o ano neste mesmo patamar.
Conforme a guerra se arrastou, a commodity engatou uma forte alta interrompida apenas pela GFC, aos US$ 133 na média para julho de 2008.
Os títulos públicos americanos enfrentaram volatilidade à medida que os déficits fiscais se ampliaram para financiar o esforço de guerra – a taxa de juros efetiva nos EUA saiu de 1.25% em março de 2003 para próximo de 5.25% em meados de 2006.
O dólar também se enfraqueceu: em março de 2003, um euro comprava 1.10 dólar no câmbio spot; em julho de 2008, um euro comprava 1.56 dólar; o DXY saiu de 99k para 72k no mesmo período. É claro que a guerra no Iraque, sozinha, não explica a totalidade destes movimentos de mercado. Mas, certamente, ela estabeleceu um paradigma.
Uma eventual intervenção no Irã poderia produzir efeitos ainda mais amplos. A vulnerabilidade do Estreito de Hormuz – já largamente comentada no presente e no passado, sempre que a temperatura no Oriente Médio se eleva – implicaria choque imediato nos preços de energia. A inflação global poderia acelerar rapidamente. Os mercados financeiros reagiriam com forte volatilidade.
Um conflito prolongado, com expansão significativa dos gastos públicos, poderia pressionar os rendimentos dos títulos do Tesouro americano e levantar ainda mais questionamentos sobre a sustentabilidade fiscal americana, já algo combalida. A combinação de choque energético e endividamento crescente colocaria à prova a resiliência estrutural da economia norte-americana.
O paradoxo estrutural
Além dos impactos externos e financeiros, há uma dimensão interna decisiva. A guerra do Iraque agudizou divisões políticas profundas na sociedade americana, polarizou o debate público e alterou o equilíbrio eleitoral por anos. Um novo conflito de grande escala poderia reativar clivagens semelhantes ou ainda mais intensas.
O custo humano e fiscal, em um contexto já marcado por polarização ideológica, tensões institucionais e desconfiança nas elites políticas, poderia agravar fraturas partidárias e sociais. A expansão do poder executivo em tempos de guerra também tende a gerar disputas constitucionais e questionamentos sobre os limites da autoridade presidencial.
Desse modo, a lógica imperial carrega um paradoxo estrutural. Ao recorrer de forma crescente à coerção direta para preservar sua primazia, os EUA podem enfraquecer os próprios fundamentos que sustentaram sua liderança: estabilidade normativa, confiança institucional e solidez econômica. O poder imperial projeta força, mas também amplifica riscos sistêmicos – externos e domésticos.
A tensão com o Irã, portanto, não é apenas uma crise regional. Ela simboliza um momento de inflexão, gestado há quase 10 anos. O deslocamento do exercício hegemônico para uma prática mais imperial redefine o papel americano no sistema internacional. A questão central não é apenas se essa transição está em curso, mas se ela é sustentável em um mundo profundamente interdependente, financeiramente sensível e politicamente fragmentado.