E-mail acidental leva a corte de 16 mil empregos na Amazon
Um e-mail enviado “por engano” a equipes da área de computação em nuvem da Amazon Web Services (AWS) acabou fazendo o que muitos gestores tentam evitar: antecipou a confirmação de uma nova rodada de demissões que elimina cerca de 16 mil cargos corporativos.
Horas depois, a companhia oficializou o anúncio. É a segunda grande leva de cortes desde outubro, quando outros 14 mil funcionários haviam sido desligados. Ao todo, aproximadamente 30 mil vagas foram eliminadas em menos de seis meses.
O e-mail que não deveria ter saído
Nesta semana, colaboradores da divisão de nuvem da Amazon receberam uma mensagem que citava “mudanças organizacionais” e indicava que colegas já tinham sido avisados sobre impactos em suas funções.
O problema é que o texto fazia referência a um comunicado interno que ainda não havia sido divulgado oficialmente.
O detalhe constrangedor: o e-mail fazia parte de um convite de calendário com o título “Send Project Dawn email”, sendo “Projeto Dawn” o codinome interno do plano de demissões.
A mensagem foi rapidamente cancelada, mas já era tarde: o conteúdo havia circulado.
Menos pessoas, mais IA
Em uma publicação corporativa, a Amazon afirmou que os cortes integram um esforço contínuo para “reduzir camadas, aumentar o senso de responsabilidade e eliminar burocracia”. Na prática, isso significa menos gestores, menos intermediários e mais automação.
A explicação foi formalizada por Beth Galetti, vice-presidente sênior de pessoas, experiência e tecnologia da empresa. Segundo ela, a companhia não pretende estabelecer um “ritmo fixo” de demissões, mas também não descarta novos ajustes.
“Cada equipe continuará avaliando velocidade, estrutura e capacidade de inovar para os clientes”, afirmou a executiva em comunicado publicado no site da Amazon.
De acordo com Galetti, funcionários que atuam nos Estados Unidos terão até 90 dias para tentar uma recolocação interna antes de receber indenização, apoio à recolocação profissional e manutenção do plano de saúde.
O pano de fundo: inteligência artificial custa caro
O enxugamento ocorre ao mesmo tempo em que a Amazon acelera os investimentos em inteligência artificial e infraestrutura de dados. A empresa estima que seus gastos de capital cheguem a US$ 125 bilhões em 2026, o maior patamar entre as grandes empresas de tecnologia listadas em bolsa.
Parte desse valor está ligada à construção de data centers, à integração de IA em serviços e à automação avançada de processos.
O próprio CEO, Andy Jassy, já havia antecipado esse movimento. Em declarações anteriores, afirmou que os ganhos de eficiência proporcionados pela IA tendem a reduzir a necessidade de trabalhadores em algumas funções, ao mesmo tempo em que criam demanda por outros perfis.
“Vamos precisar de menos pessoas fazendo alguns trabalhos atuais e de mais pessoas fazendo outros”, disse Jassy.
O “ajuste” da Amazon
Não se trata de um corte isolado. Desde o fim da pandemia, a Amazon passa por um processo prolongado de ajuste:
- Mais de 27 mil demissões entre 2022 e 2023
- Cortes menores ao longo de 2024
- 14 mil vagas eliminadas em outubro de 2025
- Mais de 16 mil agora, em 2026
O movimento responde à expansão agressiva durante a Covid-19, quando a empresa contratou em massa para atender à explosão do e-commerce e da demanda por serviços em nuvem.
Agora, ao que tudo indica, o pêndulo se moveu para o outro lado.
Cultura de startup
Desde que assumiu o comando após a saída de Jeff Bezos, Jassy tenta fazer a Amazon operar como o que define como “a maior startup do mundo”. Isso inclui metas internas para reduzir níveis de gestão, acelerar decisões e até a criação de um canal interno chamado “no bureaucracy”, voltado à identificação de gargalos.
Na prática, essa visão veio acompanhada de uma cultura mais rígida: retorno obrigatório ao escritório cinco dias por semana, cortes e um monitoramento mais próximo dos custos internos.