Eleições, cortes na Selic e mudança no Fed: O que esperar do dólar daqui para frente?
O dólar no mercado à vista iniciou o ano no mesmo ritmo de 2025: em queda. Desde janeiro até agora, a divisa norte-americana recuou 5,92% ante o real, após acumular uma desvalorização de 11% no ano passado.
A expectativa é de que o dólar siga fraco, ao menos no curto prazo, e não apenas frente à moeda brasileira. O índice DXY, que compara o desempenho do dólar contra uma cesta de seis divisas fortes — euro, iene, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço — acumula baixa de 1,55% neste ano.
Para Bruno Shahini, especialista de investimentos da Nomad, “a história do dólar mais fraco é central para entender esse movimento recente de apreciação do real”. Segundo ele, o comportamento do câmbio tem refletido muito mais fatores globais do que elementos domésticos brasileiros.
Dólar mais fraco e o fator Trump
Um dos principais fatores por trás do enfraquecimento da moeda norte-americana é a política comercial dos Estados Unidos adotada pelo presidente Donald Trump. “Desde que o [Donald] Trump assumiu a Presidência, o dólar perdeu força. No primeiro semestre do ano passado, por exemplo, o DXY caiu mais de 10%, a maior queda semestral desde 1971, quando os EUA saíram do padrão ouro”, afirmou Shahini, em entrevista exclusiva ao Money Times.
Em abril de 2025, Trump anunciou tarifas recíprocas de 10% sobre produtos de todos os parceiros comerciais, além de alíquotas adicionais para países com os quais os EUA registravam déficit comercial. O Brasil ficou entre os mais atingidos, com uma taxa de 40%, além da alíquota “mundial”.
Como consequência, investidores passaram a reduzir exposição aos Estados Unidos e a diversificar geograficamente seus portfólios, movimento que se refletiu em outros mercados.
No Brasil, por exemplo, investidores estrangeiros injetaram R$ 25,5 bilhões no mercado local em 2025. O fluxo ganhou força com a virada do ano: apenas em janeiro de 2026, os aportes somaram R$ 26,3 bilhões, o melhor desempenho mensal desde o início de 2022.
Shahini também avalia o dólar ‘mais fraco’ como uma ‘estratégia’ do governo de Trump. “Parece que o Trump não se incomoda com o dólar desvalorizado. Uma moeda mais fraca complementa a política tarifária, desestimula importações e torna as exportações americanas mais competitivas”, disse.
Além disso, o Federal Reserve (Fed, Banco Central dos EUA) fez um ciclo de afrouxamento monetário, reduzindo os juros da faixa de 4,25% a 4,50% para 3,50% a 3,75% ao ano, entre setembro e dezembro.
Em linhas gerais, quanto mais o Fed corta juros, menor tende a ser a atratividade do dólar. Com a queda dos rendimentos dos Treasuries, cresce o apetite por risco em mercados com juros mais elevados, como o Brasil, onde a Selic está em 15% ao ano.
“Esse diferencial de juros faz o capital vir para o Brasil para aproveitar o yield e torna o custo de ficar comprado em dólar bastante desfavorável”, afirma Shahini.
O que esperar daqui para frente?
Segundo o especialista da Nomad, o dólar deve permanecer pressionado no curto prazo, enquanto o real pode ganhar mais força, ainda sustentado pelo cenário externo e pelo fluxo estrangeiro. As tensões geopolíticas também continuarão no radar.
Mais recentemente um novo fator entrou em jogo no mercado de câmbio: a indicação de Kevin Warsh para o comando do Fed. Caso tenha o nome aprovado pelo Senado, o ex-diretor deve assumir a presidência da autoridade monetária após o fim do mandato de Jerome Powell, em maio.
Considerado um nome técnico e mais independente do que outros cotados, Warsh foi bem recebido pelo mercado. “Dado o conjunto de nomes que estavam sendo cogitados, a indicação foi positiva. O mercado vê nele alguém com mais independência para conduzir a política monetária”, afirma Shahini.
Ainda assim, o impacto sobre o dólar dependerá do nível final dos juros nos Estados Unidos. “O que importa é onde a taxa vai parar. O mercado hoje precifica algo perto de 3%. Qualquer coisa muito diferente disso pode ter efeitos relevantes sobre a força do dólar”, avalia. Atualmente, os juros americanos estão na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano.
No Brasil, o Banco Central deve iniciar o ciclo de cortes nos juros na próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), em março. Apesar da redução da Selic, o plano de fundo deverá se manter favorável ao real, na avaliação de Bruno Shahini.
Para o especialista da Nomad, mesmo com a flexibilização monetária, o Brasil deve seguir oferecendo um dos maiores juros reais do mundo, o que mantém o diferencial de taxas atrativo para o investidor estrangeiro.
“O dólar é um componente importante da cesta de consumo brasileira e o dólar mais fraco ajuda a inflação”, afirma Shahini. Segundo ele, com a inflação projetada perto de 4%, a política monetária segue bastante restritiva. “A gente está falando de uma taxa real de juros perto de 8%, o que é extremamente elevado.”
O cenário, porém, tende a ficar mais instável a partir de julho, com a aproximação das eleições para governos estaduais e para a Presidência. “Depois do segundo semestre, a volatilidade aumenta e as previsões ficam mais difíceis. A retórica dos candidatos será muito importante em relação ao ajuste fiscal no Brasil”, destaca Shahini.
Para o fim do ano, os modelos da Nomad apontam para um dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,40. “Esse é um range bem aceitável, considerando o cenário atual.” O mercado, por sua vez, projeta o câmbio a R$ 5,50 no final deste ano.