Elétricas, petróleo e construtoras: Onde estão as oportunidades na bolsa, segundo gestores
A bolsa de valores brasileira ainda oferece uma relação entre risco e retorno favorável, especialmente em setores com geração de caixa previsível, segundo avaliação de Rafael Fonseca, sócio da BTG Pactual Asset Management.
Na visão do gestor, companhias de segmentos como energia elétrica e saneamento, consideradas mais resilientes, seguem apresentando espaço para ganhos expressivos no longo prazo.
“Hoje, nos parece que o grande deslocamento e assimetria está em setores que têm perfil de geração de caixa na sua essência, no seu modelo de negócio, e negociam a uma taxa de desconto alta”, afirmou durante o Global Managers Conference Brasil 2026, evento realizado pela BTG Pactual Asset Management nesta terça-feira (31).
“Acho que o setor elétrico e saneamento são exemplos disso. Eles negociam com uma taxa de risco em cima das NTN-Bs (Tesouro IPCA+). Então, você tem a oportunidade de comprar empresas com 11% ou 12% de retorno real, o que é muito interessante”, contou.
Petróleo e construção no radar
O executivo também chamou a atenção para companhias de petróleo. Apesar das incertezas sobre a demanda no longo prazo, ele avalia que o risco de preços muito baixos da commodity diminuiu.
“Temos outros investimentos com a visão de que vamos viver um nível de petróleo mais elevado. O barril não vai ficar US$ 110 ou US$ 115 para sempre, mas achamos que está indo por um caminho de enterrar o risco dos US$ 50 ou US$ 60”, pontuou.
Fonseca ressaltou, ainda, oportunidades em construtoras voltadas à baixa renda, impulsionadas principalmente por políticas públicas de habitação.
Segundo ele, essas empresas combinam crescimento com alta rentabilidade, margens elevadas e retorno expressivo sobre o capital, além de múltiplos ainda descontados.
“É um setor que está super em ‘voga’. Achamos que ele tem tido muito apoio do governo. São companhias que estão fazendo 40% de margem”, afirmou.
“Um problema do passado era a alavancagem. Hoje, porém, algumas construtoras já estão desalavancadas, enquanto outras caminham para isso, podendo, inclusive, devolver capital ao acionista, enquanto ainda negociam a 6 ou 8 vezes o lucro”, acrescentou.
Eleições são fator-chave
Apesar do tom construtivo, o gestor ressaltou que o cenário segue condicionado ao ambiente político. “A gente tem um evento central aqui no Brasil, que é a eleição. Ela vai definir um pouco o rumo.”
Na avaliação dele, uma eventual mudança de direção pode reduzir o custo de capital e destravar valor de forma significativa nos ativos brasileiros.
“Vai ser uma discussão muito intensa ao longo do ano. Mas a gente acha que a assimetria de você comprar essas empresas que estão pautadas por uma taxa de desconto muito alta, muito seguras, muito resilientes, é um risco-retorno bom.”
Fluxo estrangeiro ainda é limitado
Durante sua apresentação, Fonseca também chamou atenção para o baixo nível de investimento global no Brasil, mesmo após a recente entrada de capital estrangeiro.
“A mera normalização da alocação em emergentes, e o Brasil levando 5% desse share, que é mais ou menos o peso do país, é um fluxo da ordem de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões. A gente não teve nem 20% disso no início do ano”, contou.
“Estamos vivendo um cenário ainda de baixa alocação e muito potencial de capital vindo para cá.”
O peso do CDI na bolsa
Mas, para além do impulso vindo do investidor estrangeiro, o executivo destacou o impacto dos juros elevados sobre o comportamento da bolsa brasileira.
De acordo com ele, o interesse pela renda variável tende a crescer apenas com a queda do custo de capital.
“No mercado local, não tem como fugir. Vai começar a surgir interesse pela bolsa na medida em que o custo de capital cair, que o CDI cair. Tem muito produto incentivado, livre de imposto, que gera uma atratividade interessante para o investidor local”, afirmou.
“Tem que olhar as coisas com uma ótica de diversificação. Da mesma forma que quando o juro fechar você vai capturar isso numa NTN-B, na bolsa você pode capturar isso de forma turbinada”, destacou.
André Reis, analista de ações da MFS e que também esteve presente no evento, concordou com a avaliação. “O fluxo local depende de juros. E isso [juros] é consequência do fiscal, que é consequência da eleição.”
“É tentador ficar no CDI a 15%, mas você pode acabar perdendo um rali na renda variável como o dos últimos 12 meses”, afirmou.
Erros comuns dos investidores
Fonseca e Reis também alertaram para erros recorrentes cometidos por investidores em momentos de incerteza. Um dos principais é assumir que o cenário vai se perpetuar.
“Todo mundo perpetua o Brasil de hoje em dia como definitivo. Se a bolsa foi mal por anos, passa a ser vista como ruim”, disse o gestor do BTG. “No entanto, a gente tem períodos, como em 2025, em que ela retornou um monte de capital para o investidor que ficou lá paciente e que diversificou.”
“Quando o preço vai contra, te testa muito. Por isso, se manter fiel à tese é fundamental”, prosseguiu, ao defender uma visão prospectiva.
“É importante não perpetuar o status quo e tentar entender como o ambiente pode estar daqui a 6 ou 12 meses, e aí saber se está posicionado de acordo.”