Entender soja é entender o mundo: a colheita da safra brasileira em meio às tensões geopolíticas
A geopolítica voltou ao centro do palco — e, como quase sempre acontece quando isso ocorre, o comércio global de commodities é um dos primeiros a sentir os efeitos. O início de 2026 escancara um mundo menos previsível, mais fragmentado e crescentemente orientado por considerações estratégicas que extrapolam, e muitas vezes atropelam, a lógica econômica pura.
O episódio envolvendo a Groenlândia, por si só irrelevante para a soja ou para o fluxo físico de grãos, é emblemático. Trata-se menos do território em disputa e mais do precedente político que ele inaugura.
Ao tensionar a relação transatlântica e colocar em xeque princípios básicos como soberania e não-intervenção, os EUA alimentam um ambiente de risco sistêmico que reverbera em contratos, cadeias logísticas, decisões de investimento e, sobretudo, na confiança entre parceiros comerciais.
Prepare-se para mais volatilidade e menos visibilidade
Para o mercado global de commodities, esse retorno da geopolítica como variável dominante significa maior volatilidade e menor visibilidade. Commodities são, por definição, ativos transoceânicos, atravessados por moedas, fretes, seguros, regulações e, agora mais do que nunca, por alinhamentos geopolíticos.
O efeito raramente é linear: mesmo quando o impacto direto sobre volumes parece limitado — como no caso das ameaças tarifárias a países europeus que representam menos de 10% do fluxo do complexo soja americano — o prêmio de risco embutido nos preços, spreads e decisões de originação aumenta.
Em um mundo mais fragmentado, a eficiência cede espaço à redundância, e a previsibilidade dá lugar à gestão defensiva de riscos.
EUA, China e a soja
A soja sintetiza esse novo velho mundo. O grão permanece no epicentro da relação sino-americana, funcionando quase como um termômetro das tensões bilaterais.
A mecânica é conhecida: em momentos de deterioração diplomática, a China reduz a originação nos EUA, os estoques de passagem americanos se avolumam e Chicago sofre.
O ciclo 2025/26 torna essa dinâmica particularmente clara. Mesmo considerando vendas classificadas como “destino desconhecido”, a China parece já ter cumprido — ou estar muito próxima de cumprir — o compromisso político de comprar cerca de 12 milhões de toneladas de soja americana. E tudo indica que o ímpeto se esgota aí.
O volume é substancialmente inferior à média pós-Covid e reforça uma tendência estrutural de redução das compras chinesas nos EUA iniciada ainda no primeiro conflito comercial, em 2018.
Há, aqui, uma mudança qualitativa importante. A China segue sendo o maior importador mundial de soja, mas passou a operar suas compras de forma mais tática, oportunística e politicamente calibrada.
O ano de 2025 no agro chinês ajuda a entender esse comportamento. A produção doméstica de grãos atingiu recordes históricos, assim como a produção de carnes, ao passo que a demanda interna avançou de forma mais contida.
O resultado foi um ambiente deflacionário nos preços de alimentos e margens pressionadas para a indústria de esmagamento.
A mão chinesa
Nesse contexto, o Estado voltou a desempenhar um papel central, utilizando estoques públicos como instrumento de estabilização. Leilões de soja importada a preços abaixo do custo histórico aliviaram as esmagadoras e, ao mesmo tempo, abriram espaço logístico para novos embarques.
Essa combinação — oferta agrícola abundante, demanda doméstica moderada e intervenção ativa via estoques — molda o comportamento da China no comércio internacional.
O país continua estruturalmente dependente da soja importada (com importações recordes em torno de 112 milhões de toneladas em 2025), mas administra volumes, timing e origens com mais sofisticação.
Para os exportadores, isso significa uma China menos previsível no curto prazo e mais sensível a diferenciais de preço, logística e risco político. Para os EUA, somam-se ainda problemas de competitividade: o rally de Chicago no fim de 2025 e a entrada da safra brasileira ampliaram o spread FOB entre o Golfo e Paranaguá de forma expressiva, reduzindo o apelo da soja americana exatamente quando a janela de exportação começa, sazonalmente, a se fechar.
A geopolítica e a soja brasileira
É nesse ponto que o Brasil emerge, mais uma vez, como o fiel da balança. A safra 2025/26 começou a ser colhida em janeiro sob condições amplamente favoráveis. Após um início de primavera marcado por calor extremo e déficits hídricos pontuais, dezembro trouxe chuvas mais regulares, especialmente no Centro-Oeste.
Mato Grosso já apresenta avanço relevante de colheita, e as projeções climáticas para janeiro indicam anomalias positivas de precipitação em regiões-chave, reduzindo riscos produtivos no curto prazo.
Esse bom começo reforça a expectativa de ampla oferta brasileira no primeiro semestre. E isso justamente no momento em que a China tradicionalmente pivota suas compras para o Hemisfério Sul.
O pano de fundo, portanto, é claro: a geopolítica não substituiu os fundamentos, mas passou a moldá-los. Oferta e demanda seguem importando, mas são filtradas por alinhamentos estratégicos, disputas diplomáticas e decisões estatais.
Para a soja, isso significa um mercado estruturalmente grande, porém mais errático; para o Brasil, uma janela de oportunidade recorrente, mas que exige competitividade logística, previsibilidade regulatória e leitura fina do humor internacional.
Em 2026, mais do que nunca, entender soja é entender o mundo — e entender o mundo é aceitar que ele voltou a ser, perigosamente, geopolítico.