Eucatex (EUCA4) sofre com alta de insumos no 2T26, mas espera retomada de margens à frente; ‘Foi um período de muita pressão’, diz VP
Uma das principais fabricantes de pisos, portas, tintas e painéis do Brasil, a Eucatex (EUCA4) obteve lucro líquido recorrente de R$ 84,9 milhões no segundo trimestre de 2026 (2T26), queda de 3,9% em relação a igual período de 2025, mostra balanço divulgado nesta terça-feira (11).
No acumulado dos seis primeiros meses deste ano (1S26), a empresa reportou lucro de R$ 223,3 milhões, o que representa uma alta de 18,1% na comparação anual.
Entre abril e junho, a receita líquida da companhia somou R$ 806,1 milhões, avanço de 2,8% em 12 meses, enquanto o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização recorrente) recuou 8,9%, para R$ 174,6 milhões.
Com isso, a margem Ebitda ficou em 21,7%, queda de 2,8 pontos percentuais em um ano.
A desaceleração da rentabilidade ocorreu devido à disparada dos preços de matérias-primas, afirmou José Antônio Goulart, vice-presidente executivo e diretor da Eucatex, em entrevista ao Money Times.
Segundo ele, a fabricante sofreu aumentos superiores a 20% em diversos custos em um intervalo curto, em um movimento que não conseguiu ser totalmente repassado ao cliente final.
“O 2T26 foi um período desafiador no que diz respeito a insumos. Foi muita pressão. A gente poucas vezes viu, em um intervalo tão rápido, uma subida tão forte de custo”, disse o executivo.
“A gente está falando de números acima de 20% de subida de custos em várias unidades nossas. Evidentemente, o mercado não absorve isso, porque isso é matéria-prima”, acrescentou.
“Você não consegue colocar toda essa alta num piso, não consegue colocar numa tinta e não consegue colocar num painel que vai para a indústria moveleira.”
Resina sobe mais de 30%
Goulart explicou que, entre os principais responsáveis pela pressão sobre a rentabilidade no segundo trimestre, está a resina, material essencial na produção de painéis de madeira — seja MDF ou MDP.
De acordo com o executivo, o valor do insumo acumulou alta de mais de 30% nos seis primeiros meses de 2026 ante o mesmo intervalo do ano anterior.
O executivo também afirmou que a composição da resina envolve matérias-primas como ureia, metanol e formol. Segundo ele, somente o metanol chegou a registrar alta de 85% no período.
No caso das tintas, a pressão também veio de diferentes componentes, como solventes, emulsões e a própria resina.
A escalada dos custos foi influenciada pelo avanço do preço do petróleo e seus efeitos sobre outras commodities e fretes, ponderou Goulart.
“Tivemos custos muito altos. E as empresas não tiveram toda a capacidade nem toda a possibilidade de repassar esses custos”, afirmou.
De fato, diante dos impasses das negociações entre Estados Unidos e Irã sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, os barris de petróleo chegaram a superar os US$ 100 em maio.
Depois, em meados de junho, arrefeceram e voltaram ao patamar de US$ 72. Nesta terça-feira (11), por exemplo, negociam em torno de US$ 80.
Custos começam a cair
Apesar da deterioração observada entre abril e junho, a Eucatex já identifica uma mudança no comportamento dos insumos.
De acordo com Sérgio Ribeiro, CFO (diretor financeiro) da companhia, a resina recuou cerca de 20% até agosto, acompanhando a queda do petróleo.
Nesse sentido, a expectativa da empresa é de que outras matérias-primas também apresentem algum alívio.
“A ureia é um elemento importante e que também sofreu. Mas ela tem uma sazonalidade anual, porque é bem usada na área agrícola. Ela costuma voltar agora [no segundo semestre]. A projeção é a mesma para o metanol”, disse Ribeiro.
Para o VP José Antônio, esse movimento dos valores, combinado aos reajustes de preços realizados pela Eucatex ao longo do segundo trimestre, deve permitir uma recuperação das margens daqui para frente.
“Agora a gente tem um arrefecimento desses insumos, de tal sorte que deve recompor margens no terceiro trimestre. Porque volume a gente tem”, afirmou.
Demanda antecipada
Goulart também ponderou que março (último mês do primeiro trimestre) registrou recorde de vendas para o mercado de painéis, em meio ao aumento de clientes da indústria moveleira e revendedores.
Na avaliação do executivo, a escalada dos preços dos insumos provocada pelo conflito no Oriente Médio pode ter contribuído para um movimento de antecipação de compras, ao estimular a formação de estoques.
Embora pareça positivo, isso significa dizer que parte da demanda que normalmente seria faturada no segundo trimestre foi antecipada para os primeiros meses do ano.
“Em março, tivemos recorde no mercado de painéis. Isso, obviamente, tirou um pouco do volume de abril e comeu um pouco do volume do 2T26”, ponderou o VP.
Ainda assim, o executivo afirmou que o mercado interno segue em um nível saudável. Segundo ele, o segmento de tintas tem sido um dos destaques para a companhia, com crescimento anual próximo de 9% no primeiro semestre.
Exportações sofrem com dólar
Para além dos insumos, Goulart pontuou que o mercado externo, que representa aproximadamente 25% do faturamento da Eucatex, também pressionou a rentabilidade no 2T26.
Pelo balanço, a receita líquida de exportação da companhia apresentou retração de 11,2% entre abril e julho, quando comparada com o mesmo período de 2025.
De acordo com o executivo, o resultado foi afetado principalmente pela variação cambial.
“A gente sofre, além da questão do insumo, também com o câmbio. O câmbio está uns 10% menor este ano do que no ano passado. Isso tira também a rentabilidade.”
Segundo o CFO Sérgio Ribeiro, somente o mercado externo representa uma perda de cerca de 2 pontos percentuais de margem para a companhia.
Tarifa de Trump deve ter impacto menor que o anunciado
Nos Estados Unidos, a Eucatex mantém uma empresa própria de distribuição. Em outras palavras, a companhia exporta para sua própria operação no país, que, posteriormente, repassa os produtos aos clientes norte-americanos.
Dessa forma, Goulart explicou que as tarifas recém-anunciadas pelo presidente Donald Trump incidem sobre um preço de transferência — e não sobre o valor final pago pelo consumidor. “É uma vantagem competitiva importante”, afirmou.
Segundo o executivo, a Eucatex está sendo afetada, atualmente, por duas taxações. Uma delas é aplicada a diversos países e tem alíquotas entre 10% e 12,5%, enquanto a outra, de 25%, é específica para produtos brasileiros.
“A gente tem uma tarifa que, de certo ponto de vista, é menos prejudicial para nós, porque incide sobre vários países. Nós a recebemos e os nossos concorrentes que exportam para os Estados Unidos, em sua grande maioria, também”, disse.
Essa primeira tarifa a que Goulart se refere foi aplicada por Trump, no final de julho, contra 60 países que teriam se beneficiado comercialmente de produtos ligados ao trabalho forçado.
Nesse caso, as alíquotas são de 10% para países que, segundo os EUA, “se comprometeram a adotar e a aplicar efetivamente proibições a trabalho forçado”, e de 12,5% para países que não teriam adotado tal proibição. O Brasil acabou atingido pela faixa mais elevada.
“Há também uma segunda tarifa, que é de 25%, que pega somente os exportadores brasileiros. Essa, para nós, é mais difícil de assimilar”, afirmou Goulart.
Ainda com relação ao mercado externo, o executivo ponderou que a Eucatex conta com um estoque de aproximadamente 3,5 meses nos EUA, formado antes da incidência do tarifaço. Em sua avaliação, isso protegerá a companhia no curto prazo.
“Se o estoque fosse perfeito, a gente teria até meados de novembro para vender sem tarifa e, dali para frente, precisaria começar a negociar aumentos de preço para incorporar a taxação”.
Investimentos chegam a R$ 235 milhões
À reportagem, o VP também ponderou que, mesmo diante da queda da rentabilidade no 2T26, a Eucatex mantém o plano de investimentos (capex) de aproximadamente R$ 500 milhões em 2026.
De acordo com ele, a fabricante já desembolsou cerca R$ 235 milhões no primeiro semestre, quase metade dos recursos previstos para o ano.
A execução dos investimentos ocorre paralelamente à redução do endividamento líquido da companhia, que terminou junho em R$ 512,4 milhões, queda de 8,5% em relação ao mesmo período de 2025.
O executivo atribui a capacidade de manter os investimentos e, simultaneamente, reduzir a dívida à geração de caixa positiva e à gestão do capital de giro.
Pelo balanço, a relação entre dívida líquida e Ebitda (alavancagem) da Eucatex está abaixo de uma vez.