Entrevista: Foco do PSB é o Congresso Nacional e partido quer ocupar espaço do ‘PSDB das antigas’, diz Tabata Amaral
“Está ficando claro que o voto para o Congresso é mais importante do que o voto para presidente da República“. Diante do poder que o Parlamento ganhou desde o governo de Jair Bolsonaro (2018-2022), a deputada federal Tabata Amaral resumiu, com essa frase, qual é a missão do seu partido, o PSB, nas eleições de 2026.
“O meu foco, e o foco do nosso partido, o PSB, é o Congresso Nacional”, afirmou a parlamentar, em entrevista ao podcast Market Makers, parceiro do Money Times.
Segundo ela, o aumento da participação do partido de centro-esquerda na Câmara e no Senado evitará a aprovação de medidas como a PEC para a blindagem de políticos – barrada por pressão popular – e levará adiante propostas sociais. Entre as medidas positivas está o projeto “Pé-de-Meia”, de bolsas mensais a estudantes, idealizado por ela e encampado pelo governo federal.
“Pensem no que a gente vive; toda semana vê o Congresso formando uma maioria para votar uma coisa muito ruim para as pessoas. Qual é o objetivo do PSB? Nós somos um partido que ainda está crescendo, mas que está se renovando não só nas teses, mas também nos quadros”, afirmou a deputada.
Na avaliação da parlamentar, o PSB quer “ocupar o lugar que o PSDB das antigas deixou”. Partido que foi o maior do país e governou o Brasil com Fernando Henrique Cardoso, o PSDB perdeu força desde a derrota de Aécio Neves para Dilma Rousseff, em 2014.
Em 2018, o PSDB lançou pela última vez um nome ao Planalto, com Geraldo Alckmin. À época, ele obteve apenas 4,76% dos votos e amargou um quarto lugar.
Em 2022, em meio a uma guerra interna de poder, Alckmin migrou para o PSB e foi eleito vice-presidente da República. O PSDB lançou o nome da senadora paulista Mara Gabrilli como vice de Simone Tebet, então no MDB, que também migrou, recentemente, para o PSB.
“A gente quer ocupar esse lugar que o PSDB das antigas deixou. Um partido que olha para o social com sensibilidade, mas enfrenta a segurança de uma forma firme, e leva a sério o combate à corrupção”, afirmou. “Para ocupar esse lugar, a gente tem que ter representação no Congresso e aumentar o tamanho da nossa bancada”, completou Tabata.
Exemplos de gestão
Na entrevista para Thiago Salomão e Leopoldo Rosalino, Tabata Amaral citou como exemplos de gestão do PSB nomes como Alckmin, quando comandou São Paulo, e dos ex-governadores Renato Casagrande, no Espírito Santo, e Eduardo Campos (morto em 2014), de Pernambuco, além do atual governador da Paraíba, João Azevedo.
“Alckmin foi um baita governador, que trouxe desenvolvimento e apoiou a segurança pública. Vamos olhar para o Eduardo Campos, que foi reconhecido por ter o melhor ensino médio público e por reduzir índices de criminalidade. Vamos olhar para o Casagrande, no Espírito Santo; hoje é um estado seguro, onde a educação decola. Temos o governador João Azevedo, na Paraíba, que está voando do ponto de vista econômico”.
Governo Lula: elogios ao social e ambiental e W.O. na segurança
Tabata Amaral elogiou medidas sociais e ambientais do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas não poupou críticas à falta de políticas para segurança pública, setor no qual, segundo a deputada, “a esquerda perde por W.O.” por não apresentar um projeto.
“Sinto falta de uma política estruturante que use inteligência e tecnologia; não conseguimos nem integrar dados. Enquanto isso, batemos recordes de roubo de celular em São Paulo e ninguém faz nada”, afirmou.
Outro tema sensível para o governo atual é a modernização do Estado e o freio aos supersalários no funcionalismo público. “Temos uma elite do funcionalismo público que vive como se fosse parte da monarquia, com juízes e desembargadores recebendo R$ 500 mil por mês quando o teto é (menos de) R$ 50 mil”.
Autora de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com os supersalários, Tabata Amaral diz que não consegue apoio para a proposta caminhar “porque muitos parlamentares estão enrolados” no Judiciário e temem retaliações em caso de aprovação.
“Políticos honestos perdem eleição para eleger figuras como Eduardo Bolsonaro ou Carla Zambelli, que estão com a corda no pescoço com a Justiça”, lamentou, citando os ex-deputados federais.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro deixou o Brasil para apoiar medidas de retaliação contra o atual governo por parte dos Estados Unidos e é alvo do Supremo Tribunal Federal (STF) por pressionar a Corte. Zambelli foi presa na Itália após deixar o Brasil. Ela foi condenada a dez anos de prisão por invasão de sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e falsidade ideológica.
Projeto dos Bolsonaro é ‘enriquecer a família’
Com 32 anos e no último ano do segundo mandato, a deputada federal contou, na entrevista, sobre as dificuldades enfrentadas na infância e adolescência. Também fez críticas à família Bolsonaro, cujos membros, segundo ela, não têm projetos para o país, mas apenas projetos para enriquecimento próprio.
“Fiz uma provocação ao Flávio Bolsonaro: qual é o projeto de país dele? Eu desconheço. Ele, assim como o Eduardo e o próprio (Jair) Bolsonaro, tem um projeto para enriquecer; essa família só fez enriquecer na política”, disse.
Formada em Harvard com bolsa e oriunda de uma comunidade paulistana, Tabata Amaral afirmou que não pretende ganhar dinheiro na política. “No dia em que eu quiser ganhar dinheiro, eu saio e vou trabalhar fora. Enriquecer na política já é um péssimo sinal.”