Varejo

Eleição apertada faz brasileiro segurar o carrinho de compras — e pode tirar R$ 62 bi do varejo

03 out 2026, 8:00
eleições presidentes criptomoedas varejo
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Estudo promovido pelo Ibevar-FIA (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo) mostra que, com base em mais de duas décadas de dados, o varejo brasileiro sempre se beneficiou do período eleitoral — ao menos até o país passar a chegar dividido às urnas.

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O ano de 2026 acendeu um alerta pela semelhança com o cenário observado em outubro de 2022: um povo que chega às urnas sem saber quem ocupará a a Presidência da República em janeiro do próximo ano.

A pesquisa, divulgada em 12 de setembro, recorda que, em 2022, o brasileiro decidiu esperar. Ainda que tenha continuado indo ao supermercado e às farmácia, planos mais complexos, como troca de carro, de geladeira ou reforma da casa, foram adiados.

Segundo a pesquisa, 2022 repetiu um comportamento observado pela primeira vez em 2014.

“O Ibevar-FIA examinou mais de duas décadas de vendas do varejo, apuradas pelo IBGE, e as cruzou com o ritmo geral da economia, o IBC-Br do Banco Central, para responder a uma pergunta simples: o que uma eleição faz com o carrinho de compras do brasileiro?”, diz o estudo.

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A pesquisa identifica dois movimentos distintos. O primeiro é bom para o comércio e se repete desde 2002. Já o segundo aconteceu só duas vezes e deixou até R$ 62 bilhões na gaveta no trimestre da urna — e pode voltar a acontecer agora.

O carrinho de compras do brasileiro

A pesquisa recorda que anos de eleição são conhecidos por aquecerem a economia, seja por meio de reajustes, crédito ou programas de estímulos, fator que tem seu pico de impacto justamente no trimestre da votação.

De 2002 a 2022, o trimestre de agosto a outubro dos anos eleitorais cresceu acima do padrão dos demais anos em todas as grandes linhas do varejo. Em veículos, a diferença chega a 5,5 pontos percentuais.

“O detalhe que blinda a leitura é a lista de governos em que isso aconteceu: Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma e Temer. Quatro perfis, o mesmo resultado”, pontua o estudo.

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Mas se o ano de eleição beneficia as vendas, por que 2022 foi ruim para o comércio? O Ibevar-FIA buscou responder a esta dúvida.

Em anos “normais”, o varejo ampliado roda 2,2 pontos acima do IBC-Br entre agosto e outubro. Já nas eleições tidas como “tranquilas”, roda ainda melhor: 3,9 acima do IBC-Br, caso que aconteceu em 2010. Entretanto, nas duas eleições decididas por menos de 5 pontos no segundo turno, o sinal virou: o varejo rodou 2,3 pontos abaixo da economia em 2014 e 4,8 abaixo em 2022.

“O país dividido ao meio, sem saber qual política econômica vigoraria em janeiro, deixou o consumo para depois. A simetria é a prova de que o fenômeno não tem lado. 2014 aconteceu sob um governo de um campo político; 2022, sob o governo do campo oposto”, diz o estudo.

A conclusão apresentada pela pesquida é de que o que trava o consumo é não saber quem vence.

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Freio de R$ 62 bilhões

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O varejo ampliado brasileiro fatura cerca de R$ 4,3 trilhões por ano, segundo a pesquisa PAC/IBGE atualizada, o que dá R$ 1,08 trilhão por trimestre. Cada ponto percentual que o setor deixa de crescer entre agosto e outubro equivale a R$ 10,8 bilhões.

Nas duas eleições em que houve empate técnico, o varejo ficou 5,8 pontos abaixo do seu padrão, já descontado o ritmo da economia. São até R$ 62 bilhões que ficam na gaveta à espera do resultado, segundo a pesquisa, cerca de seis vezes o que o e-commerce inteiro fatura em um Dia dos Pais.

“Ninguém deixa de comprar arroz porque a eleição está indecisa. Mas a troca do carro, a geladeira nova e a reforma da casa esperam o resultado, e é exatamente isso que os dados mostram. Nas eleições de empate técnico, o freio se concentra nos bens duráveis, as compras de maior valor e financiamento mais longo”, conclui o estudo.

Incerteza econômica

Olhando para o ano de 2026, o estudo aponta a incerteza econômica como precedente em ano de eleição presidencial e destaca que o EPU-Brasil, índice que mede a incerteza de política econômica a partir da imprensa desde 1991, marca 238 pontos na média de janeiro a agosto. Em 2022, na mesma janela, eram 177; em 2014, 146.

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“E o varejo? Os primeiros sinais apareceram antes mesmo da campanha. O segundo trimestre veio abaixo do padrão histórico em quase todas as séries. E material de construção, o segmento que mais sofreu em 2022, é o primeiro a dar sinal: já roda 2,7 pontos atrás da economia no acumulado do ano”, diz o estudo.

Para o estudo do Ibevar-FIA, mais notável de 2026 é que os dois atos estão acontecendo ao mesmo tempo, diante dos olhos de quem acompanha os indicadores.

“O estímulo está nas ruas: os emplacamentos de veículos cresceram 16,9% em agosto, o terceiro melhor agosto da história segundo a Fenabrave, com programas setoriais em vigor. A cautela está nas expectativas. A confiança do consumidor medida pela FGV caiu pela quarta vez seguida, para 84,7 pontos, e a queda veio concentrada nas expectativas, que recuaram 5,4 pontos, enquanto a avaliação da situação presente cedeu 0,6. O consumidor diz que não sabe o que vem”, diz.

Após a eleição

O não saber tem data para acabar, e o estudo aponta que o freio se dissolve com o resultado, qualquer que seja, uma vez que, historicamente, o varejo ampliado cresce 1,5% no trimestre de novembro a janeiro, após a eleição, contra 0,9% nos anos “normais”.

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A má notícia: nas duas eleições de empate técnico, o rebote ficou abaixo do padrão: 0,1% em 2014 e 0,5% em 2022. Parte da venda adiada volta; parte não volta nunca, mostra a pesquisa.

“E o calendário de 2026 é traiçoeiro. Um eventual segundo turno em 25 de outubro desemboca direto na Black Friday, em 27 de novembro, e no Natal. As semanas mais importantes do ano do varejo começam no exato momento em que a incerteza se dissolve”, diz o estudo.

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Repórter
Formada em jornalismo pela Universidade Nove de Julho. Ingressou no Money Times em 2022 e cobre empresas, com foco em varejo e setor aéreo.
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