Fundos multimercados voltam a levar ‘surra’ e gestora questiona: Seria uma classe de ativos em extinção?
Após anos de desempenho decepcionante, resgates bilionários e dificuldade para superar o CDI, os fundos multimercado voltaram ao centro do debate entre investidores. Um relatório da TAG Investimentos, gestora com mais de R$ 18 bilhões sob gestão, levanta uma questão incômoda para a indústria: os multimercados estariam caminhando para a irrelevância?
A provocação não surge do nada. Muitas casas que se tornaram referências do mercado brasileiro ao longo das últimas décadas agora enfrentam dificuldades para entregar retornos consistentes acima do principal benchmark da renda fixa: o CDI.
Um dos sintomas mais visíveis dessa deterioração apareceu nesta semana. Em entrevista à Bloomberg, Rogério Xavier reconheceu erros de posicionamento que contribuíram para o desempenho abaixo do esperado da SPX em meio aos resgates enfrentados pela indústria. A Verde foi outra gestora que passou por um processo de encolhimento de sua estrutura nos últimos anos. E esses são apenas dois exemplos entre vários nomes tradicionais do setor.
Se havia alguma percepção de melhora, março tratou de esfriá-la. No mês, a indústria registrou sua segunda pior contração desde a pandemia. O IHFA, índice da Anbima que acompanha o desempenho dos principais fundos multimercado do país, recuou 3,42%, atrás apenas da queda de 6,24% registrada em março de 2020.
Em apenas duas semanas, o índice acumulou perda de 4,06%. Mais do que isso: 71% dos 264 maiores fundos multimercado da amostra analisada encerraram o período no vermelho.
Foi diante desse cenário que a TAG decidiu investigar se os problemas recentes representam apenas um ciclo ruim ou uma mudança estrutural. Para isso, a gestora analisou 2.091 observações diárias entre janeiro de 2018 e abril de 2026, utilizando a metodologia AKL, desenvolvida por Clifford Asness, Robert Krail e John Liew em 2001.
A conclusão é contundente: existem evidências de que a indústria precisará passar por transformações profundas para recuperar sua relevância.
O choque do petróleo expôs as fragilidades
Segundo a TAG, um dos principais fatores por trás do desempenho recente dos multimercados foi a guerra envolvendo o Irã e seus impactos sobre os mercados globais.
O choque atingiu exatamente o tipo de posicionamento predominante em grande parte da indústria brasileira: exposição comprada em emergentes via Brasil, venda de volatilidade implícita, posições aplicadas em juros apostando na convergência da Selic e redução de exposição a commodities após um longo período de ceticismo com o setor.
A chamada Operação Epic Fury, ocorrida em 28 de fevereiro, alterou completamente a dinâmica do mercado de energia. Em pouco mais de duas semanas, o Brent saltou de US$ 71 para US$ 126 por barril. Entre os dias 4 e 16 de março, o Estreito de Ormuz passou a operar de forma intermitente, enquanto seguradoras elevavam drasticamente os custos de cobertura para navios que transitavam pela região.
Segundo a TAG, a disparada do petróleo provocou um choque imediato nas expectativas de inflação e na precificação dos juros brasileiros. Muitos fundos acabaram sofrendo perdas simultâneas justamente por estarem posicionados na mesma direção, frequentemente utilizando níveis elevados de alavancagem.
O argumento mais incômodo: o Kit Brasil
Mas o relatório reserva sua crítica mais dura para outro ponto.
A pergunta formulada pela TAG é simples: por que pagar taxas elevadas por um multimercado se uma carteira passiva consegue entregar praticamente a mesma exposição de risco?
Para responder à questão, a gestora construiu o chamado “Kit Brasil”, uma carteira composta por cinco grandes fatores de risco:
- 20% em CDI pós-fixado;
- 40% em juros (metade em títulos indexados ao IPCA e metade em prefixados);
- 20% em dólar;
- 10% em bolsa brasileira;
- 10% em bolsa global em reais.
A carteira foi simulada utilizando índices de mercado, em vez de ETFs, para ampliar o histórico da análise. Segundo a gestora, essa escolha não altera as conclusões.
O resultado chamou atenção.
De acordo com o estudo, boa parte do desempenho dos multimercados pode ser explicada justamente por esses fatores. Em outras palavras, o investidor estaria pagando por uma gestão ativa que, na prática, reproduz exposições facilmente acessíveis por meio de produtos passivos.
A diferença de custos é expressiva.
Uma carteira semelhante ao Kit Brasil pode ser implementada com ETFs e fundos de baixo custo por algo entre 20 e 35 pontos-base ao ano. Já os multimercados tradicionais, operando sob a estrutura clássica de 2% de taxa de administração e 20% de performance sobre o CDI, frequentemente impõem um custo efetivo entre 250 e 400 pontos-base anuais.
Segundo a TAG, essa diferença seria justificável apenas se viesse acompanhada de retornos superiores, menor volatilidade ou estratégias realmente exclusivas.
Os dados, porém, apontam para outra direção.
Em grande parte dos casos, os fundos continuam fortemente correlacionados aos mesmos fatores presentes no Kit Brasil. Na prática, o investidor paga muito mais caro por uma exposição que poderia obter de forma simples, transparente e barata.
A exceção, ressalta a gestora, está nos fundos macro discricionários capazes de gerar alfa genuíno por meio de posições relativas, operações assimétricas e estruturas de convexidade que não podem ser replicadas por uma cesta de ETFs.
O problema é que esses casos parecem representar uma minoria dentro da indústria.
A indústria ficou presa ao passado?
Para a TAG, a crise dos multimercados também reflete uma mudança muito mais ampla no funcionamento dos mercados globais.
A análise encontra respaldo em um argumento apresentado recentemente pelo economista Louis-Vincent Gave. Segundo ele, o investidor dominante mudou.
Ao longo das últimas décadas, os mercados passaram a ser cada vez mais influenciados por profissionais com formação quantitativa e científica, orientados por tendências, algoritmos e crescimento exponencial. Em contrapartida, perdeu espaço o investidor tradicional focado em valor, narrativas econômicas e reversão à média.
Essa transformação ajuda a explicar fenômenos que desafiaram os modelos clássicos de investimento nos últimos anos: múltiplos elevados das ações americanas por períodos prolongados, valorização simultânea de tecnologia, ouro e bitcoin e o desempenho superior de estratégias de momentum em relação às abordagens baseadas em valor.
Segundo a TAG, a indústria brasileira permaneceu ancorada justamente no modelo que dominou os mercados nas décadas anteriores.
Muitos gestores continuam operando sob premissas construídas em um ambiente no qual juros, câmbio e ativos de risco tendiam a convergir para padrões históricos. O problema é que os mercados passaram a ser cada vez mais influenciados por inteligência artificial, automação, algoritmos e grandes fluxos quantitativos globais.
A própria estrutura da indústria teria contribuído para essa dificuldade de adaptação.
Com cerca de R$ 31 bilhões em resgates acumulados nos últimos três anos, diversas gestoras reduziram equipes e investimentos em pesquisa. Ao mesmo tempo, profissionais especializados em ciência de dados, inteligência artificial e estratégias quantitativas tendem a migrar para grandes centros financeiros internacionais, como Londres, Nova York e Singapura.
O resultado, na visão da TAG, é uma indústria que continua cobrando taxas elevadas enquanto entrega resultados cada vez menos competitivos.
O que pode salvar os multimercados?
Apesar das críticas, o relatório não defende o abandono dos gestores locais.
Segundo a TAG, ainda existem profissionais capazes de gerar alfa genuíno sem depender de exposição excessiva aos fatores tradicionais de mercado. O desafio é identificá-los em um universo cada vez mais dominado por estratégias que vendem beta sob o rótulo de gestão ativa.
Para a gestora, o futuro da classe de ativos provavelmente passa por uma combinação diferente daquela que predominou nas últimas décadas: uma parcela relevante de hedge funds globais, acessados por meio de estruturas locais com hedge cambial, complementada por uma participação menor dos melhores gestores brasileiros.
A conclusão é que os multimercados dificilmente desaparecerão. Mas a sobrevivência da indústria dependerá de sua capacidade de se reinventar.
Os produtos continuam parecidos, as equipes mudaram pouco e as estruturas de taxa permanecem praticamente as mesmas. O que mudou foi o mercado ao redor deles.
Em um ambiente cada vez mais dominado por ETFs, algoritmos e estratégias quantitativas, a simples exposição aos fatores tradicionais de risco já não parece suficiente para justificar os custos cobrados pela gestão ativa.
A questão, portanto, não é se os multimercados sobreviverão. É quantas casas conseguirão se adaptar antes que os investidores decidam buscar alternativas mais baratas, transparentes e eficientes.