Reportagem Especial

Futuro da ‘Guerra Fria 2.0’ está nas mãos do próximo presidente dos Estados Unidos

22 maio 2024, 15:45 - atualizado em 22 maio 2024, 15:45
Trump Biden eleições estados unidos eua
Guerra Fria 2.0: Especialistas explicam o que aconteceria em uma escalada de tensão e se há chances de uma Terceira Guerra Mundial. (Montagem: Money Times – Imagens: REUTERS/Jonathan Ernst)

“O isolacionismo transacional deve ser a principal tensão da política externa de Trump.” É o que diz o jornalista Eric Cortellessa, da revista americana Time, ao entrevistar, com exclusividade, Donald Trump em abril deste ano em Palm Beach, na Flórida.

A seis meses da eleição presidencial que promete impactar as relações internacionais como um todo, a reportagem quis entender o que o republicano fará caso ganhe um segundo mandato e sua visão para comandar a atual nação mais poderosa do mundo.

Com uma relevância avassaladora num contexto global cada vez mais polarizado, a corrida presidencial americana trava uma disputa importante para os próximos passos do que alguns analistas chamam de Guerra Fria 2.0. Isso porque, a depender do próximo presidente, saberemos qual será o tom dos próximos passos da rivalidade com a China.

Mais que isso: como a superpotência lidará com a guerra entre Israel e Hamas; se Washington continuará apoiando financeiramente a OTAN na Guerra entre a Ucrânia e a Rússia; qual será o posicionamento caso Israel e Irã voltem a se atacar; e o qual seria a resposta americana em uma invasão chinesa à Taiwan.

Por isso, separamos, a seguir, dois cenários do que pode acontecer caso a liderança da Casa Branca mude em 2025. Confira:

Guerra Fria 2.0 no cenário comandado por Donald Trump

Controverso, polêmico, irracional. Inúmeros adjetivos são usados por especialistas políticos ao falar sobre a liderança do norte-americano Donald Trump.

A que mais preocupa, no entanto, é a imprevisibilidade. Isso porque, diante da escalada de tensão no mundo, a falta de previsibilidade notada no comando do magnata pode ter consequências ainda mais nocivas ao globo como um todo.

Na recente entrevista de Trump à Time, o republicano já explicou como irá lidar com alguns posicionamentos internacionais do país. A que chama mais atenção, porém, é em relação aos desdobramentos da Guerra na Ucrânia. Oponente histórico dos Estados Unidos, a Rússia tem na China a principal aliada na disputa no continente europeu. Atualmente, os Estados Unidos, juntamente com a União Europeia, tem apoiado, quase que irrestritamente, a OTAN, que financia e dá todo suporte à Ucrânia.

Caso Trump vença a corrida eleitoral da Casa Branca, ele afirmou que não “daria um centavo à OTAN”. Segundo o republicano, a preocupação da Guerra entre Ucrânia e Rússia deve ser da Europa, e os americanos não deveriam estar pagando a conta.

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O problema, porém, é que a saída de Washington da disputa terá uma reação em cadeia no local. Os países da União Europeia terão dificuldade de bancar o conflito sem o apoio dos norte-americanos, e a Rússia já demonstrou que se preparou para anos de tensão. Isso pode culminar em crises econômicas em países-chave no continente europeu e, consequentemente, aumentará a presença de partidos de extrema-direita.

“A retirada dos Estados Unidos na Guerra da Ucrânia enfraquece as lideranças que apoiaram e lutaram contra a Rússia. Isso fará com que a extrema-direita cresça na Europa.” diz Alcides Peron, cientista político e professor de relações internacionais na FECAP. “O possível retorno do Trump pode colocar em xeque essa disputa da hegemonia norte-americana, o que pode expandir o poder russo e chinês”, afirma.

Complementando a visão de Peron, Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM, acredita que a democracia liberal na Europa está em risco, justamente pela ascensão do nacionalismo e possibilidade de volta de Donald Trump ao governo americano. Isso porque, se o republicano romper com a OTAN, além de partidos extremistas ganharem força no continente europeu, as relações entre EUA e Europa irão estremecer.

Para o especialista, vivemos hoje em uma disputa de poder de dois blocos, mas que pode vir a se transformar
em uma nova década de 1930, com três grandes linhas ideológicas disputando o poder: nacionalismo, democracia e o autoritarismo.

Somado a isso, também há o receio de escalada de tensão entre Israel e Irã. No atual comando de Joe Biden, o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pisou no freio e não intensificou o confronto direto com o país – que, segundo os israelenses, apoia e financia os grupos insurgentes, como o Hamas. Mas, num eventual governo Trump, é possível esperar um confronto mais acirrado entre os países do Oriente Médio, já que o republicano informou que apoiará Israel num eventual conflito armado contra o Irã.

“A impressão que eu tenho é a de que Donald Trump vai dobrar a aposta. Ou seja: haverá radicalização não só na política externa, mas na interna, também”, afirma Leonardo Paz, cientista político e analista de Inteligência Qualitativa no Núcleo de Inteligência Internacional da FGV. “Temos uma situação na qual a minha preocupação com o Trump é de acirramento de tensões dentro e fora, com mais anos de avanço no descolamento da China”, diz.

Guerra Fria 2.0 no cenário comandado por Joe Biden

Tido como mais pragmático e racional que Donald Trump, a permanência de Joe Biden na Casa Branca daria um pouco mais de tranquilidade aos europeus e à Ucrânia. Nessa toada, o temor dos EUA perderem relevância global pelo desprestígio à OTAN é mais remota, além de minar qualquer enfraquecimento nas relações entre EUA e União Europeia.

É importante relembrar, também, que Biden tem feito uma ofensiva para mitigar o avanço chinês no mundo e aumentar a influência norte-americana ao redor do globo – e principalmente próximo da China. Em maio de 2022, por exemplo, o democrata travou um acordo comercial Indo-Pacífico, com 12 países indo-asiáticos – Austrália, Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Singapura, Vietnã, Tailândia, Malásia, Nova Zelândia, Brunei, Índia e Indonésia.

Biden também lançou uma série de apoios financeiros para ajudar militarmente Taiwan, por meio de um programa usado para nações soberanas, aumentando ainda mais a rivalidade com o governo chinês.

“A questão de Taiwan talvez seja a mais importante para Biden. Uma eventual invasão da China no local, pode mexer nas peças do tabuleiro. Isso porque o Trump tem uma tendência mais isolacionista. Já no comando do Biden, uma hipotética invasão chinesa em Taiwan, faria com que o democrata respondesse militarmente”, diz Ricardo Cachiolo, Ph.D. em Ciências Políticas e Sociais pela Université Catholique de Louvain, Bélgica, e Professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília.

Por já ter se manifestado publicamente sobre o tema, uma eventual intervenção chinesa em Taiwan pode culminar em uma escalada militar global inclusive entre EUA e China, algo que não foi visto diretamente na Guerra Fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética (URSS) – já que os conflitos eram indiretos.

Há chances de uma terceira grande guerra?

Indagados sobre uma possível Terceira Grande Guerra, foi praticamente unânime entre os analistas ouvidos pelo Money Times de que a possibilidade é bem remota, quase nula. Independente de qual candidato vença a corrida à Casa Branca, a tendência é mais de protecionismo e sanções econômicas contra o avanço tecnológico chinês e de semicondutores, do que uma grande Guerra Mundial.

Além disso, para eles, a probabilidade é a de que os dois polos – China e EUA – sigam financiando e apoiando países em conflitos, como é o caso da Guerra na Ucrânia, do que de fato entrem nos conflitos.

Mesmo uma possível intervenção chinesa a Taiwan é vista como remota, justamente pela declaração norte-americana de resposta militar. Para as nações, a busca pela hegemonia não se dará por meio de conflitos bélicos diretos – até porque a China sabe da superpotência militar americana.

Com o resultado das eleições na Casa Branca, teremos um desenrolar mais claro sobre o futuro da Guerra Fria 2.0. Independente do resultado, uma coisa é clara: os americanos não irão facilitar os avanços tecnológicos dos chineses. Basta saber como Pequim irá reagir em meio a tantas sanções.

Jornalista especializada na cobertura de economia e negócios globais. Formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, possui MBA em relações internacionais pela FGV. Ao longos dos 13 anos de carreira, passou por veículos como Exame, IstoÉ Dinheiro e CNN. Na Creditas, foi líder da área de conteúdo da fintech. Nos últimos 3 anos, foi sócia-diretora do núcleo de conteúdo e digital da agência VCRP. Em 2016, ganhou a 28ª edição do Prêmio BM&FBovespa de Jornalismo, com a reportagem “Sua empresa precisa de um toque feminino", publicada na IstoÉ Dinheiro.
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Jornalista especializada na cobertura de economia e negócios globais. Formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, possui MBA em relações internacionais pela FGV. Ao longos dos 13 anos de carreira, passou por veículos como Exame, IstoÉ Dinheiro e CNN. Na Creditas, foi líder da área de conteúdo da fintech. Nos últimos 3 anos, foi sócia-diretora do núcleo de conteúdo e digital da agência VCRP. Em 2016, ganhou a 28ª edição do Prêmio BM&FBovespa de Jornalismo, com a reportagem “Sua empresa precisa de um toque feminino", publicada na IstoÉ Dinheiro.
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