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Grupo Bergamasco X BTRA11: Entenda o impasse que levou à queda do fundo imobiliário; fim dos Fiagros?

27 jul 2023, 17:15 - atualizado em 30 nov 2023, 13:17
Soja Grãos Agricultura Agronegócio Commodities
Segundo o BTG, a inadimplência deve gerar um impacto negativo de até R$ 0,33 por cota por mês; nova reunião deve ocorrer nesta sexta (28) (Imagem: Reuters/Roberto Samora)

O impasse em torno do fundo imobiliários BTG Pactual Terras Agrícolas (BRTA11) e o Grupo Bergamasco pode ter um capítulo decisivo nesta sexta-feira (28), quando as partes se encontrarão para renegociar os termos do acordo firmado em outubro de 2021, segundo apurou o Agro Times com pessoas a par do caso.

No centro da mesa, está a avaliação do Grupo Bergamasco de que o cenário do agronegócio mudou, e as condições acertadas há dois anos tornaram-se inviáveis. “Somos produtores de grãos (soja e milho), e nossa receita vem da lavoura, com o pagamento em reais”, explicou uma fonte do Grupo Bergamasco ao Agro Times, após pedir anonimato por se tratar de uma negociação em curso.

Segundo ele, o contrato com o BRTA11 prevê o pagamento de duas parcelas semestrais. Para levar o BTG Pactual à mesa de negociações, o Bergamasco deixou de pagar a última parcela. Em comunicado ao mercado, o BRTA11 informou os cotistas que isso pode acarretar num impacto negativo mensal de R$ 0,33 por cota. O aviso aos cotistas levou o BRTA11 a despencar 10% na terça-feira (25).

“Na nossa visão, é algo impagável para a realidade de Mato Grosso. As médias das lavouras giram em torno de 50-62 sacas de soja por hectare, e o custo da operação gira em torno de 72-73 sacas por hectare”, afirmou o porta-voz do Bergamasco. “Ou seja, a produção paga apenas o custo, sem contar com outros gastos da nossa atividade. Não há margem para pagarmos essa taxa, ainda mais neste momento de crise “, explica.

Segundo a fonte que conversou com o Agro Times, o acordo firmado com o BTG equivale ao pagamento entre 70 e 90 sacas de soja por hectare.

Vale lembrar que há exatos 6 meses, o preço da saca de soja em Lucas do Rio Verde, de acordo com o indicador do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), era de R$ 148,28, e hoje, o preço está em R$ 117,15, queda de 21%.

Na Bolsa de Chicago (CBOT), a variação é um pouco menor, ainda que expressiva, com o bushel do grão passando de US$ 15,26 para US$ 14,12, recuo de 7,47%.

Os termos do acordo BRTA11 e o Grupo Bergamasco

Em 2021, o Grupo Bergamasco vendeu duas fazendas para o BRTA11, e passou a pagar parcelas semestrais pelo seu uso.

As propriedades produzem principalmente soja, e estão localizadas nos municípios de Tapurah (1,7 mil hectares) e Nova Mutum (400 hectares). Segundo a fonte, os juros ofertados na época do acordo eram de IPCA + 3% (11,75% ao ano) foi o que chamou a atenção do Grupo Bergamasco.

“O grande problema fica para o prazo de pagamento. Essa operação de Fiagro impossibilita o pagamento, com isso, honramos esse compromisso até o mês passado e, depois disso, buscamos a reestruturação da operação de maneira amigável com o banco, para anteciparmos essa garantia, já que terminaríamos de pagar em 6 anos e se juntarmos o juros mais o valor do capital, vamos pagar o triplo do valor da fazenda, algo inviável”, pontua.

O BRTA11 foi constituído em julho de 2021. Segundo seu último relatório mensal de resultados, conta, atualmente, com um patrimônio líquido de R$ 399,3 milhões e 21.260 cotistas. Seu objetivo é “comprar terras produtivas (rurais e urbanas) e em fase de transformação (oportunisticamente) localizadas nas principais regiões do território brasileiro.”

Em seu site, o fundo afirma que sua “estratégia de investimento ocorre via adoção de contratos atípicos de locação de longo prazo corrigidos pela inflação, com sólida estrutura de garantias.” Contratos atípicos de locação são aqueles não regidos pela Lei 8.245 de 1991, conhecida como Lei do Inquilinato, por tratarem de casos muito particulares.

A rentabilidade perseguida pelo fundo é de 9% ao ano, sem considerar eventuais valorizações das propriedades rurais.

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Fim da linha para os Fiagros?

De acordo com a fonte do Bergamasco, outras empresas da região que firmaram acordos de Fiagros em Mato Grosso também tentam renegociar suas parcelas, por não conseguirem mais honrá-las.

Assim, os Fundos de Investimento do Agronegócio, os chamados Fiagros, são uma junção de recursos de diversos investidores para aplicar o dinheiro em ativos porteira adentro e fora.

Apesar das discussões para criação do produto, a lei que instituiu o Fiagro é recente e completou 2 anos em março. Assim, os ativos contam com estruturas baseadas nos Fundos de Participações (FIPs), Fundos de Direitos Creditórios (FIDCs) ou Fundos Imobiliários (FIIs).

O Grupo Bergamasco ressalta que nunca foi intenção da empresa causar qualquer transtorno ou prejuízos para os acionistas, mas que é preciso considerar a atual conjuntura econômica de queda no preço das commodities.

Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por pouco mais de 3 anos no Canal Rural, onde atuou como editor do Rural Notícias, programa de TV diário dedicado à cobertura do agronegócio. Por lá, participou da produção e reportagem do Projeto Soja Brasil, que cobre o ciclo da oleaginosa do plantio à colheita, e do Agro em Campo, programa exibido durante a Copa do Mundo do Catar e que buscava mostrar as conexões entre o futebol e o agronegócio.
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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por pouco mais de 3 anos no Canal Rural, onde atuou como editor do Rural Notícias, programa de TV diário dedicado à cobertura do agronegócio. Por lá, participou da produção e reportagem do Projeto Soja Brasil, que cobre o ciclo da oleaginosa do plantio à colheita, e do Agro em Campo, programa exibido durante a Copa do Mundo do Catar e que buscava mostrar as conexões entre o futebol e o agronegócio.
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