Investidores mudaram o jogo: Por que FIDCs deixaram ações para trás
A indústria de fundos de investimento no Brasil registrou em 2025 uma mudança significativa na alocação de recursos, com redução na participação de fundos de ações e multimercados em favor de veículos de crédito estruturado.
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) encerraram dezembro de 2025 com um patrimônio líquido de R$ 734,8 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA).
Esse montante coloca a classe acima do volume total aplicado em fundos de ações, marcando um novo patamar na composição do mercado de capitais nacional.
A análise dos fluxos financeiros indica que a migração de recursos vai além de ajustes conjunturais relacionados a taxas de juros ou desempenho momentâneo das diferentes classes de fundos. Trata-se de uma mudança estrutural na captação de recursos pelas empresas e na alocação de risco pelos investidores.
Em 2025, os FIDCs registraram captação líquida de R$ 61,4 bilhões, enquanto o número de cotistas cresceu 114,6%, passando de 172 mil em janeiro para 369 mil em dezembro.
O principal motor desse crescimento foi a modernização do arcabouço regulatório, em especial a Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que revisou regras de funcionamento e responsabilidades dos prestadores de serviço e abriu o acesso a investidores de varejo — antes restrito a investidores qualificados.
A democratização do acesso trouxe investidores individuais em busca de ativos com lastro na economia real e fluxos de pagamentos previsíveis.
Nos FIDCs, o fundo adquire direitos creditórios lastreados em diversas operações, como duplicatas, recebíveis de cartões, aluguéis, CPRs, CCBs e contratos de fornecimento. Esse mecanismo transfere o risco de crédito da empresa originadora para a estrutura do fundo, que é segmentada em cotas com diferentes níveis de subordinação.
As cotas seniores oferecem prioridade nos recebimentos e menor exposição à inadimplência, enquanto as cotas subordinadas absorvem as primeiras perdas (“first loss”). Essa engenharia financeira permite que empresas de diferentes setores obtenham financiamento fora do sistema bancário tradicional, reduzindo custos de intermediação e viabilizando crédito para as mais diversas finalidades.
A migração de capital para o crédito privado estruturado reflete maior maturidade na avaliação de risco pelos investidores. Enquanto fundos multimercados e de ações dependem da variação de preços de ativos e de estratégias de gestão em mercados voláteis, os FIDCs se baseiam na solvência de cadeias produtivas e em operações de crédito diversificadas.
O crescimento do patrimônio líquido para R$ 734,8 bilhões indica que tanto investidores institucionais quanto de varejo veem nesses veículos uma alternativa de retorno ligada a setores como varejo, agronegócio e indústria.
O cenário de 2025 reforça a consolidação do mercado de capitais como fonte de liquidez para a economia. A expansão da base de cotistas e o aumento do volume de recursos sob gestão nos FIDCs estabelecem um novo patamar de concorrência para o setor bancário.
A tendência é que esses fundos mantenham relevância na carteira dos brasileiros, graças à estrutura de garantias e à diversificação de cedentes e sacados, que proporcionam relação risco-retorno menos atrelada às oscilações do mercado acionário.
O fechamento de 2025 confirma que os recursos não apenas saíram de produtos tradicionais, mas encontraram destino em estruturas que financiam diretamente a atividade empresarial. O recorde no patrimônio líquido dos FIDCs reforça a transição do mercado de investimentos de ativos especulativos para direitos creditórios e financiamento da produção.