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Ivan Sant’Anna: Jogo só de perdedores

29/09/2019 - 20:05

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Por Ivan Sant’Anna, autor das newsletters de investimentos Warm Up Inversa e Os Mercadores da Noite

Caro leitor,

Como já mencionei nesta coluna em outras ocasiões, durante a década de 1980 e início da de 1990, eu escrevia uma crônica mensal chamada Relatório FNJ, sigla da distribuidora de valores na qual operava derivativos nos mercados nacional e internacional.

Cada mês de janeiro, saía uma retrospectiva do ano que acabara de se encerrar, assim como uma projeção para o período seguinte.

Pois bem, no início de 1988, com a inflação brasileira se aproximando de níveis perigosos (20% ao mês), publiquei um estudo, feito em parceria com minha pesquisadora, Liana Pérola Schiffer, avaliando as perspectivas de acontecer uma hiperinflação no Brasil, e o que fazer com os investimentos se ela viesse a se materializar.

+ Revelado aqui como é possível ficar rico com leilões. Aconteceu há 20 anos e pode acontecer de novo em 2019.

Nos debruçamos sobre os casos clássicos mais relevantes até aquela época: Alemanha (1923); Áustria (1922); e Hungria (1945/1946).

Quando Adolf Hitler tentou dar um golpe de estado em novembro de 1923 (conhecido como Putsch da Cervejaria), não por acaso a hiper alemã estava em seu auge: um dólar valia cem trilhões de marcos.

Como não havia correção monetária – e, se houvesse, não adiantaria muito naquele nível hiperinflacionário, como se verá mais adiante − as pessoas, principalmente os aposentados, entraram em completo desespero. Daí o prestígio do fanático cabo austríaco, que culpava os judeus pelo que estava acontecendo.

O golpe não deu certo. Hitler foi condenado a cinco anos de prisão, sendo solto em oito meses. Mas só voltou a ter grande prestígio no início da década de 1930, com a chegada do desemprego provocado pelo crash da Bolsa de Valores de Nova York e o início da Grande Depressão.

Um ano antes da hiperinflação alemã, aconteceu o caso austríaco. Não foi tão drástico. Entre 1921 e 1922, o índice de preços ao consumidor subiu 10.000%.

Nessa matéria, nada foi tão dramático quanto a inflação húngara de 1945/1946, sendo a moeda local o pengo. O valor da cédula mais alta chegou a 6 quintilhões de pengos.

Na tentativa de conter tal barbaridade, o governo criou uma nova moeda, o ado pengo, que nada mais era do que o pengo com correção monetária. E não é que o país passou a ter hiperinflação em ado pengos!

Em 18 de agosto de 1946, a autoridade monetária húngara instituiu o forint, valendo 400 octilhões de ado pengos. Todas as dívidas do governo e de particulares foram consideradas nulas. A inflação acabou.

Quando, no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 1989, Fernando Collor venceu Lula por 53,03% a 46,97% dos votos, a inflação aqui era de 51,50% ao mês, 1.972,92% ao ano. Portanto, já hiperinflação − Phillip Cagan (1927/2012), considerado o maior teórico sobre o assunto, considera como hiper qualquer número acima de 50% mensais.

Entre o 2º turno (17.12.1989) e a posse (15.03.1990), Collor viajou por diversos países do mundo para tentar atrair capital para o Brasil.

Numa entrevista coletiva no Japão, quando um repórter lhe perguntou como iria acabar com a inflação, o presidente eleito respondeu:

“Por ippon” (o golpe perfeito no judô).

Fiquei com aquilo na cabeça. Como é que será esse ippon? Me lembrei dos casos austríaco, alemão e húngaro. Estudei outros: Israel e Bolívia.

Cheguei à conclusão de que Collor tomaria alguma medida drástica e que todos os investimentos em cruzados sairiam perdendo. Escrevi isso em meu Relatório FNJ datado de 1º de janeiro de 1990.

A ideia era transformar todas as minhas aplicações em dinheiro vivo. O problema dessa decisão é que a moeda perdia valor a cada dia.

Se deixasse para sacar meus saldos na véspera da posse, havia a possibilidade de que Collor, fazendo algum trato com seu antecessor, presidente José Sarney (como realmente acabou acontecendo), obtivesse um feriado bancário prolongado.

Caso retirasse a grana muito antes, ela seria desidratada pela inflação fora de controle.

Acabei acertando na mosca. Liquidei meus investimentos na véspera do feriado bancário decretado por Sarney. Troquei tudo por dólares numa casa de câmbio e guardei as verdinhas lá em casa na gaveta de um armário.

O Plano Collor (o tal ippon mencionado pelo presidente) foi decretado por medida provisória em 16 de março de 1990, um dia após a posse.

Entre outras coisas (como congelamento de salários e preços e mudança do nome da moeda, que deixou de ser cruzado e voltou a se chamar cruzeiro), 80% dos valores depositados no open market, nas contas correntes dos bancos e nas cadernetas de poupança foram congelados por 18 meses.

Nesse período, o dinheiro bloqueado seria corrigido monetariamente, com um acréscimo de juros de 6% ao ano.

Sorte minha, que tinha tudo em verdinhas. Certo?

Errado! Quebrei a cara.

Eu comprara os dólares no câmbio paralelo (que a gente chamava de black), pagando tremendo ágio sobre a cotação oficial, e ainda perdera uns cinco dias de aplicação em cruzados, valor expressivo em época de hiper.

Com o bloqueio do dinheiro, o Brasil inteiro ficou à míngua. O ágio do dólar paralelo despencou. Simplesmente não havia compradores para a moeda americana.

Quem tinha dinheiro aplicado em Bolsa perdeu duplamente: as ações desabaram, por falta de liquidez no mercado; a previsão de lucro das empresas foi para o vinagre.

O valor dos imóveis caiu muito, assim como o preço da grama de ouro.
Aquele ippon derrubou todo mundo. O lutador que o aplicou, o perdedor da luta e até o juiz e seus três auxiliares.

Nem o presidente escapou. Novecentos e trinta e um dias após ter confiscado o dinheiro dos brasileiros, foi apeado do cargo e deixou o palácio do Planalto sob vaias.

Se você tiver críticas, elogios, sugestões ou perguntas ao autor desta newsletter, envie um e-mail para [email protected].

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Última atualização por Gustavo Kahil - 29/09/2019 - 20:05

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