Juros futuros mantêm trajetória de alta e voltam a superar 14% em todos os vencimentos
A curva de juros futuros brasileira teve mais uma sessão de fortes ganhos, com as taxas voltando a superar 14% em todos os vencimentos, em meio à cautela com a guerra no Irã e choques inflacionários na economia global.
A taxa de Depósito Interfinanceiro (DIs) para janeiro de 2027, de curtíssimo prazo, fechou a 14,320% ante 14,105% do ajuste anterior. Mais cedo, a taxa bateu máxima a 14,360%, uma alta de 25 pontos-base.
Já a taxa de DI para janeiro de 2029, de médio prazo, terminou a sessão a 14,085% ante 13,815% do fechamento anterior. Na máxima intradia, o DI subiu a 14,125%, alta de 31 pontos-base.
Já DI para janeiro de 2036, de longo prazo, encerrou o dia a 14,105% ante 13,980% do fechamento de ontem (23), após subir 16 pontos-base, a 14,130%, na máxima intradia.
O movimento também acompanhou o exterior. Nos Estados Unidos, os rendimentos (yields) dos títulos do Tesouro norte-americano, os Treasuries, também fecharam em alta, em meio às incertezas de duração da guerra no Oriente Médio e os preços de petróleo de volta ao nível de US$ 100 o barril.
O yield do Treasury de dois anos – mais sensível a política monetária – fechou próximo da estabilidade a 3,882% ante 3,881% do ajuste anterior. Já o retorno do título de dez anos – referência global para decisões de investimento – subiu a 4,412% ante 4,328% da véspera.
Todos os olhos na inflação
As taxas de DIs reagiram a novos dados de inflação e perspectivas do Banco Central (BC) para a economia brasileira.
A prévia da inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15), avançou 0,44% em março, puxada por Alimentação e Bebidas e Despesas Pessoais. A estimativa era de alta de 0,29% neste mês, de acordo com a mediana das projeções do Broadcast.
O IPCA-15 fechou o período de 12 meses com alta acumulada de 3,90% – dentro do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central (BC), que é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual (p.p.) para cima ou para baixo.
Já o BC revisou para cima suas projeções de inflação no chamado horizonte relevante — o período em que o Comitê de Política Monetária (Copom) avalia os efeitos de sua política sobre a economia.
Segundo o Relatório de Política Monetária (RPM), a expectativa para o terceiro trimestre de 2027 subiu 0,1 ponto percentual, para 3,3%.
Entre os fatores de alta, estão a elevação do preço do petróleo e a revisão do hiato do produto, que indica atividade econômica acima da capacidade potencial. Por outro lado, a apreciação do real e a leve queda nas expectativas de mercado ajudaram a conter o avanço.
Na avaliação de economistas consultados pelo Money Times, o RPM veio em linha com a ata e o comunicado do Copom, reforçando o cenário de incertezas geopolíticas com o conflito no Oriente Médio e os riscos, tanto altistas quanto baixistas, que a guerra traz para a inflação.
Durante a coletiva, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que o conservadorismo da política monetária em 2025 deu à autarquia “gordura” para poder analisar os desdobramentos da guerra no Oriente Médio.
Entre profissionais do mercado ouvidos pela Reuters, a avaliação é de que, no cenário atual, o BC caminha para cortar a Selic em apenas 25 pontos-base em abril – e não mais em 50 pontos-base, como os ativos estavam precificando anteriormente. A Selic está em 14,75% ao ano.
“O BC vai acelerar (os cortes da Selic) apenas em junho. Mas, claro, dependendo do cenário internacional”, avaliou o economista-chefe do Bmg, Flavio Serrano.
Na B3, as opções de Copom precificavam ontem (25) –– na atualização mais recente, 37,50% de chance de o Copom cortar a Selic em 50 pontos-base, para 14,25% ao ano. A probabilidade de redução de 25 pontos-base, para 14,50% a.a., era de 37% e a chance de manutenção em 17%.
Antes da guerra, os percentuais eram de 77,50% para corte de 50 pontos-base em abril, 20,04% para redução de 25 pontos-base e zero para manutenção.
Conflito no Irã
No 27º dia de conflito no Irã, o mercado continuou a monitorar os desdobramentos e aumentou a aversão a risco, com novas incertezas sobre a duração da guerra.
Pela manhã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que o Irã está desesperado por um acordo para pôr fim a quase quatro semanas de combates, mas que os negociadores iranianos são “estranhos”.
“Os negociadores iranianos são muito diferentes e ‘estranhos’. Eles estão ‘implorando’ para que façamos um acordo, o que deveriam estar fazendo, já que foram militarmente aniquilados, sem nenhuma chance de recuperação, e ainda assim declaram publicamente que estão apenas ‘analisando nossa proposta’”, disse Trump na Truth Social.
Na mesma publicação, o chefe da Casa Branca disse que o Irã deve “levar a sério” o acordo para pôr fim à guerra.
Até agora, autoridades do Irã têm negado as negociações para um cessar-fogo. Ontem (25), o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, disse que as “conversas indiretas” não equivalem a uma negociação.
Já no final da tarde, Trump anunciou que estava interrompendo os ataques às usinas de energia do Irã por 10 dias, até 6 de abril, a pedido do governo iraniano, e afirmou que as negociações com Teerã estão indo “muito bem”.
*Com informações de Reuters