Mais de mil dias e um novo desafio político: Haddad leva espólio da Fazenda para mais uma campanha ao governo de São Paulo
Fernando Haddad superou três anos no comando da Economia do País consolidado como a viga mestra da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Se o horizonte de 2023, ao assumir o caro, era nublado pelo descrédito de setores da Faria Lima, o titular da Fazenda respondeu com destreza política, sofreu com críticas, mas encerra seu mandato com ao menos uma demanda histórica aprovada: a Reforma Tributária, um gargalo que, durante seu mandato, saiu do papel.
Haddad conseguiu sepultar o antigo teto de gastos em troca do Novo Arcabouço Fiscal. A medida trouxe, em um primeiro momento, certa previsibilidade exigida pelo empresariado para os gastos públicos, ainda que tenha se transformado em alvo de ataques por parte de setores favoráveis ao empenho sem limites.
Nos pouco mais de mil dias da “Era Haddad” a economia brasileira se mostrou mais forte do que muitas previsões. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu acima do esperado. Ao mesmo tempo, a inflação foi colocada na rédea curta e veio para dentro da meta.
Com essa calmaria, o Comitê de Política Econômica (Copom) começou, nesta quarta-feira (18), a cortar a taxa de juros (Selic), ainda que num ritmo bem mais lento do cobrado pelo governo e pelo próprio Haddad. Com a economia aquecida, o Brasil atingiu o menor índice de desocupação desde 2014, puxado principalmente pelo consumo.
O “Fogo Amigo” e a Resistência Ideológica
A despeito da performance técnica, a travessia de Haddad foi fustigada por crises políticas domésticas. O ministro converteu-se no para-raios da ala ortodoxa do PT e de movimentos de base, que o rotulam como o “ajustador” de plantão. Para esse núcleo, as novas diretrizes fiscais não passam de um “Teto de Gastos repaginado”, capaz de asfixiar aportes cruciais em infraestrutura e desenvolvimento.
A obstinação de Haddad pela meta de déficit zero fez dele a vidraça predileta do partido e valor de representantes da cúpula da legenda. Para os entusiastas da expansão do gasto público, as travas de contenção do Arcabouço Fiscal, como o represamento de concursos e subsídios, travaram o serviço público e se tornaram um entrave ao crescimento.
A “Ofensiva Arrecadatória” e o Custo na Opinião Pública
A estratégia de estancar sangrias fiscais e a sanha arrecadatória de Haddad atingiram o bolso (e a paciência) do cidadão com a “Taxa das Blusinhas“. A cobrança de 20% sobre compras em plataformas internacionais de até US$ 50 rendeu a Haddad o apelido de “Taxad” nas redes sociais.
No pacote de desgastes entram ainda o imbróglio da regulamentação das apostas esportivas e a queda de braço para sepultar a desoneração da folha de 17 setores. O tema desgastou a relação com sindicatos e entidades de classe, sendo pacificado somente após uma exaustiva negociação para uma transição escalonada da carga tributária.
Soldado das Urnas: uma vitória e três derrotas
Na biografia política, Haddad deixou em 2012 o Ministério da Educação e foi eleito prefeito de São Paulo, entre 2013-2016, superando José Serra (PSDB). Foi seu primeiro e único cargo eletivo. Em 2016, perdeu a reeleição para João Doria (PSDB) ainda no primeiro turno.
Carregou a bandeira petista na eleição presidencial de 2018, herdando o espólio de um Luiz Inácio Lula da Silva, impedido de concorrer contra o vitorioso Jair Bolsonaro (PL) por estar preso. Sofreu um novo revés, para o Palácio dos Bandeirantes, em 2022, sendo derrotado por Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas a vitória de Lula em São Paulo e a fidelidade de Haddad ao presidente o alçaram ao Ministério da Fazenda.
A Cartada de 2026: O próximo passo do tabuleiro
Haddad deixa o comando da Fazenda para repetir a disputa com Tarcísio no governo de São Paulo, em 2026. A lógica do Planalto é pragmática: para manter a hegemonia no maior colégio eleitoral, Lula precisa de um ativo com projeção federal e que transite com fluidez com os setores econômicos.
Municiado pela Reforma Tributária e pelo respaldo das agências de rating, Haddad leva seu espólio político para a campanha ao governo do Estado e surge como o sucessor natural de Lula. Mesmo que perca novamente a eleição, é o nome favorito do PT para ser o candidato a presidente em 2030.
* Com orientação de Gustavo Porto