Minha Casa, Minha Vida: Juros altos travam média renda, mas Faixa 4 deve avançar em 2026, diz Abecip
A Faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida (MCMV) deve começar a apresentar números mais relevantes em 2026, após um período de adaptação do mercado, segundo avaliação de Priscilla Ciolli, presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
Na visão da executiva, embora a criação do novo nível tenha sido uma medida positiva, incorporadoras, construtoras e até instituições financeiras não estavam totalmente preparadas para operar no segmento.
“A Faixa 4 é uma boa iniciativa, mas o mercado não estava preparado. Houve dúvidas sobre limite de renda, metragem e perfil dos empreendimentos. Ao longo de 2025, o setor começou a se estruturar para operar esse programa”, afirmou Ciolli, durante coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (27), em São Paulo.
Em sua fala, a presidente da Abecip relembrou que a Faixa 4 tem como principal objetivo atender a média renda, segmento que, segundo ela, foi o mais impactado nos últimos meses pelo aumento da taxa de juros.
“Esse foi o mercado [classe média] que mais sentiu em 2025. Por isso, acredito que vamos observar em 2026 números diferentes, tanto em empreendimentos lançados voltados à Faixa 4 quanto na atuação das instituições”, disse.
Criada pelo governo federal em abril passado, o nível 4 do Minha Casa, Minha Vida ampliou o financiamento habitacional para famílias com renda mensal entre R$ 8,6 mil e R$ 12 mil.
Emprego ajuda, mas juros seguem como entrave
De acordo com Ciolli, dentro da indústria imobiliária, os efeitos dos juros elevados se manifestam de forma distinta.
“Quando falamos da baixa renda, não vemos esse movimento [negativo] porque os programas habitacionais subsidiam muito. Estamos falando de taxas abaixo de 10%. Já na alta renda, o juro alto não é um problema, né? Não existe esse impacto”, afirmou. “A grande dor é a média renda, que acaba adiando a compra do imóvel.”
Segundo a executiva, a melhora nos indicadores de emprego e de massa salarial até ajudou a amortecer os efeitos da Selic restritiva, embora não tenha sido o bastante.
“O cenário poderia ser pior se não tivéssemos esses bons indicadores. Eles contribuem para a capacidade de compra, mas, ainda assim, a média renda sente muito quando olha a taxa de juros e o valor da parcela, que acaba se tornando inviável”, explicou.
“Se tivéssemos um ambiente mais complexo em relação ao pleno emprego, teríamos indicadores muito diferentes de pagamentos, distratos, atrasos e inadimplência, e isso não foi observado”, acrescentou.
Impacto da isenção do IR
Também presente na coletiva, o diretor executivo da Abecip, Filipe Pontual, avaliou que a nova isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, em vigor desde 1° de janeiro, pode ter efeito positivo sobre o crédito imobiliário, especialmente nos níveis iniciais do MCMV.
“Esse público está concentrado principalmente nas faixas 2 e 3. Com um pouco mais de renda disponível, pode sobrar mais recurso para entrar numa prestação, ainda mais considerando que os juros do Minha Casa, Minha Vida são bastante baixos”, afirmou.
Segundo o executivo, embora o impacto seja difícil de mensurar, a combinação de maior dinheiro à disposição e inflação mais baixa, especialmente de alimentos, pode melhorar a percepção de capacidade de pagamento das famílias.