Moraes revê decisão e nega visita de assessor norte-americano a Bolsonaro
O ministro do Supremo Tribunal (STF) Alexandre de Moraes negou o pedido do ex-presidente Jair Bolsonaro para receber na prisão, na próxima semana, a visita do assessor do Departamento de Estado norte-americano Darren Beattie, um dos expoentes da extrema-direita norte-americana.
Moraes revisou sua decisão — que inicialmente autorizava o encontro — após um ofício do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apontando que a visita poderia configurar interferência de outro país em assuntos internos do Brasil, especialmente em ano eleitoral.
“O Ministério das Relações Exteriores apontou que: ‘a visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro'”, escreveu o ministro do STF, citando o ofício assinado por Mauro Vieira.
Moraes havia autorizado a visita para a próxima quarta-feira, dia regular de visitas ao ex-presidente, mas depois de um pedido da defesa de Bolsonaro para que o encontro ocorresse na terça — Beattie não estaria em Brasília na quarta –, Moraes pediu uma posição do Itamaraty.
No ofício enviado ao STF, Vieira ressaltou o risco de ingerência indevida e também destacou que o pedido de visto tomou como base a previsão de Beattie participar de um seminário sobre minerais críticos, em São Paulo, e encontros com o governo brasileiro — encontros esses, disse o Itamaraty, que não estão marcados.
Apenas na última quarta-feira, após o STF questionar Beattie sobre sua agenda para justificar a mudança de data, a embaixada norte-americana consultou o Itamaraty sobre a possibilidade de um encontro oficial com o governo brasileiro para tratar sobre o crime organizado. Nada foi marcado, no entanto.
Segundo o ofício do Itamaraty, a embaixada pediu uma reunião com a Coordenação-Geral de Ilícitos Transnacionais do Ministério das Relações Exteriores para o dia 17, pendente de confirmação.
“Também em 11/3, em mensagem de diplomata da Embaixada dos EUA por aplicativo de mensagens, solicitou-se o agendamento de encontro entre o sr. Darren Beattie e o senhor secretário de Europa e América do Norte, na tarde de 17/3. A reunião tampouco está confirmada”, diz o ofício.
Beattie foi nomeado há duas semanas para um cargo graduado do Departamento de Estado encarregado de supervisionar assuntos relacionados ao Brasil, conforme revelou a Reuters. Ele é bastante próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e do ativista de extrema-direita Paulo Figueiredo, sendo o principal contato de ambos dentro do governo dos EUA.
De acordo com uma fonte, as informações que chegaram ao governo brasileiro são de que a agenda de Beattie se concentraria em encontros com a extrema-direita e não haveria interesse real em reuniões com o governo.
A visita, que ocorre em um momento em que o Brasil vê uma melhoria na relação com os EUA pela abertura de diálogo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, incomodou o governo brasileiro, que chegou a cogitar uma reclamação formal à embaixada, disse a fonte.
O governo brasileiro considera que há grupos divergentes dentro do governo norte-americano que, mesmo com a aproximação de Trump e Lula, trabalham para minar as negociações entre os dois países, de olho nas eleições deste ano e antes de uma eventual visita do presidente a Washington, acrescentou.