O ‘calcanhar de Aquiles’ das usinas de etanol de milho, segundo o Rabobank
O avanço do etanol de milho no Brasil é uma mudança estrutural que veio para ficar, mas, na avaliação do Rabobank, o modelo carrega uma fragilidade relevante: a dependência de biomassa externa para viabilizar a geração de energia no processo industrial.
“Eu vejo a biomassa como um potencial ‘calcanhar de Aquiles’ das usinas full de etanol de milho. A grande vantagem do modelo flex é justamente contar com a biomassa da cana, além de se beneficiar de uma destilaria já instalada”, afirma Andy Duff, analista do Rabobank, ao Money Times.

As plantas dedicadas exclusivamente ao etanol de milho precisam comprar biomassa — como cavacos de madeira (wood chips) — e essa matéria orgânica responde por cerca de 7% do custo total de operação. Embora não seja o principal componente da estrutura de despesas, trata-se de um item sensível, especialmente em ciclos de maior pressão sobre margens.
“Tenho ouvido com frequência no setor que o cavaco pode se tornar um freio à expansão. A escassez da matéria-prima tende a provocar alta de preços, o que impacta diretamente o custo de produção. Quando olhamos os últimos cinco anos, o valor da biomassa subiu de forma significativa. Fica claro que existe uma concorrência cada vez maior por áreas aptas ao plantio de eucalipto, que é uma das principais fontes desse insumo”, observa Duff.
Além do etanol
Segundo o analista, essa pressão não vem apenas do setor de etanol de milho. A indústria de Papel & Celulose, especialmente no Mato Grosso do Sul, também tem ampliado a busca por terras destinadas ao cultivo de eucalipto para consumo próprio, intensificando a disputa por áreas e elevando os custos.
“O eucalipto exige um ciclo longo entre plantio e colheita, o que demanda planejamento antecipado. Não é um problema que se resolve em um ano. No mercado de commodities, quando você tem uma demanda forte e pouca capacidade de resposta no curto prazo, os preços tendem a subir de forma acelerada. Não é uma certeza, mas é um risco claro — e, evidentemente, um ponto de atenção que já está no radar das empresas”, destaca.
Como alternativa, Duff aponta a diversificação das fontes energéticas. Entre as opções, estão o uso de bambu, que apresenta um ciclo de produção mais curto que o do eucalipto, além da braquiária e do biometano, que podem surgir como caminhos complementares para reduzir a dependência de biomassa florestal.