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O livro que está tirando o sono dos ambientalistas

Agrotóxicos
Os alimentos orgânicos representam menos de 1% da produção total de alimentos

Por Nicholas Vital

Há mais de dez anos frequento o mesmo supermercado — uma espécie de loja-conceito de uma grande rede varejista — em um bairro nobre de São Paulo. Devo admitir que nunca fui um consumidor ávido por alimentos naturais, mas é impossível não notar que a área reservada aos orgânicos, aqueles “sem a adição de agrotóxicos”, tem crescido substancialmente nos últimos anos. Se até pouco tempo atrás os orgânicos estavam restritos a uma geladeira no canto da seção de hortifruti, hoje eles ocupam lugar de destaque. A oferta de produtos, então, não dá para comparar. São centenas de itens, desde os tradicionais alface, açúcar e café até produtos sofisticados, como sorbet de manga, cookie de quinoa, aceto balsâmico e tofu.

Em uma visita recente à loja, uma conversa me chamou a atenção. Duas mulheres — uma bem novinha, usando roupas de ginástica, e outra mais madura, ao melhor estilo bicho-grilo — falavam com propriedade sobre os benefícios dos alimentos orgânicos enquanto garimpavam suas verduras:

— Nossa, esses produtos orgânicos estão lindos! Vou levar para fazer um suco detox 100% natural — disse a jovem ginasta.

— Bonitos ou feios, há anos eu só como orgânicos. Eles são mais seguros porque são produzidos sem agrotóxicos — respondeu a hippie.

— Só assim para ficarmos livres do veneno!

— Sem dúvida. Eu sinto uma diferença incrível no meu corpo desde que adotei os orgânicos. Além de serem muito mais saborosos.

— Concordo totalmente. Vale a pena pagar um pouco mais caro em nome da saúde.

— Eu sonho com o dia em que todas as frutas, verduras e legumes no mundo serão orgânicos. É possível, eu vi esses dias uma reportagem na televisão…

Olhei para a dupla com cara de reprovação, respirei fundo e... segui para a seção de carnes, indignado com a quantidade de bobagens ouvidas em tão pouco tempo. As moças não entenderam nada, mas para mim ficou evidente que algo estava errado. Não dá para generalizar, é claro, mas vários dos consumidores de orgânicos que conheço são muito mais do que adeptos da alimentação saudável. São, em muitos casos, ativistas contrários aos produtos produzidos de forma convencional, com agrotóxicos. Diversas pessoas têm isso como uma filosofia de vida, quase uma religião. Não se importam em pagar mais caro “em nome da saúde” nem pensam duas vezes antes de compartilhar informações alarmistas sem qualquer embasamento científico. 

Nicholas
Nicholas: "No total, foram dois anos de pesquisa e mais de 50 entrevistas com especialistas"

Você deve conhecer alguém assim. Muito provavelmente já ouviu histórias de horror envolvendo agrotóxicos, mas também nunca parou para refletir sobre o assunto. No fundo, você até sente uma simpatia pelos orgânicos, muito em função das notícias relacionadas aos pesticidas nos jornais e na televisão, que em geral não são nada animadoras. Você não está sozinho. O cenário de medo e desconhecimento, aliados a um tema delicado, como a alimentação, foram alguns dos fatores decisivos para o crescimento dos orgânicos nos últimos anos. Notícias de fontes duvidosas servem de munição para diálogos como esse que presenciei no supermercado. Os mais radicais pregam como se falassem a verdade absoluta. O problema é que a maioria dos seus argumentos não condizem com a realidade.

Vamos aos fatos:

1. Não há, na história, registro de morte comprovadamente relacionada ao consumo de alimentos convencionais, por ingestão de resíduos. Também não houve aumento nos casos de câncer, apesar do uso intensivo de agrotóxicos nos últimos cinquenta anos. Segundo dados da American Câncer Society, a incidência dos principais tipos da doença se manteve estável entre 1975 e 2009. Por outro lado, os orgânicos foram responsáveis por ao menos 35 mortes e mais de 3 mil casos de intoxicação alimentar pela bactéria E.coli na Alemanha, em 2011.

2. Não existe qualquer diferença, seja nutricional ou de sabor, entre os alimentos orgânicos e os convencionais. Isso é cientificamente comprovado, como mostram estudos da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), no Brasil. De acordo com especialistas, é difícil diferenciar esses alimentos mesmo em laboratório. Portanto, na próxima vez que alguém lhe sugerir que há diferença no sabor da salada orgânica, desconfie.

3. Pagar um pouco mais caro, não. Pagar bem mais caro, até 270%. Os preços mais altos são explicados pela combinação de dois fatores característicos da agricultura orgânica: produtividade menor e custos operacionais elevados. A escassez de produtos certificados faz com que os valores cobrados pelos orgânicos no varejo sejam inacessíveis à maioria da população brasileira.

4. O futuro não será orgânico. Em alta no Brasil, a estimativa é que as vendas desses produtos tenham chegado a R$2,5 bilhões em 2016. Pode parecer muito, mas em relação ao agronegócio brasileiro não é nada. O país produz R$ 5 bilhões apenas em batatas convencionais. A produção agropecuária total ultrapassou os R$ 480 bilhões em 2015. Não dá para brigar contra os números. Atualmente, os alimentos orgânicos representam menos de 1% da produção total de alimentos no Brasil. E isso não deve mudar muito nos próximos anos. 

Agrotóxicos
O lançamento oficial do livro acontece na terça-feira, dia 18, em São Paulo

Mesmo representando uma minoria, existem diversos movimentos favoráveis à extinção dos agroquímicos. Esses grupos são compostos por instituições de pesquisa, algumas com grande reputação, mas que foram aparelhadas nos últimos anos e deixaram a ciência de lado em prol da política; professores, que usam o nome de universidades prestigiosas para disseminar pesquisas enviesadas, muitas delas questionadas pela comunidade científica; além de artistas, ativistas pró-orgânicos e outras instituições regionais menores, responsáveis pela disseminação de informações falsas. Os movimentos sociais, que estão longe de ser referência em ciência e alta produtividade no campo, também estão sempre presentes nas manifestações contra os pesticidas. Os discursos inflamados dos líderes desses movimentos soam como música para os jovens cheios de ideais, contrários às multinacionais e aos grandes proprietários de terras, mas que não possuem qualquer experiência em produção agrícola e estão menos cientes ainda das consequências que uma proibição do tipo poderia acarretar.

O lançamento do livro Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo vem tirando o sono desses defensores incondicionais da agricultura orgânica, até hoje pouco acostumados a questionamentos. Militantes disfarçados de ambientalistas já são os mais fiéis seguidores da fan page do livro no Facebook (facebook.com/agrotoxico), sempre interagindo com comentários rasos e os argumentos sem embasamento científico de sempre. Quando faltam argumentos, partem para os ataques pessoais sem qualquer tipo de constrangimento — o que já era esperado. É preciso ficar claro que eu não defendo o fim da agricultura orgânica, mas sim um debate mais equilibrado sobre o tema. Apesar do nome provocativo, o livro é muito equilibrado e, evidentemente, trata também dos perigos do uso indiscriminado de pesticidas nas lavouras. No total, foram dois anos de pesquisa e mais de 50 entrevistas com especialistas, entre engenheiros agrônomos, médicos toxicologistas, biólogos, entre outros. Apesar dos protestos da minoria barulhenta, a obra parece estar agradando — o primeiro lote disponibilizado na Amazon, ainda na fase de pré-venda, se esgotou em menos de uma semana. O lançamento oficial do livro acontece na terça-feira, dia 18, em São Paulo.


 

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