Entrevista

“O maior fator de incerteza não é Trump, é Kevin Warsh”, diz estrategista-chefe da Stratton Capital

06 jul 2026, 7:30 - atualizado em 06 jul 2026, 8:28
Marcelo Cabral, estrategista-chefe e CEO da Stratton Capita
Marcelo Cabral, estrategista-chefe e CEO da Stratton Capital (Imagem: Divulgação)

As atenções do mercado continuam voltadas para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os próximos passos da economia americana – que pode estar relacionado com mais tarifas no horizonte.

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No entanto, para Marcelo Cabral, estrategista-chefe e CEO da Stratton Capital, a principal fonte de incerteza para os investidores no segundo semestre pode estar dentro do próprio Federal Reserve (Fed).

Em entrevista ao Money Times, o executivo que já foi vice-presidente do Morgan Stanley em Nova York, afirma que a chegada de Kevin Warsh ao comando do banco central americano representa uma possível mudança estrutural na condução da política monetária dos Estados Unidos.

Na avaliação de Cabral, as transformações defendidas por Warsh vão muito além da definição da taxa básica de juros e envolvem desde uma revisão da metodologia de cálculo da inflação até uma nova forma de utilizar o balanço do Fed como instrumento de política monetária.

“O maior fator de incerteza para o segundo semestre não é o Donald Trump. Na minha leitura, é o Kevin Warsh e o que ele pretende fazer no Federal Reserve”, afirmou o CEO da Stratton, gestora de investimentos norte-americana especializada em diversificação internacional para brasileiros.

Revisão da inflação pode mudar a leitura da economia

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Um dos primeiros pontos destacados por Cabral é a intenção de Kevin Warsh de revisar a metodologia utilizada para medir a inflação nos Estados Unidos.

Segundo o estrategista, o novo presidente do Fed criou um grupo de trabalho para reavaliar o cálculo dos índices de preços, que, em sua visão, apresenta distorções capazes de amplificar movimentos pontuais da economia e influenciar a percepção sobre a inflação.

“Esse cálculo é muito antigo. Existem várias distorções na composição da cesta e na forma de medir os preços. Isso vai mudar”, afirmou.

Cabral cita episódios recentes para ilustrar a discussão. Um deles ocorreu em meados de 2024, quando reajustes nos preços praticados pelo Airbnb elevaram o componente de habitação do índice de preços ao consumidor (CPI). Como esse grupo tem um peso elevado na composição do indicador, ele respondeu por cerca de 90% da alta mensal do índice em julho daquele ano, mesmo sem um aumento disseminado dos preços na economia.

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Outro exemplo veio do mercado de seguros de automóveis. Em 2024, o aumento dos custos de reparos e das indenizações relacionadas a eventos climáticos levou as seguradoras a reajustarem os prêmios em aproximadamente 22% em 12 meses. O movimento pressionou significativamente o CPI, embora estivesse concentrado em um segmento específico da economia.

Na avaliação de Cabral, situações como essas reforçam o argumento de Warsh de que a metodologia atual pode amplificar choques localizados e dificultar a leitura da tendência inflacionária.

“A gente tem muito pouca visibilidade sobre o que o Fed vai fazer com os juros. Hoje todo mundo trabalha com a ideia de que a inflação está perto de 3%. Daqui a pouco pode aparecer uma nova metodologia dizendo que ela está perto de 2%, ou perto de 3,5%.”

Herança de Powell

Na avaliação de Cabral, as mudanças defendidas por Kevin Warsh são uma resposta direta aos erros cometidos pelo Federal Reserve durante a gestão de Jerome Powell. Para ele, o banco central americano demorou para reagir ao avanço da inflação no período pós-pandemia ao insistir que o choque de preços seria temporário.

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“O presidente anterior do Fed foi um desastre. Unanimemente foi um desastre, porque ele deixou a inflação subir. Ele não tomou as providências necessárias”, avaliou.

Cabral compara a atuação da autoridade monetária americana com a do Banco Central brasileiro no mesmo período.

“No Brasil, por exemplo, o Banco Central foi muito mais competente para lidar com a saída da Covid. A gente teve uma política monetária muito rigorosa, enquanto nos Estados Unidos o Fed ficou sem fazer nada e dizendo basicamente o seguinte: essa inflação é temporária, ela vai passar.”

Segundo ele, o diagnóstico se mostrou equivocado. “A inflação continuou subindo, subindo, subindo, e o Jay Powell demorou um ano para subir as taxas”.

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Na visão do CEO da Stratton Capital, o atraso na resposta do Fed não produziu apenas efeitos econômicos, mas também políticos, ao reduzir o poder de compra da população americana.

“Eu sempre brinco que a eleição do Trump foi um pouco consequência da inabilidade do Jay Powell. Foi o que causou um desconforto muito grande na população. A inflação machucou muita gente, e o Trump entrou justamente no momento em que existia esse descontentamento popular.”

Cabral afirma ainda que Powell também sofreu desgaste por questões administrativas, citando as críticas em torno do aumento dos custos da reforma da sede do Federal Reserve.

“Temos um escândalo na construção do prédio novo do Fed, que gastou valores absurdos e a obra não completou. Ele foi afetado por isso também.”

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Mesmo com as críticas ao atual modelo, o estrategista afirma que o mercado ainda aguarda para avaliar como o novo presidente do Fed colocará suas propostas em prática. “O Kevin Warsh faz uma série de críticas que é difícil você discordar. O mercado está numa posição de espera”.

Fed pode subir juros?

Apesar das mudanças propostas para a inflação, Cabral afirma que a principal consequência para o mercado será a perda de visibilidade sobre os próximos passos da política monetária.

“Hoje, eu diria que a gente tem muito pouca visibilidade sobre o que o Fed vai fazer com os juros. Não é mais aquela coisa de sempre: qual é o dado econômico, qual é o dado de desemprego, qual é o dado de inflação. Tudo isso está sendo mudado”, afirmou.

Segundo o estrategista, o mercado ainda precifica um aumento dos Fed Funds em setembro e até três altas de juros até o fim do ano, cenário considerado exagerado pela Stratton.

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“Nossa leitura é que isso é um pouco extremo. Nós não acreditamos que vai acontecer esses três aumentos.”

Na avaliação dele, os dados recentes do mercado de trabalho não sustentam um aperto monetário dessa magnitude.

“A criação de empregos enfraqueceu nos Estados Unidos. Eu não sei se existe uma justificativa macroeconômica para aumentar a taxa.”

Menos “forward guidance”, mais volatilidade

Outra mudança esperada é o abandono parcial da estratégia de forward guidance, mecanismo pelo qual o Fed sinaliza previamente seus próximos movimentos de política monetária.

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Na visão de Cabral, Warsh é um crítico dessa prática por entender que ela reduziu excessivamente a capacidade do mercado de formar preços.

“O Fed tenta telegrafar as mudanças para não gerar volatilidade. O Kevin Warsh é totalmente contra isso. É uma revolução enorme.”

Segundo o estrategista, a consequência natural desse novo modelo seria um aumento da volatilidade dos ativos financeiros.

“Como o mercado vai fazer sem o forward guidance? Vai ter mais volatilidade.”

O balanço do Fed pode virar uma segunda alavanca da política monetária

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Para Cabral, uma das mudanças mais relevantes defendidas por Warsh envolve o papel do balanço patrimonial do Federal Reserve.

O fundador da Stratton Capital afirma que Warsh considera excessivo o tamanho atual dos ativos mantidos pelo banco central e defende uma redução gradual desse estoque, construído após anos de programas de compra de títulos.

Na prática, segundo ele, isso permitiria ao Fed endurecer as condições financeiras sem necessariamente elevar a taxa básica de juros. “Ele poderia dar um choque monetário. Poderia criar uma política monetária mais dura sem aumentar a taxa de juros.”

Cabral explica que Warsh enxerga duas ferramentas distintas para apertar a política monetária. Na avaliação do executivo, ao reduzir o balanço, o Fed diminuiria a liquidez disponível na economia, pressionando os rendimentos dos títulos públicos e tornando as condições de financiamento mais restritivas.

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“Ele pode deixar a taxa parada e puxar o freio de mão diminuindo o balanço do Fed, por meio das operações de mercado aberto.”

Apesar disso, Cabral pondera que uma redução muito acelerada do balanço teria efeitos relevantes sobre a economia americana.

“Seria uma política monetária muito contracionista. Se fosse feita de forma rápida, causaria uma recessão nos Estados Unidos. Provavelmente isso seria implementado de maneira gradual, ao longo de alguns anos”.

Mudança também seria filosófica

Além dos aspectos operacionais, Cabral avalia que Warsh pretende promover uma mudança de filosofia dentro do Federal Reserve.

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Segundo ele, o economista, identificado com a escola monetarista de Milton Friedman, defende que o banco central volte a concentrar seus esforços na estabilidade de preços, deixando em segundo plano temas que, na visão dele, extrapolam o mandato da instituição.

“O Fed começou a falar de desemprego, desigualdade social, aquecimento global, inteligência artificial. O Kevin Warsh quer um banco central mais simples, focado em inflação e estabilidade monetária”.

Para o estrategista, essa mudança tende a alterar a forma como o mercado interpreta a atuação do banco central americano nos próximos anos.

“É uma mudança muito maior do que simplesmente decidir se sobe ou não os juros. É uma mudança de como o Fed pretende conduzir a política monetária”.

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Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.

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