O novo normal para o mercado do boi após cotas da China: ‘Não dá para esperar R$ 400 para a arroba’
A China deu um verdadeiro “golpe” no mercado brasileiro de carne bovina na virada para 2026 ao adotar cotas de importação e impor uma tarifa adicional de 55% sobre os volumes que excederem o limite estipulado pelo país asiático (1,106 milhão de toneladas).
No ano passado, o Brasil atingiu o maior volume de exportações de sua história, com 3,5 milhões de toneladas embarcadas e uma receita de US$ 18,03 bilhões. Desse total, a China respondeu por 1,676 milhão de toneladas e US$ 8,9 bilhões, o equivalente a 47,89% do volume e 49,36% da receita total, respectivamente.
Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, o Brasil não repetirá os volumes recordes de exportação em 2025. A expectativa é de uma queda superior a 500 mil toneladas — um cenário que, segundo ele, já está assimilado pela indústria.
“Ainda há muitas incertezas. Um exemplo é a carne bovina que já está em trânsito para a China — cerca de 350 mil toneladas. Não está claro se esse volume entrará ou não na cota. Caso entre, a cota efetiva ficaria pouco acima de 750 mil toneladas, o que seria muito ruim para o Brasil”, afirmou ao Money Times.
Apesar dos desafios, Iglesias ressalta que há boas notícias no horizonte, como a aprovação do acordo entre União Europeia e Mercosul.
“Mais do que volume, o acordo agrega valor. O perfil de compra europeu é focado em cortes do traseiro, de maior valor agregado, diferente da China. Além disso, o Brasil trabalha para abrir ou ampliar mercados como Japão, Vietnã, Filipinas, Turquia e Coreia do Sul, além de vender mais para os Estados Unidos, que enfrentam um déficit significativo no rebanho bovino. Ainda assim, mesmo somando todos esses destinos, não chegamos perto do volume absorvido pela China”, pondera.
O novo normal para o mercado do boi
Iglesias é direto ao tratar do planejamento do pecuarista para 2026: no cenário atual, a palavra de ordem é cautela.
“Não dá para trabalhar com expectativa da arroba a R$ 400, como muitos estavam projetando. A reposição subiu, o bezerro ficou mais caro, mas o mercado não funciona por simples compensação”, afirma.
De acordo com o analista, será fundamental reduzir o volume de confinamento e ajustar com precisão a compra de insumos — especialmente os ligados à nutrição animal.
“A conta vai ficar mais apertada e a margem para erro será muito menor. Em 2024 e 2025, o pecuarista ganhou muito dinheiro. Em 2026, qualquer erro pesa muito mais”, explica.
Na avaliação de Iglesias, o teto para a arroba do boi deve ficar entre R$ 340 e R$ 350, com pouca visibilidade para preços acima desses níveis.
“Claro que teremos momentos de alta e de baixa ao longo do ano, o que faz parte da sazonalidade. Mas não dá para esperar movimentos explosivos, ainda mais com o câmbio sem sinais de forte desvalorização do real”.