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Tecnologia

Opinião: A IA ameaça o escritório. Os EUA estão construindo o chão para não cair

08 nov 2026, 8:00
nvidia google meta chips inteligência artificial ia
(Imagem: Unsplash/Chris Ried)

No norte de Phoenix, no meio do deserto do Arizona, nos Estados Unidos, há um canteiro de obras que mudou o preço da terra de uma cidade inteira. É a fábrica da TSMC, a taiwanesa que fabrica os chips mais avançados do planeta.

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Os corretores da região contam todos a mesma história. Recebem ligações de investidores asiáticos de madrugada perguntando qual a distância até o campus da TSMC? O terreno ao lado da obra subiu 53% em seis anos. A vacância de galpões despencou de 16% para 8% em um ano. Entrou mais de meio bilhão de dólares em capital estrangeiro, só em busca de terrenos próximos à fábrica. Parece um texto sobre mercado imobiliário, mas não é.

É a economia mais rica do mundo, e a mais dominada por serviços que a história já viu, decidindo voltar a fazer “coisas físicas”. São US$ 265 bilhões da TSMC em solo americano, o maior investimento estrangeiro da história do país. E não é só ela. A sul-coreana Samsung está levantando um complexo de US$ 37 bilhões no Texas, para fabricar chips de ponta, de 2 nanômetros.

A Micron, produtora americana de memória, anunciou US$ 200 bilhões em investimentos em fábricas no país, com um megaprojeto em Nova York. Repare que estamos falando de três gigantes de memória, justamente o tipo de chip que a corrida da IA mais consome. O dinheiro do mundo está correndo de volta para o plano físico, para a fábrica, para o metal e para a energia. O oposto dos aplicativos.

Por que agora? Antes de tudo, por geopolítica, e essa é a razão mais importante de todas. Quase todo chip avançado do mundo é fabricado em Taiwan, uma ilha a pouco mais de 100 quilômetros da China, que Pequim reivindica como seu território e pode bloquear. Os Estados Unidos acordaram para uma verdade incômoda.

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A economia inteira deles, dos carros aos celulares, dos data centers aos mísseis, roda em cima de um chip feito ao alcance da artilharia chinesa. Trazer essa fábrica da TSMC para dentro de casa é deixar de ter a própria existência tecnológica refém de um estreito de mar. Emprego, imposto e tecnologia vêm junto, mas a espinha dorsal da decisão é essa: a soberania sobre aquilo que os mantém de pé.

E aqui está o pedaço que quase ninguém lê direito. Isso não muda com uma eleição. Joe Biden chegou à Presidência criticando Donald Trump, mas manteve as tarifas impostas por ele. Depois, ampliou as medidas e apertou o cerco aos chips ainda mais do que o próprio antecessor havia feito.

Trump voltou e apertou outra vez. Três governos, dois partidos, uma direção só. Lá, isso tem nome: política de Estado. É a decisão que sobrevive a quem está sentado na cadeira. Não é uma linha reta: há tréguas no meio e a China revida com terras raras. Mas a direção não muda.

O recado para quem fabrica foi dado na cara. Quem produz fora e manda para cá paga tarifa pesada. Quem produz aqui dentro não paga. Simples assim.

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E tem o momento, que é o que torna tudo mais interessante. Esse movimento acontece bem na hora em que a inteligência artificial começa a comer empregos. Só que não são os empregos que a gente passou 30 anos temendo. Não é o chão de fábrica. É a mesa. A IA generativa, ao contrário de tudo que veio antes dela, mira o colarinho branco, o escolarizado, o trabalho que se faz sentado.

Pense no tamanho disso. Por dois séculos, a máquina comeu a mão. Agora, ela come a cabeça.

Mas não é a cabeça inteira, e aqui está a parte do ajuste fino. Lá no topo – o trabalho de verdadeiro valor, o julgamento, a criação, a decisão que não pode errar – a IA vira ferramenta e amplia a capacidade de quem faz. Esse ganha mais, não menos.

Embaixo, o trabalho braçal presencial segue intocado, porque a IA não corta cabelo e nem troca fralda. Quem apanha de verdade é quem está no meio. É o analista júnior, o programador de execução, o assistente, o contador ou o atendente de call center. O emprego de escritório rotineiro, aquele que era a escada da informalidade para a classe média, está seriamente ameaçado.

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E é aí que mora o drama de uma economia que apostou tudo no setor de serviços, no diploma, na promessa de que estudar tira você do balcão e o coloca no escritório. O de baixo está protegido, mas “protegido” quer dizer preso, seguro e pobre. O de cima, que é raro, está blindado e ainda lucra. O que desaba é justamente o degrau do meio, o que fazia a ponte entre um e outro. A IA não come o que esse tipo de país tem na base, mas o que ele estava tentando virar.

Agora volte o olhar para o que os americanos estão fazendo, com essa lente. Eles não estão trazendo fábricas de volta para gerar empregos em massa. A fábrica de chips é automatizada e emprega pouca gente, com salários altos. Eles estão comprando outra coisa, e é a coisa certa: a posse da base física da Era da IA — o chip, a energia, o data center e a rede elétrica.

Quem é dono da base cobra pedágio pelas próximas décadas. Quem só usa paga o pedágio. E vem um brinde que não entra na planilha. Quando a fábrica mais avançada do mundo se instala no seu quintal, o conhecimento vaza. O operário aprende, a universidade troca o currículo, o fornecedor local sobe de nível. Você não importa só a fábrica, importa também a engenharia. Foi assim que a Coreia do Sul e Taiwan saíram do nada, montando as peças dos outros até aprender a fazer as próprias. Não existe outro caminho para subir na cadeia.

E ainda tem o contrapeso, talvez a parte mais esperta de toda a jogada. A fábrica em si emprega pouco, como já disse. Mas, em volta dela, nasce uma cidade. A obra leva anos e exige milhares de trabalhadores. Os fornecedores chegam, o comércio cresce, os imóveis sobem. Foi exatamente o que aconteceu naquele deserto de Phoenix. E, acima do emprego, tem o dinheiro.

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Toda essa máquina gera lucro, exportações e impostos. E são os impostos que financiam a política social de amanhã, a renda, a requalificação, a rede que vai segurar quem a IA desempregar. Repare na jogada inteira. O mesmo movimento cria trabalho onde a IA destrói e enche o caixa que vai amparar quem ela deixar pelo caminho. Quem é dono da base leva ambas: o emprego ao redor e o dinheiro para proteger quem perder o seu.

E tem um efeito que vai muito além da fábrica. Cada chip que os Estados Unidos passam a fabricar em casa é uma carta que tiram da mão da China. Enquanto o Ocidente inteiro dependia de Taiwan para pensar, Pequim tinha uma alavanca enorme. Bastava a ameaça de bloquear o estreito para o mundo prender a respiração. Produzindo seus próprios chips, os americanos esvaziam essa ameaça. O discurso chinês perde força quando o outro lado não precisa mais implorar pela peça.

Para quem acha que, ao fabricar em casa, os Estados Unidos vão largar Taiwan à própria sorte, será o contrário. Taiwan nunca foi só o chip. É geografia. A ilha está sobre as rotas por onde passa cerca de um terço de todo o comércio marítimo do mundo, no Mar do Sul da China. Essa rota os americanos não entregam para ninguém. Mesmo com o chip saindo do Arizona, Taiwan segue estratégica pelo mar, e os Estados Unidos vão continuar protegendo a ilha. Muda o motivo, mas não muda a decisão.

Para quem passou os últimos anos repetindo que a estratégia das tarifas era bravata, que não traria fábrica nenhuma de volta, a resposta está subindo no deserto, em concreto e aço. Funcionou. Só não enxergou quem não quis olhar fundo.

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Que fique claro: o americano não escapa. O colarinho branco de lá vai apanhar da IA também. A diferença não é essa. A diferença é que, com o teto caindo, os Estados Unidos estão fundindo um chão novo embaixo dos próprios pés e resolveram fazer isso de propósito, como projeto de nação, por causa de uma guerra que tratam como permanente.

E é aí que o deserto do Arizona devolve uma pergunta. Um país que é quase todo serviço, de produtividade baixa, sem base industrial de verdade, sem política de Estado para construir uma e, portanto, sem o caixa de que um dia vai precisar para amparar os próprios desempregados, esse país está fazendo o quê enquanto tudo isso acontece?

Está discutindo outras coisas.

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CEO da AZ Quest
Walter Maciel iniciou sua carreira em 1991 no Banco Safra, como trader de mesa proprietária internacional. Entre 1995 e 2003 atuou na área de mercado de capitais no Banco Garantia. Em 2006, Walter ingressou na Quest Investimentos como sócio-diretor responsável pelo Relacionamento com Investidores e Desenvolvimento de Negócios, tornando-se CEO da empresa em 2011. Walter é formado em Economia pela PUC-RJ e cursou o Harvard Business School Owner President Management Program (OPM 52).
Walter Maciel iniciou sua carreira em 1991 no Banco Safra, como trader de mesa proprietária internacional. Entre 1995 e 2003 atuou na área de mercado de capitais no Banco Garantia. Em 2006, Walter ingressou na Quest Investimentos como sócio-diretor responsável pelo Relacionamento com Investidores e Desenvolvimento de Negócios, tornando-se CEO da empresa em 2011. Walter é formado em Economia pela PUC-RJ e cursou o Harvard Business School Owner President Management Program (OPM 52).

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