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Coluna do Hsia Hua Sheng

Como os robôs Kung Fu colocam o mercado chinês em alta

19 fev 2026, 15:25 - atualizado em 19 fev 2026, 15:25
Inteligência Artificial Robôs Tecnologia
(Imagem: Franck V./Unsplash)

O contraste entre os robôs humanoides exibidos no Festival da Primavera (o Ano Novo Chinês) de 2025 e os de 2026 é impressionante. No ano passado, predominavam movimentos rígidos, baixa autonomia e forte dependência de rotinas pré-programadas.

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Neste ano, os robôs exibiram equilíbrio dinâmico, coordenação coletiva e execução de sequências complexas — algumas inspiradas em artes marciais que simulam os movimentos de um “bêbado”.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal chinês CGTN:

Não se trata apenas de um avanço incremental: é um salto tecnológico. E saltos dessa magnitude raramente são explicados apenas pelo progresso técnico. Eles refletem a capacidade de um país financiar inovação de alto risco e longo prazo.

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Força do mercado financeiro e do RMB

É aqui que entram dois vetores centrais da estratégia chinesa recente: a reforma do mercado financeiro e a internacionalização do RMB (Renminbi). A robótica humanoide é intensiva em capital, exige anos de pesquisa e desenvolvimento, além de envolver alto grau de incerteza. Sem capital paciente, dificilmente atravessa o “vale da morte” da inovação.

Ao ampliar o papel dos mercados de capitais voltados a hard tech, reduzir a dependência do crédito bancário tradicional e integrar política industrial à economia real, a China criou as condições para que projetos de robótica escalassem. O robô no palco da Gala é o resultado visível desse arranjo invisível.

Empresas listadas simbolizam esse processo: UBTECH Robotics tornou-se o rosto mais conhecido dos humanoides em eventos públicos; Siasun Robot & Automation conectou robótica avançada à aplicação industrial; e soluções de IA da SenseTime deram “visão” aos robôs. Na base da cadeia, Estun Automation e Inovance Technology fornecem controle de movimento e precisão — os “músculos” do robô.

Em 2025, o mercado começou a precificar essa mudança estrutural: ações ligadas à robótica, automação e IA aplicada registraram valorizações de 30% a 70%, refletindo expectativas de um ciclo tecnológico mais longo.

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A internacionalização gradual do RMB também desempenhou papel relevante. Ao ampliar o uso da moeda chinesa em comércio, financiamento e reservas, a China reduziu custos de transação e aumentou previsibilidade cambial. Para empresas de tecnologia, mercados financeiros mais expostos em RMB internalizam o financiamento da inovação, reduzem a exposição a choques externos e ampliam a base de investidores de longo prazo.

Novos Touros nas Bolsas da China

Em 2026, a agenda de reformas financeiras chinesa vai continuar reforçando essa lógica. As diretrizes seguem três eixos:

  • Instrumentos de financiamento de longo prazo para setores estratégicos;
  • Mecanismos sofisticados de compartilhamento de risco entre Estado e investidores privados;
  • Maior integração entre mercados de capitais domésticos e objetivos de política industrial.

Não se trata de liberalização irrestrita, mas de abertura funcional, desenhada para sustentar inovação sem comprometer a estabilidade. O efeito distributivo é claro: perdem centralidade setores baseados em alavancagem tradicional; ganham espaço robótica e automação, semicondutores, IA aplicada, equipamentos industriais de precisão e materiais avançados.

Para investidores, índices amplos capturam apenas parcialmente esse ciclo. Os mais sensíveis são os índices tecnológicos domésticos, como STAR Market (SSE STAR 50) e ChiNext Index, que refletem melhor o novo eixo de crescimento. ETFs ligados a esses índices ou a temas de robótica e IA oferecem instrumentos eficientes para diversificação internacional.

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Implicação para o Brasil

Para o Brasil, os efeitos são diretos. No curto prazo, uma China mais tecnológica reorganiza cadeias globais de valor e amplia o uso do RMB no comércio bilateral, reduzindo custos cambiais.

No médio prazo, o impacto é institucional: inovação de fronteira depende de mercados de capitais coerentes com a estratégia tecnológica. Em um mundo mais fragmentado, alinhar finanças, moeda e política industrial diferencia crescimento episódico de competitividade duradoura.

O salto dos robôs de 2026 não é apenas tecnológico. Ele evidencia um tripé estratégico que marca o início do 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030): reforma do mercado financeiro e economia real, internacionalização do RMB e coordenação estratégica de investimentos centrada em robótica, IA e sustentabilidade. O espetáculo chama atenção; mas a engrenagem financeira e monetária é o que realmente importa.

*As análises e opiniões são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam uma visão das instituições das quais o autor pertence.

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Vice-presidente do Bank of China (Brasil)
Hsia Hua Sheng é vice-presidente do Bank of China (Brasil) e professor associado de finanças na Fundação Getulio Vargas (FGV- Eaesp). É economista pela Universidade de São Paulo (FEA - USP), mestre e doutor em administração em finanças pela FGV. Foi pesquisador visitante na NYU Stern School of Business e na Shanghai University of Finance and Economics (SHUFE). É especialista em finanças internacionais, com foco em mercados emergentes, com larga experiência profissional em multinacionais. Possui, ainda, várias publicações em revistas acadêmicas e profissionais de excelências internacionais e nacionais.
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Hsia Hua Sheng é vice-presidente do Bank of China (Brasil) e professor associado de finanças na Fundação Getulio Vargas (FGV- Eaesp). É economista pela Universidade de São Paulo (FEA - USP), mestre e doutor em administração em finanças pela FGV. Foi pesquisador visitante na NYU Stern School of Business e na Shanghai University of Finance and Economics (SHUFE). É especialista em finanças internacionais, com foco em mercados emergentes, com larga experiência profissional em multinacionais. Possui, ainda, várias publicações em revistas acadêmicas e profissionais de excelências internacionais e nacionais.
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