Economia

Paulo Gala: A indústria brasileira implodiu, não será fácil resgatá-la

03 ago 2019, 17:05 - atualizado em 02 ago 2019, 17:17

(Imagem: Pixabay)

Por Paulo Gala 

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A produção industrial brasileira caiu 0,6% em Junho desse ano comparada a Maio. Nosso nível de produção industrial está hoje 20% abaixo do nível observado em 2014 e a apenas 20% acima dos anos 1980, uma tragédia. A indústria brasileira passou por um boom de produção a partir de 2003; a primeira fase do governo Lula foi caracterizada por forte expansão e exportação de manufaturas graças ao câmbio ultra-deslavorizado de 2002/2003 e a forte impulso de demanda interna que veio com expansão do crédito.

A segunda fase do governo Lula e o governo Dilma se caracterizou por forte expansão do credito e retração das manufaturas na pauta de exportação. A crise mundial de 2008 interrompeu a bonança de crescimento externo e cortou a demanda mundial por manufaturas. A reposta da China a crise causou explosão do preço de commodities e reforçou a trajetória de apreciação da moeda brasileira, que já vinha com força desde 2006.

Ate 2007 a indústria brasileira conseguiu acompanhar o boom de demanda aumentando a produção, ainda na esteira da desvalorização cambial de 2002. A partir da crise de 2008 a nossa indústria sucumbiu à concorrência internacional, aos aumentos de custo de produção em reais (principalmente salários) e a forte apreciação do cambio nominal e real.

A expansão de PIB observada no pós 2008 foi toda baseada em serviços.  A demanda interna por bens industriais passou a ser suprida por importações. Sem estímulos para produzir domesticamente por conta do cambio muito apreciado e sem condições de se lançar na competição mundial o empresário industrial brasileiro passou a ser importador, montador (maquila) ou simplesmente encerrou seu negócio.

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Houve enorme perda de complexidade produtiva da economia brasileira pós 2010. Houve desindustrialização e reprimarização da pauta exportadora, com avanço das commodities. Em 2014, por exemplo, 5 produtos responderam por quase 50% das exportações brasileiras: ferro, soja, açúcar, petróleo e carnes.

Hoje a taxa de câmbio brasileira está num nível bem mais desvalorizado do que a média histórica. As exportações de manufaturados brasileiros estão mais baratas no exterior e mais lucrativas internamente. Os produtos estrangeiros estão mais caros aqui, facilitando a concorrência com nacionais.

Nossa indústria deveria ter reagido, por que isso não ocorreu? Desde a abertura comercial dos 90 as indústrias brasileiras ficaram viciadas em nosso mercado interno. O que deveria ter sido uma catapulta para conquistar o mercado mundial, como fizeram os asiáticos, virou fim em si mesmo. As apreciações câmbios da era FHC e da era Lula reforçaram o sinal da produção para abastecer o mercado nacional e tiraram o ímpeto exportador de nossas empresas.

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A implosão da economia brasileira em 2014 e 2015 arrastou nossa indústria (que já vinha se arrastando) para o buraco. O desaparecimento do crédito e da demanda interna tiveram efeitos diretos e violentos na produção doméstica de carros, motos, caminhões, moveis, eletrodomésticos, bens de consumo em geral, matérias da construção civil, aco, entre outros.

Nossa produção industrial colapsou com queda de 20% entre 2014 e 2016; e lá ficou ate hoje. Nossa retomada econômica desde então foi muito tênue, se e’ que houve. O pouco que crescemos foi baseado em serviços de baixa qualidade; novo empregos com salários menores e mais precários foram gerados. O pouco nível de proteção que ainda existe para nossa indústria nacional também não resolveu o problema.

Hoje a única salvação para nossa indústria seria uma injeção maciça de demanda, interna ou externa. De fora não vira’ pois o comercio mundial estagnou graças a guerra comercial. Para vir de dentro uma nova onda de estímulos seria necessária, algo que também não parece estar no horizonte.

Se nossa indústria conseguir crescer a 2% ao ano levaremos quase 10 anos para recuperar o nível de produção de 2014. Isso para não mencionar nosso cada vez maior atraso tecnológico em relação aos países emergentes dinâmicos e aos ricos. As notícias não são boas. Nenhum país hoje rico se desenvolveu sem indústria.

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