Internacional

Payroll forte reduz apostas em corte de juros nos EUA e pressiona mercados globais

05 jun 2026, 12:52 - atualizado em 05 jun 2026, 13:14
payroll eua emprego agenda
(Imagem: hapabapa/iStock)

A criação de empregos nos Estados Unidos surpreendeu o mercado em maio e reforçou a percepção de que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) terá menos espaço para cortar juros nos próximos meses. O payroll mostrou a abertura de 172 mil vagas no mês, praticamente o dobro das 85 mil projetadas pelo consenso dos analistas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O resultado ganhou ainda mais força com as revisões para cima dos meses anteriores. A criação de vagas em abril foi ajustada de 115 mil para 179 mil, enquanto março passou de 185 mil para 214 mil postos de trabalho. Com isso, os dados indicam um mercado de trabalho mais resiliente do que o esperado, mesmo após meses de preocupação com uma possível desaceleração da economia americana.

A taxa de desemprego ficou em 4,3%, em linha com as expectativas, enquanto a taxa de participação da força de trabalho permaneceu estável em 61,8%. Os salários médios por hora avançaram 0,3% no mês e acumulam alta de cerca de 3,4% em 12 meses.

Para Claudia Moreno, economista do C6 Bank, o conjunto dos dados reforça a visão de que o mercado de trabalho americano segue sólido e reduz as chances de flexibilização monetária no curto prazo.

“Os dados divulgados hoje reforçam a percepção de que o mercado de trabalho dos EUA continua sólido. Diante dessa combinação de mercado de trabalho forte, inflação pressionada e incertezas sobre a continuidade do conflito no Oriente Médio, acreditamos que não há espaço para cortes de juros neste ano e existe, inclusive, uma possibilidade de aumento nos juros”, afirma.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A avaliação passou a ser compartilhada pelos investidores. Dados da ferramenta FedWatch, do CME Group, mostram que as apostas em uma alta de juros ganharam força logo após a divulgação do relatório. A probabilidade de a taxa dos Fed Funds encerrar 2026 na faixa entre 4,00% e 4,25% saltou de 10,9% para 22,6%, enquanto a chance de os juros chegarem ao intervalo entre 4,25% e 4,50% avançou de 1,3% para 5,0%.

Ao mesmo tempo, a aposta na manutenção dos juros no atual intervalo de 3,50% a 3,75% recuou de 47,4% para 28,4%, evidenciando a reprecificação das expectativas após a surpresa positiva do payroll.

Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, os números praticamente encerram o debate sobre uma possível deterioração do mercado de trabalho americano e deslocam o foco do Fed para a inflação.

“O payroll corroborou a perspectiva de um mercado de trabalho mais forte. Os números parecem sacramentar a visão de que o Banco Central americano vai direcionar agora seu foco para os dados de inflação”, afirma.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Segundo ele, o Federal Reserve possui um mandato duplo: controlar a inflação e garantir condições favoráveis para o emprego. Como o mercado de trabalho continua demonstrando resiliência, a autoridade monetária passa a ter menos preocupação com a atividade e mais atenção à evolução dos preços.

A avaliação também enfraquece as discussões sobre um cenário de estagflação — combinação de crescimento fraco e inflação elevada — que ganharam espaço nos últimos meses. Para o estrategista, a leitura atual do mercado pode caminhar para uma discussão sobre juros elevados por mais tempo e, eventualmente, até mesmo novas altas em 2026 ou 2027 caso a inflação siga resistente.

Os próximos indicadores de preços, especialmente o índice de inflação dos Estados Unidos que será divulgado na próxima semana, devem ajudar a calibrar as expectativas antes da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), marcada para os dias 16 e 17 de junho.

Apesar da força dos números, o BTG Pactual vê alguns sinais que recomendam cautela antes de concluir que as pressões inflacionárias voltarão a acelerar. Em relatório, os economistas Luiza Paparounis e Francisco Lopes destacam que os salários continuam avançando em ritmo relativamente moderado.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“O payroll surpreendeu positivamente novamente ao registrar a criação de 172 mil postos em maio. O setor privado também superou as expectativas, com geração de 120 mil empregos no mês”, afirmam.

Segundo o banco, a média móvel de três meses passou a indicar criação de 188 mil vagas no agregado e 166 mil no setor privado, mostrando uma aceleração relevante das contratações. Por outro lado, os salários continuam relativamente comportados, o que limita, ao menos por enquanto, preocupações maiores com uma nova rodada de pressões inflacionárias.

Mais cedo, antes da divulgação do relatório, Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, destacava que o payroll seria o principal evento do dia para os mercados globais, com potencial para redefinir expectativas sobre juros, dólar, bolsas e fluxo internacional de capitais.

Na avaliação da executiva, a expectativa predominante era de uma desaceleração mais intensa do mercado de trabalho americano, o que poderia abrir espaço para cortes de juros pelo Fed nos próximos meses.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Até pouco tempo atrás, dados fracos de emprego significavam medo de recessão. Hoje, muitas vezes significam esperança de juros menores. O mercado passou a enxergar más notícias econômicas como boas notícias financeiras”, afirmou.

O resultado desta sexta-feira, porém, produziu o efeito oposto. Em vez de reforçar apostas em cortes, o payroll consolidou a visão de uma economia americana ainda robusta, levando investidores a reduzir as expectativas de flexibilização monetária e aumentar as apostas de que os juros permanecerão elevados por mais tempo — ou até poderão voltar a subir — nos Estados Unidos.

Com os juros em patamares mais altos, os ativos de risco caem mundo afora: às 13h, nos Estados Unidos, o Dow Jones caia 0,68%, o S&P 500, 1,50% e o Nasdaq, 2,50%.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Compartilhar

WhatsAppTwitterLinkedinFacebookTelegram
Editor
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies.

Fechar