Perdeu o fôlego? Bradesco (BBDC4) enfrenta pressão da inadimplência, mas CEO destaca carteira mais segura
“Vejo um cenário de pressão no crédito e inadimplência no mercado como um todo. Mas temos um mix mais seguro nas nossas carteiras.” Foi assim que Marcelo Noronha, CEO do Bradesco (BBDC4), resumiu as perspectivas para os próximos meses durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre de 2026.
Divulgado na noite da última quinta-feira (22), o balanço do banco trouxe sinais que acenderam um alerta entre analistas, sobretudo em relação à qualidade do crédito e à sustentabilidade do ritmo de crescimento dos resultados. Confira o balanço completo nesta reportagem.
No entanto, essa não é a única preocupação. Diante de um cenário macroeconômico mais desafiador, os analistas do BTG Pactual também questionam se o banco ainda tem fôlego para sustentar a evolução dos resultados.
Entre os fatores que podem pressionar o desempenho estão a desaceleração do crescimento da carteira de crédito, o aumento das provisões para perdas e a redução da cobertura da inadimplência. Na avaliação do BTG, essa combinação pode comprometer o ritmo de crescimento dos lucros e tornar o ponto de partida para 2027 mais desafiador.
No entanto, Noronha argumenta que o banco está preparado justamente porque mudou a composição da carteira nos últimos anos. A tese central é que o Bradesco hoje empresta com mais garantia do que no passado, o que separa o banco da pressão que atinge o mercado como um todo.
A carteira de crédito cresceu 11,1% em 12 meses, para R$ 1,15 trilhão, com o avanço concentrado em pessoas jurídicas — justamente porque a inadimplência segue pressionada entre as pessoas físicas, cujo índice de atrasos acima de 90 dias chegou a 5,8% no trimestre.
“Se tivéssemos um cenário econômico mais favorável, com crescimento maior e juros abaixo de 10%, poderíamos estar expandindo a carteira de crédito em 20% e entregando um lucro líquido entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões maior”, afirmou Noronha.
Por volta das 10h48, as ações do banco lideram as quedas do Ibovespa.
Como o Bradesco navega cenário de pressão na inadimplência?
O principal argumento do Bradesco para defender a qualidade da sua carteira de crédito é o aumento da participação de operações com garantia. Essa fatia passou de 45,1% em dezembro de 2019 para 61,2% em setembro de 2026 — uma alta de 16,1 pontos percentuais. Na pessoa física, cerca de 72% dos créditos contam com algum tipo de garantia.
A presença de garantias pode aumentar a possibilidade de recuperação de parte do valor em caso de inadimplência, por meio da execução de bens ou recebíveis. É com base nessa estratégia que Noronha afirma que a carteira está “muito mais colateralizada, muito mais robusta, muito mais tranquila” do que em 2023.
Outro argumento da administração é que o Bradesco ampliou a carteira sem que, segundo Noronha, o custo de crédito aumentasse na mesma proporção. Ele afirmou que o crédito cresceu 31% desde o fim de 2023, enquanto o custo permaneceu estável em termos nominais.
Essa estratégia também ajuda a explicar por que o Bradesco tem evitado expandir o crédito pessoal sem garantia, modalidade mais exposta à piora do emprego e da renda.
A seletividade também aparece na distribuição do crédito entre micro, pequenas e médias empresas.Nesse segmento, a mudança de composição é mais evidente: o capital de giro sem garantia caiu 3,3% no trimestre e 7,2% em 12 meses, enquanto as operações com garantia do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e do Fundo de Garantia de Operações (FGO) cresceram 31,5% em 12 meses.
Essas garantias reduzem parte da exposição do banco às perdas, mas não eliminam o risco: o Bradesco informou que os atrasos nessas operações também contribuíram para a alta da inadimplência.
O que o analistas enxergam?
A leitura do balanço dividiu os analistas. Em relatório assinado por Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, o BTG Pactual manteve recomendação neutra para o Bradesco, com preço-alvo de R$ 21,00, e apontou a deterioração do crédito como principal preocupação.
O Itaú BBA também adotou uma leitura cautelosa do balanço. Embora tenha considerado os números em linha com o esperado, com lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões e retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 15,6%, a casa destacou uma composição menos favorável dos resultados.
Segundo o banco, as receitas avançaram apenas 1% no trimestre, enquanto as provisões cresceram 7%, refletindo a piora da qualidade do crédito. Para os analistas, a combinação de receitas ajustadas ao risco mais fracas e desempenho abaixo do esperado na operação de seguros pode pressionar as estimativas de lucro para 2027. O Itaú BBA manteve o preço-alvo de R$ 22,00 para 2027, o que representa um potencial de valorização de 8,8%.
O Safra por sua vez, adotou uma visão mais otimista. Em análise assinada por Daniel Vaz e Rafael Nobre, a casa reiterou recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 22,00 e potencial de valorização de 9%, apostando que o Bradesco está solucionando os problemas de crédito mais rapidamente do que o esperado.