PicPay cita risco reputacional de controladores em prospecto de IPO
O PicPay, banco digital controlado pelos irmãos Batista, incluiu em seu prospecto de IPO nos Estados Unidos um alerta sobre risco reputacional. O aviso é associado a processos e investigações civis e criminais no país e também no Brasil que envolvem seus controladores finais e o grupo J&F.
No documento enviado à SEC (Securities and Exchange Commission), a companhia afirma que esses antecedentes — ainda que não relacionados diretamente às operações do PicPay — podem afetar seus negócios e perspectivas.
“Estamos sujeitos a riscos reputacionais relacionados a ações e investigações civis e criminais nos Estados Unidos e no Brasil envolvendo nossos controladores finais, o que pode afetar de forma relevante e adversa nossos negócios, perspectivas e prejudicar nossa reputação e imagem”, diz o documento.
O texto ainda detalha que, em 2017, os controladores finais firmaram acordos de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), enquanto a J&F celebrou acordo de leniência com o Ministério Público Federal (MP) após a revelação de pagamentos ilícitos a políticos entre 2009 e 2015.
Embora esses fatos não estejam ligados às atividades do banco digital, o PicPay reconhece que aderiu formalmente ao acordo de leniência como empresa afiliada do grupo, o que implica obrigações adicionais, como auditorias recorrentes de compliance. Ainda assim, a companhia admite limitações na eficácia dos seus controles internos.
“Não há garantia de que nossas políticas, práticas e equipes serão eficazes para detectar ou prevenir atividades ilícitas em todos os casos”, diz o documento.
Irmãos Batista voltam ao noticiário político
O documento foi publicado em um momento no qual os Batista voltaram às manchetes políticas. Um advogado ligado à companhia é dono de um resort apontado como sendo do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, de acordo com informações da imprensa. Em 2023, Toffoli cancelou uma multa de R$ 10,3 bilhões da J&F.
O prospecto do IPO do PicPay também relembra os desdobramentos internacionais, incluindo acordos firmados em 2020 com a SEC e com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, envolvendo a J&F e a JBS. Segundo o documento, embora essas iniciativas tenham buscado encerrar exposições legais passadas, eventuais descumprimentos podem reacender riscos relevantes.
“Qualquer descumprimento das obrigações assumidas nesses acordos históricos pode resultar em nova publicidade negativa, com potencial efeito adverso relevante sobre nossa reputação e a reputação de nossos controladores finais.”
A companhia também alerta que novos episódios — mesmo que não comprovados — podem afetar diretamente sua estratégia e o valor das ações. “Caso eventos futuros ou novas condutas deem origem a investigações, alegações ou processos envolvendo nossos controladores finais ou empresas afiliadas, nossa reputação e o valor de nossas ações ordinárias Classe A poderão ser afetados de forma relevante e adversa”, diz.
Vale ponderar que o prospecto de ofertas de ações costumam ser bem abrangentes com relação aos riscos relacionados às empresas e seus controladores.
Ainda assim, a menção ao risco reputacional no IPO do PicPay chama atenção quando comparado a outros bancos digitais que também acessaram — ou pretendem acessar — o mercado de capitais.
O brasileiro Agibank, que também protocolou um pedido de IPO nos EUA nesta semana, não carrega histórico recente de investigações, acordos de leniência ou processos criminais envolvendo seus controladores que demandem alertas semelhantes em prospectos — e isso não aparece em seu prospecto.
Essa diferença ajuda a explicar por que, no caso do PicPay, o tema ocupa espaço relevante na seção de riscos. O próprio documento reconhece a centralidade da confiança do mercado. “Nossa credibilidade perante o mercado é de extrema importância para a condução de nossos negócios e para atrair e reter clientes, funcionários e investidores.”
Procurado, o Picpay não comentou até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.