Por que o mercado de títulos soberanos fez o bitcoin (BTC) cair abaixo dos US$ 90 mil?
Um movimento nem tão silencioso ameaça a estrutura do mercado financeiro global. Isso porque os ativos mais seguros do mundo, os títulos do Tesouro norte-americano (T-bonds) e outros títulos soberanos ligaram o alerta laranja para os investidores — e ajudaram na derrubada do mercado global de criptomoedas, contribuindo para a queda do bitcoin (BTC).
Voltando alguns passos, títulos soberanos são dívidas emitidas pelos países e, tendencialmente, são os ativos mais seguros de uma nação por estarem atrelados diretamente ao governo.
Naturalmente, existem países mais e menos arriscados de se investir. Não apenas os T-bonds são considerados os mais seguros, mas também os títulos do Japão são usados como referência desse mercado — ou, pelo menos, era nisso que se acreditava.
Na última terça-feira (20), os juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos subiram com força na volta do feriado após a elevação dos temores de uma escalada da guerra comercial entre os EUA e a Europa.
O rendimento (yield) do T-bond de 10 anos chegou a operar em 4,290%, enquanto os vencimentos mais longos avançavam ainda mais: o retorno dos títulos de 20 e 30 anos chegou a tocar os 4,871% e 4,916%, respectivamente, patamar considerado extremamente elevado para os padrões norte-americanos.
Do mesmo modo, os títulos japoneses (JGB, na sigla em inglês) de dez anos, após décadas de yields próximos de zero, subiram para cerca de 2,29%.
E o que isso tem a ver com o bitcoin (BTC) e as criptomoedas
De acordo com André Franco, CEO da Boost Research, as sucessivas ameaças do governo norte-americano sobre uma possível invasão da Groenlândia culminaram no ressurgimento do chamado Sell America Trade (ou “venda a América”, em tradução livre), levando os investidores a reduzirem a exposição a ativos dos EUA.
“Esse movimento provocou forte sell-off em Wall Street, queda significativa nos principais índices futuros e um deslocamento de capital para ativos considerados porto-seguro, como ouro e prata, que atingiram máximas recordes”, comenta. “O bitcoin também sofreu diante desse cenário, sendo cotado a aproximadamente US$ 89,4 mil, com uma expectativa de curto prazo neutra a levemente negativa”.
Na visão dos analistas do QCP Asia, em vez de se comportar como um hedge (proteção) em momentos de tensão, o BTC está sendo negociado como um ativo de risco de alto beta, isto é, mais volátil e altamente sensível a juros e geopolítica entre mercados.
“Nesse contexto, o Bitcoin permanece sob pressão abaixo de US$ 90 mil, após apenas recentemente ter recuperado os US$ 97 mil. O momentum tem dificuldade para se restabelecer à medida que o apetite por risco diminui e a liquidez se estreita nas margens”, comentam.
Por isso, os especialistas entendem que as criptomoedas tendem a permanecer mais reativas e não firmar uma direção única em um primeiro momento até que surjam sinais mais claros da geopolítica global.
Por enquanto, o mercado está mais focado na preservação de capital do que em uma convicção de alta ou queda mais consistente.