Quase mortas, mas ainda em pé: o que são empresas zumbis e por que o Brasil lidera esse ranking entre os emergentes
Elas não estão exatamente vivas, mas também não quebraram. Empresas zumbis são companhias que não conseguem gerar lucro suficiente para cobrir o serviço de suas dívidas, mas seguem funcionando graças a refinanciamentos constantes, crédito renovado ou mecanismos legais que adiam o desfecho inevitável.
O conceito foi formulado nos anos 1980 pelo economista Edward Kane, ao analisar bancos frágeis nos Estados Unidos. Décadas depois, o problema ganhou escala global e o Brasil aparece como campeão entre os emergentes.
Um retrato incômodo do mercado brasileiro
Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Finanças analisou empresas abertas entre 2002 e 2021 e encontrou um dado contundente: 13,9% delas apresentaram comportamento zumbi ao longo do período.
É um patamar muito acima da média dos países emergentes que compõem o índice MSCI Emerging Markets, de 5,49%.
Depois do Brasil, aparecem Malásia (11,8%), Turquia (11%), Índia (10,49%) e Filipinas (9,6%). Nenhum deles chega perto do peso brasileiro.
E o problema não para por aí. Em 2002, cerca de 10,32% das companhias listadas no país eram classificadas como zumbis. Em 2021, esse percentual subiu para 17,94%.
Como os pesquisadores identificam uma empresa zumbi
Para entrar nessa categoria, as companhias precisam cumprir dois critérios básicos, definidos pela literatura econômica:
- 1. Lucro insuficiente para cobrir despesas financeiras, de forma recorrente;
- 2. Probabilidade elevada de falência, segundo modelos estatísticos.
No estudo, só foram consideradas zumbis as empresas que apresentaram esse comportamento por pelo menos três anos consecutivos, usando dados da S&P Global Capital IQ e da Economática.
Mantidas por aparelhos
Um ponto-chave é a discrepância entre o número de empresas zumbis e os pedidos formais de recuperação judicial. Na prática, muitas sobrevivem sem nunca recorrer à Justiça.
Essa constatação aparece em um estudo recente publicado na Folha de S.Paulo e apresentado pelo economista Caio Szumanski como dissertação de mestrado na FGV, que analisou o período entre 2010 e 2024.
A conclusão é direta: há fortes indícios de “zombie lending”, quando bancos preferem rolar dívidas de empresas inviáveis a reconhecer prejuízos no balanço. O resultado é uma sobrevida artificial, sustentada por crédito.
O custo econômico das empresas zumbis
As consequências vão além do balanço das empresas. Segundo Szumanski, companhias zumbis investem cerca de 25% menos do que empresas saudáveis. Pagam menos dividendos, inovam menos, produzem com menor eficiência e oferecem produtos de pior qualidade.
O efeito se espalha pela economia. “Elas comprometem investimentos, elevam custos financeiros e fragilizam a dinâmica competitiva”, aponta o estudo divulgado pela Folha de S.Paulo. No limite, criam riscos sistêmicos para a alocação de crédito e a produtividade do país.
Crises sucessivas alimentam o fenômeno
O crescimento das empresas zumbis não é exclusividade brasileira, mas aqui ele ganha força por um conjunto específico de fatores.
Globalmente, o avanço dessas companhias acompanha grandes choques econômicos: a crise asiática dos anos 1990, a bolha da internet, o colapso do subprime em 2008 e a pandemia de Covid-19.
No Brasil, essas crises se combinaram a juros estruturalmente altos e a um sistema de insolvência pouco eficiente.
A Lei de Falências entra na conta
Mesmo após a modernização da legislação, a recuperação para credores ainda é baixa. De acordo com o Diário do Comércio, antes da Lei de Falências, estimava-se que a cada dólar devido o credor recuperava apenas US$ 0,02.
Depois da mudança, esse valor subiu para algo entre US$ 0,12 e US$ 0,20 — avanço relevante, mas distante de países como os Estados Unidos, onde a recuperação chega a US$ 0,75 a US$ 0,90.
Esse desenho cria incentivos para empurrar o problema com a barriga.
Por que o Brasil lidera em empresas zumbis
No fim, o Brasil aparece no topo do ranking por uma combinação difícil de desmontar:
- juros elevados por longos períodos;
- sucessão de crises econômicas;
- crédito direcionado e renegociado em excesso;
- baixa eficiência na execução de dívidas;
- custo elevado de reconhecer prejuízos.
O resultado é um mercado em que empresas quase mortas continuam ocupando espaço.