Quem é Guilherme Mello, indicado por Haddad para diretoria do Banco Central, e por que o mercado torceu o nariz para ele
Se Dario Durigan é o nome para acalmar os ânimos no Ministério da Fazenda com a iminente saída de Fernando Haddad, a possível ascensão de Guilherme Mello a uma diretoria do Banco Central colocou o mercado em modo de espera — e defesa.
Atual Secretário de Política Econômica (SPE) e ideólogo central do pensamento econômico do atual governo, Mello representa a tentativa mais ambiciosa do Palácio do Planalto de alterar a “alma” da autoridade monetária, migrando de uma gestão estritamente ortodoxa para uma visão focada no binômio investimento-crescimento.
Nos bastidores, a manobra é lida como um elo estratégico de Haddad: ao alçar Mello a uma das duas diretorias vagas do BC, o ministro não apenas aumenta a influência do seu braço direito, mas tenta alinhar as projeções da SPE — hoje o “norte” das metas fiscais — ao comando da política monetária.
Quem é Guilherme Mello
Aos 42 anos, o professor da Unicamp é um dos arquitetos do novo arcabouço fiscal. Sua tese central é a de que o controle de gastos do governo não pode ser um fim em si mesmo, mas um meio para viabilizar o investimento público.
No Copom, que define a taxa de juros do país, sua presença sinalizaria uma defesa explícita do mandato dual (mesmo que não formal): a busca pela meta de inflação sem sacrificar o pleno emprego e a atividade econômica.
Reação de mercado
A Faria Lima já começou a precificar o “fator Mello”. A reação imediata nos juros futuros (DIs) de longo prazo — os que medem o risco fiscal de longo curso — revelou o ceticismo dos players. O salto de 15 pontos-base refletiu o temor de uma política monetária mais leniente ou de uma pressão por cortes da Selic que ignorem as expectativas de inflação desancoradas.
Na visão do governo, Mello traz harmonia entre Fazenda e BC, reduzindo o ruído institucional e facilitando uma queda estrutural dos juros via coordenação de expectativas.
Já na visão do mercado, sua indicação pode ser vista como uma “intervenção técnica”, em que a meta de inflação passaria a ser secundária, elevando o prêmio de risco e a volatilidade do câmbio.
Três vetores para o investidor monitorar:
Dobradinha com Galípolo: A formação de uma maioria heterodoxa no Copom pode acelerar o ciclo de corte de juros, mas o custo pode ser a desancoragem das expectativas para 2027/28.
Sabatina no Senado: O rito político será o primeiro grande teste de estresse de Mello. O tom das respostas sobre a autonomia do BC ditará o ritmo dos mercados no dia.
Projeções da SPE vs. Focus: Como Mello comanda hoje as projeções de PIB e inflação da Fazenda, sua ida ao BC pode gerar um choque de metodologias com o Boletim Focus, que reúne as expectativas do mercado para a economia.
* Com supervisão de Maria Carolina Abe