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Ray Nasser: mineração em 2020 e seu impacto na geração de energia global

21/01/2020 - 13:30
bitcoin computador
Desenvolvimentos de mineração de bitcoin, antes nocivos ao meio ambiente, agora prometem revolucionar a energia global (Imagem: Unsplash/@wildbook)

A expressão “commodity de energia” se refere a uma variedade de produtos derivados de petróleo, gás natural e carvão.

Preços mais altos nestes produtos se traduzem diretamente em impactos econômicos de larga escala. Além delas, temos as fontes mais modernas de geração de energia, como hidrelétricas, eólicas, fotovoltaicas (solar) e nuclear.

O que todas essas fontes e comodidades de energia têm em comum? Todas são dependentes do mesmo fator para que funcionem corretamente: localização.

A demanda e a oferta de energia estão separadas pelo fator que, em grande parte, determina o custo final: distância. Construir a infraestrutura de transmissão de energia é caro e pode acabar com qualquer viabilidade de custo para produzi-la eficientemente.

Além disso, uma vez que a infraestrutura está pronta, existem também os custos de transmissão. Armazená-la também custa muito caro, então a energia produzida precisa ser utilizada rapidamente, já que o que não for utilizado será desperdiçado.

Ao contrário do que nossa ex-presidente(a) pregava, não conseguimos estocar vento, e estocar energia é inviável economicamente.

No último século, a procura por fontes de energia cada vez mais baratas pelo mundo gerou “hubs” de produção energética espalhados pelo planeta, de modo que, se não houver mais demanda local, essa geração se torna uma despesa muito grande (já que os custos de armazenamento são enormes) e, como consequência, a empresa geradora vai à falência.

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Transações de criptomoedas demandam por mais energia elétrica para a mineração de criptoativos (Imagem: Pixabay/rebcenter-moscow)

Isso tudo mudou graças à invenção de ASICs de mineração (máquinas de minerar bitcoin que consomem quantidades exorbitantes de energia) em 2014.

Pela primeira vez, havia um consumidor de energia portátil que gerava renda numa rede global. De repente, o mundo se deparou com uma diáspora de demanda energética onde pudemos ir até as fontes de energia em vez de fazê-las virem até nós.

Em 2016, a Bitmain, uma das maiores mineradoras na época, iniciou construção de uma operação gigante no sul da China, perto da cidade de Ordos, num lugar chamado “inner Mongolia”.

Ordos foi uma cidade planejada pelo governo chinês que não deu certo. Inicialmente atrativa pela sua indústria de mineração tradicional de carvão e incentivos do governo chinês, Ordos acabou não dando certo e se transformou numa cidade deserta.

Mas havia um detalhe: a região contava com energia barata. Afinal, essa energia não estava sendo utilizada e os valores da terra, obviamente, estavam praticamente zero.

Por meio da OR BLOCKCHAIN, talvez o primeiro fundo no mundo a dar exposição à mineração de bitcoin fundado por mim em 2016, nós aderimos à parte da mineradora da Bitmain.

Na época, estávamos minerando bitcoin com muita eficiência até fevereiro de 2018, quando começamos a receber ligações informando que a nossa operação seria desligada aos poucos.

Na China, meu amigo, o governo manda e você obedece. Não há alternativas.

Ocorre que, por conta das operações gigantescas de mineração da Bitmain, funcionários e suas famílias estavam se mudando para Ordos e a cidade começou a tomar forma novamente.

Como uma coisa leva à outra, o governo começou a olhar para a região com novas ideias, com o intuito de fomentar o desenvolvimento novamente.

Dado que as operações de mineração de bitcoin estavam usando grande parte da energia disponível, o Estado forçou desligamentos temporários, já que a demanda energética subiu significativamente.

Esse foi um caso clássico de como a mineração de bitcoin ajudou a reerguer uma cidade inteira, antes considerada deserta, a criar empregos e melhorar a qualidade de vida, onde antes ela era praticamente inexistente.

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Ordos Kongbashi, China (Imagem: REUTERS/David Gray/Files)

Após 2017, com o aumento da dificuldade de mineração e a necessidade de cortar os custos, nunca mais energia seria desperdiçada, em qualquer lugar que seja, por falta de demanda local.

A ambição dos participantes do mercado de mineração de bitcoin conseguiu criar um dispositivo consumidor de energia portátil e começou a enviá-lo aos quatro cantos do mundo para, assim, aproveitar qualquer produção de energia previamente não aproveitada, salvando negócios e gerando empregos.

Enquanto a mídia global cobre os escândalos de uma mimada adolescente sueca, a Suécia se abre para receber ASICs a fim de suprir a sua oferta de energia e gerar renda.

Enquanto o preço de metais como o alumínio despenca, a Rusal, segunda maior produtora de alumínio do mundo, usa a sua energia excedente para minerar bitcoin. Famílias no norte e leste europeu usam o calor, subproduto das ASICS, para aquecer os seus lares.

Plantações de cannabis, no Canadá, são protegidas do frio intenso pelo calor gerado por ASICS, estrategicamente colocados ao lado das plantas.

Em Israel, casas individuais com painéis solares e leves sobras de energia fotovoltaica estudam colocar máquinas mineradoras de criptomoedas em seus telhados para transformar o superávit de energia em renda.

Placas solar
A tecnologia dos criptoativos trouxe desenvolvimentos globais, para além do escopo dos blockchains (Imagem: Pixabay)

Essa é para os céticos, que vivem reclamando que bitcoin não tem lastro: já passou da hora de mudar o seu argumento. Energia é o “lastro” do bitcoin.

Milhões de dólares investidos na segurança de verificação de transações, milhares de empregos gerados, milhares de megawatts contratados e centenas de datacenters construídos, para que o Bitcoin se torne cada vez mais seguro, representam o lastro.

Ninguém poderia prever que o mercado de mineração iria ter um impacto tão forte e significante, especialmente na economia global.

Para financiar suas operações, mineradores já chegaram às Bolsas de Valores, fazendo IPOs e lançando o mercado de mineração como uma opção de investimento, por meio de ações em países como Estados Unidos, Canadá, Argentina e Israel.

Para se ter ideia, Peter Thiel, fundador do Paypal, investiu, com seu grupo, mais de US$ 50 milhões nessa atividade. Alan Howard, um conhecido gestor de fundos, está investindo mais de US$ 100 milhões em operações de bitcoin e derivados.

Ou seja, quanto maior for o investimento em mineração, maior será o “lastro” do bitcoin, mais seguro e inviolável será o sistema e, consequentemente, maior será a adoção de um novo modo de preservar o dinheiro e a independência dos agentes de mercado.

O mercado institucional entrou com tudo na indústria de mineração de bitcoin, exigindo, assim, grandes recursos energéticos a baixíssimos preços. Isso muda drasticamente a dinâmica do mercado de energia global.

Nunca mais haverá gasto de energia boa e barata, onde quer que seja. Muitos veem o bitcoin como um ativo que apenas serve para especulação e ganhos rápidos, ignorando sua enorme potência de transformação econômica global. Mas isso é apenas uma questão de tempo.

Raymond Nasser é graduado em Economia e Finanças em Babson College, Massachussets e tem 15 anos de experiencia no mercado financeiro como gestor de family office e portfólios de derivativos financeiros. Trabalhou em Nova York de 2004 a 2011, estruturando e montando produtos financeiros para investidores. Em 2015, entrou para o mundo das criptomoedas, investindo em sua primeira operação de mineração. Criou o primeiro fundo de private equity de mineração em 2015. É fundador da Or Blockchain Investments e sócio-fundador da OR-HUB, uma plataforma para vender, comprar e investir em ativos imobiliários.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 26/02/2020 - 15:49