Governo Lula rifa imposto sobre eletrônicos diante de desgaste político em ano eleitoral
O que nasceu como uma promessa de reforço de R$ 14 bilhões nos cofres públicos terminou como um revés tático para o Palácio do Planalto. Em um movimento incomum, exceto em um ano eleitoral como o de 2026, o governo Lula recuou do aumento no Imposto de Importação (II) sobre smartphones e notebooks.
A revogação das novas alíquotas, confirmada na última quinta-feira (27), sinaliza que o temor da inflação e a pressão digital sobre as urnas pesou mais na balança do que o cumprimento das metas fiscais propostas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
A estratégia original estava ancorada na Resolução 852 do Comitê Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex). O plano era elevar a tributação de mais de 1.200 produtos, fazendo com que a alíquota do II sobre itens como celulares e computadores saltasse de 16% para 20%. O Ministério da Fazenda, amparado pelo lobby da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), defendia a medida como um escudo para a produção nacional.
Contudo, a leitura do mercado foi imediata e negativa. Com as regras vigentes desde 6 de fevereiro, o setor precificou um encarecimento médio de R$ 160 em aparelhos móveis de entrada. Esse repasse direto ao consumidor atiçou a oposição e como gerou uma crise de imagem que o governo, focado nas eleições gerais de 2026, não se dispôs a sustentar.
A “manobra” da Camex e o alívio para o varejo
A pressão surtiu efeito. Após uma ofensiva de associações e empresas por pedidos de isenção, a Camex selou a revogação parcial do pacote.
Na prática, o recuo funciona como um paliativo de curto prazo: 15 itens considerados de alta sensibilidade para o IPCA retomam as taxas originais, com smartphones voltando ao patamar de 16%, e outros 105 produtos terão tarifa zerada por um período de 120 dias.
Nos bastidores de Brasília, o movimento é visto como uma vitória do setor privado sobre tentativa de arrecadação do Executivo.
30 dias de crise: O custo da desaprovação
A cronologia da crise mostrou um governo reativo. Entre a assinatura da Resolução 852 e o recuo oficial, parlamentares da base e da oposição reportaram a desaprovação da medida e relataram a pressão das redes sociais. Com a pressão inflacionária nos eletrônicos, o Planalto optou por sacrificar os R$ 14 bilhões previstos.
A mensagem para o mercado é mista: se por um lado o consumo ganha fôlego, por outro, a capacidade do governo de sustentar medidas fiscais impopulares em ano de urna volta a ser questionada.
* Com supervisão de Gustavo Porto