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Sabesp (SBSP3): dois anos após a privatização, o que deu certo, os riscos e o que esperar da companhia

23 jul 2026, 7:00
sabesp
(Imagem: Instagram/Sabesp)

A privatização da Sabesp (SBSP3) completa dois anos nesta quinta-feira (23), após um processo que transformou a empresa em uma corporation com ambiciosa meta de universalização até 2029.

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Com a privatização, o Estado de São Paulo reduziu a participação na empresa de 50,3% para 18,3%, em uma operação que movimentou R$ 14,8 bilhões. A Equatorial (EQTL3) entrou como investidora de referência, adquirindo 15% das ações por R$ 6,9 bilhões.

Para analistas ouvidos pelo Money Times, os dois anos mostram uma execução positiva, motivada principalmente pela aceleração dos investimentos e confiança de que a meta de universalização será cumprida.

Em 2025, a empresa registrou o maior volume anual de investimentos da sua história: R$ 15,2 bilhões, alta de 120% do registrado em 2024, quando haviam sido investidos R$ 6,9 bilhões. Esse valor rompeu um patamar histórico que, durante uma década, ficou próximo de R$ 7 bilhões ao ano.

Para 2026, a companhia projeta investimentos ainda maiores, da ordem de R$ 20 bilhões, concentrados principalmente na expansão do sistema de esgotamento sanitário.

Planejamento e a aquisição da Emae

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Para Fillipe Andrade, vice-presidente de Equities Research do Itaú BBA, um dos grandes destaques da “nova Sabesp” é a capacidade de se preparar e antecipar potenciais adversidades, tomando iniciativas práticas e de resultados concretos. Ele cita como exemplo o enfrentamento da situação crítica dos reservatórios da Grande São Paulo no fim de 2025, quando esses atingiram a pior situação hídrica desde a crise de 2014-2015.

Nos meses seguintes, em resposta, a companhia passou a adotar medidas como redução de pressão na rede durante determinados horários, campanhas de uso racional da água e intensificação da gestão operacional dos reservatórios.

Somou-se a isso também a aquisição da Emae, operadora de reservatórios estratégicos, como Billings e Guarapiranga. Com esse negócio, a Sabesp conseguiu unificar a gestão da infraestrutura hídrica da região, especialmente em situações críticas.

“A empresa também analisou o tema sob um espectro estratégico, fazendo a aquisição da Emae, que deverá contribuir no futuro para reforçar seu planejamento de resiliência”, disse Andrade, em entrevista ao Money Times.

Presença da Equatorial e reorganização

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Gustavo Fabricio, sócio da RPS Capital, acrescenta a presença da Equatorial nos pontos positivos. “A Equatorial tem um histórico de investimento muito bom. Já são praticamente 20 anos em que eles conseguem entregar investimentos bem relevantes nas investidas, e eu acredito que a Sabesp não é diferente”, disse ao Money Times.

Antes da privatização, a Sabesp era vista como uma companhia com estruturas sobrepostas e baixa eficiência operacional. Na avaliação do gestor, a mudança de controle permitiu uma reorganização rápida da empresa, com centralização de áreas, redução de custos e maior eficiência na contratação de serviços.

“Vimos que ela teve uma evolução muito rápida. Alguns meses após a privatização, já com a nova administração, eles conseguiram suportar alguns custos que eram realmente inchaços de empresa estatal”, afirma.

Segundo ele, a companhia deixou de funcionar como “vários feudos embaixo de uma empresa” e passou a operar de forma mais integrada, reduzindo despesas com pessoal e terceiros.

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Procurada para comentar a data, a Sabesp não se manifestou. No entanto, em entrevista concedida em janeiro deste ano, o diretor financeiro (CFO) da companhia, Daniel Szlak, afirmou que a grande prioridade da companhia era justamente universalizar o saneamento.

Ele afirmou que a privatização deu a agilidade necessária para acelerar essa entrega, com a conexão de cerca de 2.400 domicílios por dia, conforme fala da época.

O acesso crítico ao saneamento

Gestores e analistas preferem retornar alguns passos ao falar sobre a privatização da Sabesp, levando a discussão para a relevância do saneamento.

Giuliano Ajeje, analista de Utilities do UBS BB, recorda que, antes da reforma que levou ao Novo Marco do Saneamento, cerca de 94% da população era atendida por estatais, com aproximadamente 15% dos brasileiros sem acesso à água tratada e 50% sem coleta e tratamento de esgoto.

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“Nós tínhamos 15% da população sem acesso à água. Significa uma população do Canadá, dentro do Brasil, sem acesso à água. Nós tínhamos 50% da população sem acesso a esgoto. Uma população da Rússia, dentro do Brasil, sem acesso a esgoto”, destaca Ajeje.

Na visão dele, a combinação de falta de investimentos, indefinições sobre o poder concedente em regiões metropolitanas, baixa coordenação entre municípios e pouco incentivo político formavam um cenário de precariedade do setor, que respingava em outras esferas da sociedade.

Além da baixa cobertura, o setor enfrentava indefinições regulatórias, ausência de investimentos e um modelo institucional que dificultava grandes projetos de expansão, especialmente em regiões metropolitanas.

“Quando você traz o saneamento, você traz melhora na educação simplesmente porque a pessoa passa a ter água tratada em casa”, afirma o analista.

Investimento robusto

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Para Filipe Andrade, do BBA, a execução do plano de investimentos atrelado à universalização do acesso ao saneamento é um dos aspectos mais relevantes para o sucesso da tese da Sabesp, em particular dadas as penalidades contratuais existentes no caso de falhas em cumprir com as metas de universalização.

“Temos bastante confiança na capacidade da empresa em gerenciar esse risco. Desde sua privatização, a empresa expandiu sensivelmente o número de contratantes para executar seu plano de investimentos, tendo garantido já a contratação de um volume total de investimentos de cerca de R$ 39 bilhões”, afirma ele.

Ajeje, do UBS BB, concorda, apontando a aceleração dos investimentos como um legado dos primeiros anos de privatização. Uma questão, no entanto, era se a companhia conseguiria equilibrar uma aceleração do dinheiro desembolsado com a continuidade da rentabilidade da empresa. Para isso, o analista retoma o destaque para a mudança regulatória.

Pela regra antiga, os investimentos só começavam a ser remunerados quatro anos depois de realizados. Com o novo modelo, até 2029 a remuneração ocorre anualmente, reduzindo a pressão financeira sobre a companhia em meio ao ritmo mais intenso de obras.

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Para o gestor Gustavo Fabricio, da RPS Capital, dois fatores merecem acompanhamento, sendo o primeiro a capacidade de manter o ritmo de investimentos previsto no contrato de concessão. O segundo é o cumprimento das metas de expansão do serviço em áreas periféricas, que são monitoradas pelo governo e podem resultar em penalidades tarifárias em caso de descumprimento. “Este é o risco que o mercado vai acompanhar com lupa”, diz.

Meta de universalização será cumprida?

O Novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020) estabeleceu a meta de universalizar os serviços de água e esgoto no Brasil até 2033. A legislação exige licitação obrigatória para novos contratos, abrindo espaço para investimentos privados, e centraliza a regulação na Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

No caso da Sabesp, a companhia paulista se comprometeu a endereçar a questão da universalização até 2029. Para o BBA, a empresa deverá cumprir integralmente o cronograma, com altas probabilidades de algumas regiões do interior de São Paulo atingirem a universalização antes dessa data.

Giuliano Ajeje, do UBS BB, avalia que, apesar do otimismo, o principal gargalo deixou de ser financeiro e passou a ser operacional. “Hoje o gargalo é obra. São 1.200 canteiros de obras”, afirma.

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Ele explica que a companhia precisou primeiro ampliar a capacidade de tratamento de água e esgoto para, somente depois, iniciar a conexão dos novos consumidores, processo que justifica o grande volume de intervenções espalhadas pelo Estado.

A visão dele, apesar de um cenário de execução desafiador, é de que a companhia conseguirá cumprir o cronograma. “Eu acredito que a Sabesp vai cumprir a meta. Missão dada é missão cumprida”, diz.

Horizonte positivo para a Sabesp?

Para o analista do Itaú BBA, a Sabesp privatizada conta com posição de liderança no segmento, solidez de balanço e crescimento contratado de Ebitda, geração de caixa e capacidade técnica, características essenciais para a trajetória de consolidação do setor.

“Esses pontos são diferenciais competitivos inerentes à companhia, porém só se tornam componentes sólidos de geração de valor sob uma perspectiva de gestão privada, com foco na análise de oportunidades de expansão fundamentada em retornos claros na alocação de capital, uma dinâmica que, em nossa visão, só foi possível após a privatização da companhia”, diz Andrade.

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Ele aponta a Sabesp como um dos melhores nomes para se investir no setor de Utilities do Brasil, dada a combinação de marcos regulatório e contratual sólidos, execução de excelência e capacidade de geração de valor ímpar no setor.

“Além disso, após a universalização ser concluída, a empresa passará a ser uma das maiores geradoras de caixa do setor, permitindo uma remuneração atrativa para seus acionistas por meio de um modelo de negócio resiliente”, pondera.

Giuliano Ajeje, do UBS BB, afirma que a Sabesp continua entre suas principais recomendações de investimento, uma vez que se trata de um negócio de receita previsível, pouco sensível às oscilações econômicas e apoiado em um ambiente regulatório considerado estável.

“Não importa muito os rumos da economia. As pessoas continuam consumindo água”, afirma.

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Na avaliação do analista, a empresa deve registrar crescimento consistente dos resultados ao longo dos próximos anos, impulsionada tanto pelo ganho de eficiência quanto pelo ciclo de investimentos em andamento.

No que diz respeito a uma eventual reestatização da Sabesp, a visão é de que não se trata de um risco no radar, mesmo com críticas de nomes como Fernando Haddad, potencial candidato do PT ao governo de São Paulo, à privatização da companhia.

Para o gestor Gustavo Fabricio, a experiência da Sabesp pode, inclusive, servir de referência para o restante do país. Na visão dele, a ampliação da participação da iniciativa privada é fundamental para acelerar a universalização do saneamento.

“Se a gente realmente coloca na mão de empresas sérias, que obviamente vão querer ter seu lucro, mas que vão entregar um serviço de qualidade, a gente pode transformar o saneamento no Brasil”, afirma.

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Apesar da avaliação positiva do mercado sobre os primeiros dois anos de gestão privada, a privatização da Sabesp continua sendo alvo de críticas. O principal argumento dos opositores é que a transferência do controle para a iniciativa privada pode priorizar a rentabilidade dos acionistas em detrimento de um serviço considerado essencial, além de levantar preocupações sobre reajustes tarifários, atendimento à população de baixa renda e redução da capacidade de intervenção do Estado.

Desempenho das ações

As ações da Sabesp acumulam uma alta de 9% no ano de 2026, até o dia 22 de julho. Já nos últimos 12 meses, a alta supera 36%.



De acordo com informações da ferramenta TradeMap, entre nove recomendações dos principais bancos e corretoras, a Sabesp acumula sete indicações de compra, uma neutra e uma de venda.

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Repórter
Formada em jornalismo pela Universidade Nove de Julho. Ingressou no Money Times em 2022 e cobre empresas, com foco em varejo e setor aéreo.
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