Tenda (TEND3) lidera quedas do Ibovespa após 3T26: bancos ligam alerta, mas veem potencial para a ação triplicar
A deterioração das margens, os efeitos do crédito imobiliário mais restrito e o risco de aumento da inadimplência estão entre os principais fatores que ligaram alerta dos grandes bancos em relação ao balanço da Tenda (TEND3) neste terceiro trimestre. As ações lideram as queda do Ibovespa na manhã desta quinta-feira (11).
Em relatórios divulgados após o balanço, Itaú BBA, Safra e BTG Pactual apontaram dificuldades que vão além do lucro abaixo das expectativas e podem comprometer a recuperação operacional da incorporadora nos próximos trimestres.
Um dos principais pontos de atenção é o impacto do endurecimento das condições de financiamento habitacional, especialmente nas operações da Caixa Econômica Federal (CEF). Com critérios mais rigorosos para a concessão de crédito, a Tenda passou a enfrentar um ambiente comercial mais desafiador, que exige ajustes nas condições de venda e pressiona a rentabilidade dos empreendimentos.
O problema também aparece no financiamento direto oferecido pela própria companhia aos compradores. A Tenda reduziu a participação do chamado crédito pro soluto pós-entrega — mecanismo pelo qual parte do pagamento dos imóveis é recebida após a entrega das unidades — de aproximadamente 10% para 7% do valor dos imóveis.
A mudança, embora alinhada a uma política mais conservadora de concessão de crédito, teve impacto maior do que o esperado pelos analistas. Segundo o Safra, a restrição contribuiu para uma queda de 2,9 pontos percentuais na margem bruta das novas vendas, que chegou a 34,5% no terceiro trimestre.
Para o Itaú BBA, a pressão também foi resultado de descontos nos preços dos imóveis, especialmente no Rio de Janeiro, onde o ambiente de financiamento mais restritivo exigiu condições comerciais menos favoráveis. O banco destacou ainda que mudanças no mix de produtos, cancelamentos e a ausência de economias extraordinárias de custos contribuíram para a queda das margens.
Pressão sobre margens e risco de revisão dos lucros
A deterioração da rentabilidade é uma preocupação comum aos três bancos. Na operação principal da Tenda, a margem bruta ajustada recuou de 39,9% no segundo trimestre para 34,6% no terceiro, uma queda de 5,3 pontos percentuais.
O Itaú BBA avalia que a companhia pode enfrentar revisões negativas nas estimativas de lucro para 2027. Em uma análise de sensibilidade, o banco calcula que uma redução da margem bruta dos empreendimentos em construção de 38,3% para aproximadamente 36% poderia provocar um corte de 10% a 15% nas projeções de lucro.
O Safra também considera provável uma revisão para baixo das estimativas, uma vez que o impacto da política mais restritiva de crédito pós-entrega foi mais intenso do que o antecipado. Além disso, o banco chama a atenção para o aumento das despesas comerciais relacionadas aos cancelamentos e para o crescimento de 28% nas despesas gerais e administrativas em relação ao mesmo período do ano anterior.
O BTG Pactual, por sua vez, avalia que parte das pressões sobre as margens e a velocidade de vendas deve persistir, o que torna a recuperação da companhia mais gradual. Entre os fatores apontados estão o maior peso de projetos das faixas 1 e 2 do Minha Casa, Minha Vida, os descontos comerciais e o aumento dos cancelamentos.
Carteira de recebíveis acende alerta
Outra preocupação levantada pelo Safra está relacionada à qualidade da carteira de crédito da incorporadora. O banco destaca que a Tenda possui aproximadamente R$ 2,3 bilhões em créditos pós-entrega, equivalentes a cerca de 36% do total de recebíveis brutos da companhia.
Na avaliação dos analistas, o aumento do endividamento das famílias e uma eventual deterioração da qualidade do crédito podem exigir provisões adicionais, pressionando os resultados futuros.
O alerta é relevante porque a redução do crédito direto aos clientes representa uma tentativa de limitar a exposição da companhia ao risco de inadimplência. Ao mesmo tempo, porém, essa estratégia pode dificultar as vendas e reduzir as margens, criando um dilema para a incorporadora.
O desempenho da Alea, operação de casas industrializadas da Tenda, também aparece como ponto de atenção no relatório do BTG. A divisão encerrou o trimestre com margem bruta ajustada de apenas 5,5%, indicando dificuldades adicionais para a rentabilidade consolidada.
Comunicação da companhia também preocupa
Além dos indicadores operacionais e financeiros, o BTG Pactual aponta que a comunicação pouco clara da Tenda sobre as dificuldades enfrentadas pela companhia tem prejudicado a confiança dos investidores.
A questão ganha importância diante da perspectiva de recuperação mais lenta. Para o mercado, não basta identificar os fatores que pressionaram os resultados: também é necessário entender por quanto tempo essas condições devem persistir e quais medidas poderão permitir a recomposição das margens.
Apesar das ressalvas, os três bancos mantêm uma avaliação positiva sobre o preço das ações. Itaú BBA e Safra preservam recomendação de compra, enquanto o primeiro também considera que a companhia negocia a múltiplos bastante descontados, mesmo diante da possibilidade de revisão das projeções de lucro.
O Itaú BBA tem o maior preço-alvo entre as três instituições, de R$ 58, o que representa um upside de 193,7% em relação ao fechamento de R$ 19,75 no último pregão. O Safra projeta R$ 46 por ação, com potencial de alta de 132,9%, enquanto o BTG Pactual estabelece preço-alvo de R$ 45, equivalente a uma valorização potencial de 127,8%.