Totvs (TOTS3) vê “morte de softwares” como exagero e enxerga IA como grande oportunidade
Depois da queda de cerca de 20% em dois dias, atribuída ao receio de que novas ferramentas de inteligência artificial — como as lançadas pela Anthropic — possam pressionar empresas de software, a Totvs (TOTS3) decidiu enfrentar o debate de frente. Na teleconferência de resultados, realizada nesta quinta-feira (12), a companhia afirmou que a tese de que a inteligência artificial (IA) “acabaria” com o setor é exagerada e classificou a tecnologia como “a maior oportunidade da história da companhia”.
“Essa discussão de que a IA vai matar o software me fez lembrar do Mark Twain: ‘A notícia da minha morte foi um exagero’”, disse o presidente da companhia, em referência à frase do escritor norte-americano que ironizou rumores sobre sua própria morte. Para ele, longe de representar uma ameaça existencial ao setor, a IA é “a maior oportunidade da nossa história”.
Segundo o executivo, a comparação ignora que “os softwares não são iguais” e que um Sistema de planejamento de recursos empresariais (ERP) — software que integra finanças, fiscal, contabilidade, estoque e processos operacionais de uma empresa — “é muito mais do que uma aplicação”.
O receio do mercado é que ferramentas de IA generativa passem a executar tarefas hoje realizadas dentro dos ERPs, reduzindo a necessidade de uso dos sistemas tradicionais. Para a Totvs, porém, o nível de precisão exigido nesses softwares torna essa substituição improvável.
“Quanto mais crítico e complexo é um software, mais lento é o ritmo de adoção de qualquer tecnologia, incluindo a IA. Softwares de gestão são os mais críticos e complexos. E a Totvs é focada no pequeno e médio empresário brasileiro”, afirmou. “O nível de acuracidade necessário e os riscos envolvidos no caso de erros tornam a ideia da substituição de sistemas de gestão por aplicativos criados por usuários algo bastante questionável.”
Totvs acelera investimentos em IA
A resposta não ficou apenas no discurso. A Totvs anunciou que pretende intensificar os aportes em desenvolvimento, com um incremento adicional de cerca de R$ 75 milhões por ano nos próximos quatro anos, dentro de um total estimado de aproximadamente R$ 600 milhões no período.
Os recursos serão direcionados à evolução da base tecnológica que permitirá integrar agentes de inteligência artificial aos próprios ERPs, além da ampliação da infraestrutura em nuvem e da adaptação dos sistemas para novos modelos de monetização baseados no uso dessas funcionalidades.
A estratégia está baseada na chamada Inteligência Artificial de Propósito Específico (ANI, na sigla em inglês para Artificial Narrow Intelligence) — modelo voltado para tarefas e contextos delimitados — em vez da Inteligência Artificial Geral (AGI, sigla para Artificial General Intelligence), que busca executar múltiplas funções amplas.
“Estamos convictos de que o caminho para os nossos clientes adotarem a IA em larga escala é a inteligência artificial de propósito específico e não a inteligência artificial geral”, afirmou o executivo. Segundo ele, por ser especializada, a ANI “tem domínio do contexto”, o que a torna “muito superior em precisão e desempenho”, com “custos significativamente menores”, além de “mais governança e segurança”.
Denis também destacou que esse posicionamento permite avançar com um nível de investimento inferior ao de grandes empresas globais de tecnologia. “Não há necessidade de fazer investimento de bilhões. O nosso papel não é o papel de um grande provedor de infraestrutura”, afirmou.
A administração ressaltou ainda que a IA já começa a gerar ganhos internos de produtividade. O impacto, segundo a companhia, é “concreto, crescente e transversal”, contribuindo para melhora de eficiência operacional.
No recado ao mercado, a Totvs tenta inverter a narrativa: em vez de enxergar a inteligência artificial como ameaça aos ERPs, a companhia aposta que a tecnologia pode ampliar sua relevância dentro das empresas e expandir seu mercado potencial.