Federal Reserve

Warsh assustou Wall Street? Mercado pode ter exagerado na reação, diz economista

17 jun 2026, 18:37 - atualizado em 17 jun 2026, 18:53
andressa durão, economista-chefe do ASA
(Imagem: Canva Pro/Bumblee-Dee)

A estreia de Kevin Warsh na presidência do Federal Reserve (Fed) veio acompanhada de uma mensagem mais dura do que o mercado esperava. Apesar de manter os juros inalterados nesta quarta-feira (17), o banco central americano apresentou projeções mais inflacionárias e indicou menor disposição para sinalizar antecipadamente seus próximos passos, provocando uma reprecificação das apostas para a trajetória da política monetária nos Estados Unidos.

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Para a economista-chefe do ASA, Andressa Durão, a principal surpresa não foi apenas o conteúdo da decisão, mas a forma como Warsh deixou claro que pretende reformular a comunicação do Fed.

“O mercado já sabia que ele não gostava de forward guidance e dos dot plots, mas ninguém imaginava que ele começaria a mexer nisso já na primeira reunião“, afirmou.

Segundo ela, o comunicado mais enxuto divulgado pelo Fed já mostrava a influência do novo presidente. Durante a coletiva, Warsh reforçou que pretende rever os mecanismos de comunicação da instituição, sem detalhar quando as mudanças ocorrerão.

“Além de o mercado ficar às cegas sobre os próximos passos do Fed, você traz alguma incerteza porque ele fez algumas promessas ali. A gente não sabe quando vai acontecer essa alteração”, disse.

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Os índices de Wall Street encerraram o pregão em baixa após as falas de Warsh e a sinalização de um juro mais restritivo nos EUA. Dow Jones encerrou com queda de 0,98%, S&P 500 seguiu a mesma linha com -1,21% e Nasdaq sentiu o maior impacto com recuo de 1,35%.

Compromisso com a inflação

Outro ponto que chamou atenção foi a postura de Warsh diante do cenário inflacionário. Embora tenha evitado indicar explicitamente altas futuras dos juros, o novo presidente reforçou diversas vezes o compromisso da autoridade monetária com a estabilidade de preços.

“Ele não demonstrou qualquer possibilidade de corte de juros. Também não falou sobre alta, mas se comprometeu com as metas do Fed e com a estabilidade de preços”, afirmou Durão.

Na avaliação da economista, o discurso acabou sendo interpretado como hawkish (mais duro) pelo mercado, especialmente porque parte dos investidores acreditava que Warsh poderia adotar uma postura mais favorável ao afrouxamento monetário após assumir o comando do banco central.

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“Num ambiente inflacionário, um presidente entrar dizendo que vai entregar estabilidade de preços é, de certa forma, uma postura mais dura. O mercado esperava alguém mais dovish.”

Mercado antecipa aperto monetário

Após a decisão, os investidores passaram a antecipar uma eventual alta dos juros já para setembro, movimento que ganhou força com a divulgação do novo dot plot e das projeções econômicas.

Para Durão, a revisão das estimativas de inflação foi o principal fator por trás da mudança de percepção.

“A projeção de inflação do Fed foi o grande ponto. Ninguém acreditava que o Fed fosse revisar tanto a inflação porque, nos últimos ciclos, ele não tinha feito movimentos tão bruscos.”

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Segundo ela, o Fed vinha sendo acusado de estar “atrás da curva” no combate à inflação. A decisão desta quarta-feira teria mostrado justamente o contrário.

“O Fed veio mostrando que está disposto a fazer o que tiver que fazer. Se ele está comprometido em entregar estabilidade de preços, então uma alta de juros não deveria ficar restrita apenas a dezembro.”

Apesar disso, a economista avalia que a reação inicial dos mercados pode ter sido exagerada.

“Acho que o mercado pode ter exagerado um pouco, como sempre exagera. Amanhã deve ficar mais claro qual é a probabilidade efetiva de alta. Depois, a tendência é acomodar para um cenário de uma ou duas altas este ano.”

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Fim das sinalizações aumenta importância das reuniões

Outro efeito das mudanças defendidas por Warsh é o aumento da incerteza sobre o futuro da política monetária.

Sem orientações claras sobre os próximos movimentos e com a possibilidade de redução da importância dos dot plots, cada reunião do Fed tende a ganhar ainda mais relevância.

“Se você não sabe o que eles vão fazer, só vai descobrir na hora. Então a decisão passa a ser super informativa porque eles podem subir juros a qualquer momento e a gente não sabe quando.”

Na visão da economista, Warsh também deixou claro que pretende construir suas decisões em conjunto com o restante do comitê, afastando a percepção de que sua gestão representaria uma ruptura radical em relação ao Fed.

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“Ele citou várias vezes os outros membros. Falou que estava ouvindo o comitê. Ficou mais claro para o mercado que ele não vai fazer política monetária sozinho.”

Efeitos para o Brasil

A mudança de postura do Fed também aumenta os desafios para o Banco Central brasileiro. Segundo Durão, o ambiente internacional mais inflacionário reduz o espaço para novos cortes da Selic, justamente quando o Copom ainda precisa decidir se cumprirá ou não a sinalização dada anteriormente.

“O grande erro foi ter prometido um corte. Está muito difícil defender esse cenário. É um ambiente muito inflacionário para o Brasil também.”

Ela lembra que outros bancos centrais desenvolvidos também passaram a adotar um discurso mais duro recentemente, reforçando a pressão sobre economias emergentes.

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“O Fed muda tudo para o Brasil e para qualquer outro banco central. Isso só torna a decisão do Copom ainda mais difícil”.

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Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
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