Warsh endurece discurso sobre inflação, evita sinalizar cortes e deixa mercado sem pistas
O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, estreou à frente do banco central americano com uma mensagem que deve manter os investidores cautelosos em relação ao futuro da política monetária. A autoridade monetária reforçou que o combate à inflação segue sendo a prioridade, enquanto qualquer sinalização antecipada sobre os próximos passos dos juros ficou fora da mesa.
Após a decisão de manter a taxa básica entre 3,50% e 3,75%, Warsh adotou um tom considerado duro ao longo da coletiva de imprensa, reforçando repetidamente que a inflação permanece acima da meta de 2% e que o Fed está determinado a restaurar sua credibilidade.
“Temos a capacidade e o compromisso de entregar nosso objetivo de estabilidade de preços de 2%. É isso que vamos fazer”, afirmou durante a coletiva de imprensa.
Dot plot perde força
Embora o novo dot plot tenha mostrado um comitê dividido entre manter os juros estáveis e promover uma alta até o fim do ano, Warsh tratou as projeções com cautela.
O presidente afirmou que os dirigentes fizeram suas estimativas “a lápis, daqueles com uma grande borracha na ponta”, numa referência à rapidez com que o cenário econômico pode mudar.
Segundo ele, os participantes do comitê não demonstraram forte convicção sobre seus cenários.
“O que ouvi ao redor da mesa foi humildade”, disse. “Eles não se sentiam presos a essas projeções daqui a seis semanas ou mesmo daqui a seis dias.”
Warsh também revelou que não enviou sua própria projeção para o documento e indicou que o Fed poderá revisar a utilidade do dot plot como ferramenta de comunicação. “Para mim, isso não é particularmente útil na condução da política monetária”, afirmou.
Sem guidance e sem discussão sobre cortes
Uma das principais novidades da gestão Warsh é o abandono explícito do forward guidance, que ele já vinha apontando quando questionado em entrevistas antes de assumir a cadeira mais alta do Fed.
Segundo o dirigente, os mercados devem reagir aos dados econômicos, e não tentar antecipar as reações do banco central.
“Acho que os mercados funcionam melhor quando reagem aos dados que chegam. Funcionam menos eficientemente quando tentam responder à pergunta de como o Federal Reserve reagirá a essas informações”, afirmou.
Questionado diversas vezes sobre quais condições poderiam justificar uma alta ou uma queda dos juros, o presidente evitou fornecer qualquer indicação. “Não posso dar nenhuma orientação sobre o que faremos em seguida”, respondeu.
Warsh revelou ainda que a decisão anunciada nesta quarta-feira (17) foi a única proposta formal analisada pelo comitê.
“Havia uma proposta sobre a mesa. Não houve discussão de outras propostas. O grupo foi unânime e inequívoco”, disse.
A declaração chamou atenção porque, apesar do tom firme sobre inflação, também sugere que não houve apoio relevante a uma alta imediata dos juros.
Credibilidade passa por entregar inflação de 2%
O tema dominante da coletiva foi a estabilidade de preços. Warsh repetiu diversas vezes que a inflação permanece acima da meta há mais de cinco anos e defendeu que o Fed recupere sua credibilidade por meio da entrega de resultados.
Em outro momento, reforçou: “O compromisso de entregar estabilidade de preços é forte, unânime e inequívoco. Essa é uma mensagem que perdemos por cinco anos. E vamos corrigir isso.”
A frase foi uma das mais contundentes da coletiva e sinaliza uma tentativa de diferenciar sua gestão da comunicação adotada pelo Fed nos últimos anos.
IA entra no radar da política monetária
Além dos juros, Warsh dedicou parte da coletiva à inteligência artificial, tema que considera central para o futuro da economia americana.
O presidente classificou a tecnologia como uma das transformações econômicas mais importantes das últimas décadas.
“A inteligência artificial talvez seja a mudança mais importante para a economia, para os negócios e para as famílias que vimos durante minha vida adulta”, afirmou.
Segundo ele, o Fed já consegue enxergar os efeitos dos investimentos em data centers e infraestrutura sobre a demanda, mas ainda há incerteza sobre quando os ganhos de produtividade aparecerão de forma mais ampla.
Para Warsh, os Estados Unidos tendem a sair fortalecidos desse processo. “Minha convicção é que os Estados Unidos serão vencedores nessa transformação”, disse.