O caso brasileiro que antecipou o ESG décadas antes de o mercado descobrir a sigla
Muito antes de investidores cobrarem metas de sustentabilidade, relatórios de impacto ou compromissos ambientais das empresas, uma iniciativa criada no coração do Cerrado já tentava resolver um problema que hoje caberia perfeitamente em uma agenda ESG.
Em 1957, quando Brasília ainda era um gigantesco canteiro de obras, a construção da futura capital brasileira impunha um desafio pouco discutido: o destino dos animais afetados pelo avanço das máquinas sobre a vegetação nativa.
A resposta veio com a criação do Jardim Zoológico de Brasília, inaugurado três anos antes da própria cidade.
À época, ninguém falava em ESG.
Mas a lógica por trás do projeto guarda semelhanças com um tema que hoje mobiliza empresas, investidores e gestores ao redor do mundo: como mitigar impactos ambientais, preservar ativos naturais e gerar benefícios para a sociedade.
Quase 70 anos depois, o espaço se tornou um exemplo curioso de como uma iniciativa criada para enfrentar um problema ambiental específico acabou acumulando capítulos ligados aos três pilares que sustentam o conceito moderno de ESG.
O componente ambiental nasceu junto com a construção da capital
O primeiro objetivo do zoológico era relativamente simples.
À medida que as obras avançavam sobre o Cerrado, animais eram encontrados em áreas que seriam ocupadas pela nova cidade. O espaço passou a funcionar como um local de acolhimento e proteção da fauna impactada pelas intervenções.
O que começou como uma medida prática evoluiu para uma instituição dedicada à conservação, ao manejo de espécies e à educação ambiental.
Sob a ótica atual, trata-se de um exemplo de como grandes projetos de infraestrutura precisam considerar os efeitos de suas atividades sobre o meio ambiente e desenvolver mecanismos de mitigação capazes de preservar parte do patrimônio natural afetado.
Da conservação à inovação científica
Com o passar das décadas, o zoológico ampliou sua atuação e passou a investir em pesquisa e medicina veterinária.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu com uma fêmea de lobo-guará atropelada, tratada por meio de técnicas envolvendo células-tronco. O caso colocou a instituição entre os exemplos de aplicação de biotecnologia voltada à recuperação de animais silvestres.
A estrutura também desenvolveu protocolos para o acompanhamento de animais idosos e fortaleceu programas voltados ao bem-estar animal.
Esse avanço levou ao reconhecimento internacional da Associação Mundial de Zoos e Aquários (WAZA), uma das principais entidades globais do setor.
Para investidores acostumados a analisar ativos intangíveis, reputação institucional e capacidade de inovação, esse tipo de reconhecimento representa uma validação importante da qualidade de gestão e dos padrões adotados pela organização.
Quando o impacto social se transforma em legado
O pilar social da história do zoológico também foi construído por meio de episódios marcantes.
Um dos mais conhecidos ocorreu em 1977, quando uma criança caiu no fosso das ariranhas.
Ao perceber o risco, o sargento Sílvio Delmar Hollenbach pulou no local para tentar realizar o resgate.
A criança sobreviveu, mas o militar morreu em consequência da ação.
A repercussão foi tão grande que o governo decidiu renomear oficialmente a instituição em sua homenagem. Anos depois, a homenagem foi consolidada em legislação específica, que também determinou a instalação de um busto na entrada principal.
O episódio ajudou a transformar o zoológico em um símbolo que vai além da preservação ambiental, incorporando também elementos de memória coletiva e impacto social.
Empresários, diplomacia e reputação
Outra história que ajuda a explicar o peso institucional conquistado pelo zoológico envolve a elefanta Nely.
Nos anos 1990, um grave problema de saúde mobilizou empresários e apoiadores que ajudaram a financiar uma operação para trazer medicamentos de São Paulo.
Embora o animal não tenha sobrevivido, a repercussão do caso ultrapassou os limites de Brasília.
O episódio abriu caminho para um gesto diplomático incomum: durante visita oficial ao Brasil, Nelson Mandela doou um casal de elefantes ao zoológico.
O caso ilustra como instituições ligadas à conservação ambiental podem construir conexões que ultrapassam sua atividade principal, alcançando dimensões sociais, econômicas e até geopolíticas.
Um ESG antes do ESG
A comparação entre o Zoológico de Brasília e o conceito moderno de ESG tem lá seus limites.
O termo só ganharia relevância global décadas depois da criação da instituição.
Ainda assim, a trajetória do espaço oferece um exemplo interessante de como temas que hoje dominam a agenda corporativa já apareciam, de forma prática, na gestão de desafios ambientais e sociais muito antes de receberem uma sigla.
A preservação da fauna impactada pelas obras, o investimento em pesquisa científica, o reconhecimento internacional, o engajamento da sociedade civil e a construção de um legado institucional mostram que os três pilares do ESG podem surgir muito antes dos relatórios, métricas e indicadores que passaram a orientar empresas e investidores no século XXI.