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Banco Master: Fundo de R$ 2,2 bi ligado à North Sea e QORE teria sido usado para ocultar patrimônio de Vorcaro

10 abr 2026, 16:23 - atualizado em 10 abr 2026, 18:51
Banco Master
Caso Master: Entenda por que ex-diretor do Banco Central é o novo alvo da PF (Imagem: montagem Money Times)

Um fundo de investimento com cerca de R$ 2,2 bilhões esteve no centro da segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de crimes envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro. É nesse fundo, segundo apurou o Money Times, que estariam alocados os valores que a Justiça determinou bloquear em janeiro.

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De acordo com uma fonte ouvida pela reportagem, trata-se do multimercado Somme, administrado pela QORE e gerido pela North Sea, apontado por investigadores como possível veículo de ocultação de patrimônio. Ainda segundo pessoas ouvidas pela reportagem, o beneficiário final seria Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel.

A decisão, assinada em janeiro pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 2.245.235.850,24 em contas associadas à família. O despacho indica que esse valor estava registrado em uma conta de Henrique Vorcaro na CBSF DTVM (Reag), instituição que teria atuado como distribuidora — o que, na prática, trava o acesso às cotas e aos ativos mantidos no fundo.

A QORE DTVM e a North Sea Gestora de Recursos não responderam aos pedidos de comentário enviados pela reportagem até a publicação. O espaço segue aberto.

O que apontam as investigações

Os valores bloqueados estavam registrados na conta mantida na Reag, mas aplicados em cotas do Somme. Com isso, ao atingir a conta do investidor, as medidas judiciais acabam, na prática, travando também o acesso aos ativos mantidos dentro do fundo.

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No dia seguinte ao bloqueio aos recursos, em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da própria Reag, citando “graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional”.

Na representação que embasou as medidas da operação, a Polícia Federal descreve a Reag como uma estrutura utilizada para viabilizar a movimentação de valores dentro do arranjo investigado, incluindo operações em nome de terceiros.

Os valores envolvidos são praticamente idênticos. De um lado, R$ 2.245.235.850,24 bloqueados na conta vinculada à Reag. De outro, aproximadamente R$ 2,2 bilhões registrados no patrimônio do fundo Somme no mesmo período.

A coincidência temporal e numérica reforça a conexão, ainda que a correspondência direta entre os recursos dependa de elementos que constam nos autos do processo, que estão sob sigilo.

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Envolvimento com a Credcesta

Antes do bloqueio, o fundo Somme operava com uma concentração praticamente total em um único ativo. Entre maio e setembro de 2025, o fundo alocava cerca de R$ 2,1 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) emitidas pela PKL ONE Participações. A empresa controla a Credcesta, fintech de crédito consignado cujo acionista majoritário é Augusto Lima, ex-sócio do Master.

O arranjo indicava uma exposição altamente concentrada em operações de crédito consignado, com baixa diversificação e forte dependência de um único emissor. O fundo tinha, naquele período, um único cotista, cuja identidade não é pública. Segundo fonte, no entanto, esse investidor seria ligado a familiares de Vorcaro.

A Credcesta se consolidou como um dos principais pilares de originação de crédito dentro do entorno do Master — e também passou a figurar no centro das investigações envolvendo o grupo. Estruturado como um cartão de crédito consignado com desconto em folha para servidores públicos, o produto gera fluxos previsíveis que podem ser convertidos em ativos financeiros e distribuídos por meio de fundos.

Estruturas complexas

Segundo investigações da Polícia Federal, parte dessas carteiras pode ter sido inflada ou estruturada sem lastro adequado, sendo utilizada na composição de ativos de grande volume. Esse tipo de dinâmica também aparece em episódios envolvendo suspeitas de créditos inexistentes ou de baixa qualidade usados em operações financeiras relevantes, incluindo tentativas de aquisição de participações no sistema bancário, como no caso do BRB.

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Na prática, o modelo permitia não apenas a geração de ativos em escala, mas também sua circulação entre diferentes veículos financeiros, criando camadas adicionais de complexidade. Esse tipo de mecanismo, de acordo com a PF, pode dificultar o rastreamento de recursos e a identificação de sua origem — elemento que dialoga com as suspeitas de ocultação de patrimônio no caso.

Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que, na sequência, a carteira do Somme passou por uma mudança abrupta. Em outubro de 2025, as posições desapareceram dos relatórios públicos.

Em janeiro de 2026, os dados voltaram sob nova configuração: o fundo passou a deter cotas do Marne FIDC-NP, também sob gestão da North Sea, no valor de R$ 2,2 bilhões — uma troca de ativos que preservou praticamente todo o volume financeiro.

A movimentação ocorre na mesma janela temporal das medidas judiciais e coincide com o período em que, segundo o STF, arranjos estavam sendo feitos para ocultar capital.

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Na decisão que embasou a operação, Mendonça afirma que a organização investigada “continuou a ocultar recursos bilionários em nome de terceiros”, inclusive por meio de mecanismos que dificultariam a identificação da origem e do destino do capital.

A partir de fevereiro de 2026, o Somme deixou de aparecer nos relatórios convencionais de carteira da CVM e passou a constar apenas em arquivos classificados como confidenciais, restringindo o acesso público às informações detalhadas de sua posição.

Na mesma reestruturação, o fundo Marne — que passou a concentrar os ativos — direcionou praticamente a totalidade de seu patrimônio, cerca de R$ 2,19 bilhões, para cotas de um veículo da Kinea Investimentos, segundo dados da CVM. Procurada, a gestora informou que não irá se posicionar sobre o assunto.

Um fundo construído dentro do Master

Registros históricos da CVM mostram que o fundo Somme foi constituído em 12 de julho de 2022, com a Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários como administradora, custodiante e controladora, e a 3J Gestora de Recursos como gestora original.

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Durante esse período, o fundo permaneceu em fase pré-operacional, sem atividade registrada. Em 27 de maio de 2025, a administração foi transferida para a QORE e a gestão, para a North Sea. Na mesma data, o fundo passou a operar normalmente — e, semanas depois, os primeiros bilhões em ativos ligados à Credcesta começaram a aparecer em sua carteira.

Um detalhe nos dados públicos chama atenção: o campo que identifica o controlador do fundo ainda registra a Master S/A Corretora, sem data de encerramento. Nos registros oficiais, o controle formal do Somme não foi atualizado após a transição.

Um padrão que se repete

A atuação da QORE e da North Sea nesse tipo de mecanismo já havia sido observada em outros episódios recentes.

Pouco antes do pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor, por exemplo, a companhia transferiu, em bloco, a administração, controladoria, escrituração e custódia de três de seus FIDCs para a QORE. Fundos ligados à Reag, posteriormente liquidada, também foram transferidos em massa para a administração da QORE.

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Esse tipo de substituição altera diretamente quem responde pelos fundos perante a CVM e quem valida o lastro das carteiras, funções centrais na governança dessas estruturas.

A presença das duas casas também aparece em outras operações. Em novembro de 2025, o fundo Delta, gerido pela North Sea, foi utilizado na aquisição de ações do Banco de Brasília (BRB) pelo Master.

Em janeiro de 2026, o Kadesh FIDC, administrado pela QORE e gerido pela North Sea, alocou R$ 15,49 milhões em ativos da Fictor Holding, o equivalente a 48,65% de seu patrimônio líquido. Em 1º de fevereiro, a companhia entrou com pedido de recuperação judicial. No mesmo mês, o fundo registrou depreciação de 70% em sua carteira.

O dono da Qore, Marcos Jorge, já fez parte do quadro societário da NorthSea através da Fortsec, posteriormente transferida para a CTB Investimentos. O dono da CTB Investimentos — e sócio da NS — é Cesar Reginato Ligeiro, que também foi alvo da segunda fase da operação Compliance Zero.

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Editor
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
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