Cotações por TradingView
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A ascensão do bitcoin e das stablecoins em 2020 (parte 1): mercado tradicional vs. mercado cripto

08/08/2020 - 11:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
Quais as principais hipóteses para o bitcoin e os demais criptoativos ao longo dos próximos anos? (Imagem: Unsplash/@cliffordgatewood)

No início do ano, diversos especialistas do mercado cripto publicaram suas previsões sobre o ano de 2020, estimado que seria um grande ano para a indústria.

Muitos desses pensamentos ainda são mantidos, mas o mundo mudou bastante na primeira metade do ano (uma pandemia global, uma queda e recuperação de mercado), então é uma boa hora para reunir pensamentos e articular quais são as principais crenças para o bitcoin e criptoativos ao longo dos próximos anos, bem como quais serão as áreas de investimentos mais empolgantes e modelos comerciais de cripto.

Criptoativos são considerados como dinheiro digital para a Era Digital, então existem três crenças principais sobre o setor que podem nos ajudar a estimar o que acontecerá nos próximos anos:

1) o bitcoin será o ouro digital para a Era Digital e terá um lugar em grande parte dos portfólios de investidores;

2) stablecoins fornecerão um novo caminho global de movimentação de dinheiro e permitirá a dolarização de grande parte do mundo;

3) cripto permitiu um grande cassino global para negociadores e especuladores para o futuro próximo.

Aqui estão as tendências, catálises e o potencial de cada uma:

Para escolher um ativo de refúgio, é importante pensar do que estamos no protegendo: de prováveis riscos conhecidos dentro de um sistema ou de riscos sistêmicos de alta consequência e de baixa probabilidade? (Imagem: Unsplash/@cliffordgatewood)

1) O bitcoin como ouro digital

Uma era de estabilidade e tempos de mudança

Há séculos, pessoas em todo o mundo buscaram por reservas de valor não controladas por governos para proteger suas riquezas, grande parte na forma de ouro (apesar de um outro exemplo recebe poder incluir arte).

Hoje, grande parte dos cidadãos americanos e de outros países desenvolvidos não sente a urgência dessa necessidade. Isso porque viveram uma época bem pacífica e estável nos últimos 40 anos, com baixa inflação e declínio estável de taxas de juros, fortes moedas e poucos grandes conflitos.

Porém, os tempos estão mudando e existem sinais de crescente volatilidade e instabilidade em todo o lugar.

Países em todo o mundo estão passando por uma crescente instabilidade política e, nos últimos meses, os EUA viu a maior agitação social desde a década de 1960.

Em meio à pandemia da COVID-19, grandes economias implementaram grandes estímulos e aumentos a suas bases monetárias, aumentando níveis já altos de dívidas.

Em todos os setores — público, privado ou domiciliar — a dívida americana está nos maiores níveis já vistos, enquanto milhões de pessoas estão desempregadas e cadeias de suprimento em todo o mundo foram abaladas. Isso indica a maior probabilidade de inflação ou estabilidade em décadas.

Dólar Fogo
Veremos a maior inflação e instabilidade em décadas por conta das atuais políticas monetárias (Imagem: Unsplash/@jpvalery)

Também é importante destacar que a hiperinflação não é um pré-requisito para pessoas que buscam por proteções de reservas de valor como o ouro e o bitcoin.

No gráfico abaixo, observando o que aconteceu após a Crise Financeira Global em 2008 e as inúmeras rodadas de afrouxamento quantitativo (QE), o ouro teve melhor desempenho que ações no período entre 2008 e 2013, mesmo a linha azul que mostra a inflação do índice de preço de consumo (CPI) não tendo aumentado acima de 4%.

Um aumento estável na inflação acima do nível entre 3 e 4% seria uma catálise significativa para fluxos crescentes em reservas de valor como ouro e bitcoin e esse tipo de aumento não parece tão distante dado o aumento recente em dívidas e fornecimento monetários.

Ouro vs. ações dos EUA (indexada para janeiro de 2007 = 100) vs. Inflação (Imagem: FRED)

Principais macroinvestidores globais e investidores institucionais comprando bitcoin

Já estamos vendo grandes investidores defendendo pelo investimento em ouro e bitcoin.

Ray Dalio havia defendido o ouro na atual recessão de mercado e, mais recentemente, Paul Tudor Jones anunciou uma posição significativa no bitcoin enquanto apresentava sua tese sobre “A Grande Inflação Monetária” como o motivo para comprar futuros de bitcoin para se proteger contra a tomada de empréstimos excessiva do governo:

“No fim do dia, a melhor estratégia de maximização de lucro é possuir o cavalo mais rápido. Tenha o melhor ‘performer’ e não se apegue ao lado intelectual que poderá te deixar chorando no canto porque você se achou mais espero que o mercado. Se devo fornecer uma previsão, minha aposta será o bitcoin.”

Uma afirmação como essa de um dos maiores macroinvestidores de todos os tempos pode ser uma grande catálise, pois ajuda a remover parte do estigma de investir nessa nova classe de ativos e permite que outros gestores de portfólio defendam posições.

Além disso, dados mostram posições abertas para futuros de bitcoin na CME e influxos recorde nas notas negociadas em bolsa (ETNs) do Bitcoin Trust da Grayscale — dois dos veículos mais comuns para que instituições acessem bitcoin.

O Bitcoin Trust da Grayscale é um veículo tradicional de investimento com ações em nome do investidor, fornecendo uma estrutura familiar para conselheiros financeiros e fiscais e fácil transferibilidade para beneficiários sob leis estatais (Imagem: Grayscale)

Adesão em massa do mercado cripto emanando de mercados em desenvolvimento

É importante ver grandes investidores e instituições entrarem para cripto, mas o outro aspecto-chave aqui é a adesão em massa do mercado.

Aqui, precisamos olhar além dos EUA e das economias desenvolvidas para a real usabilidade. O desenvolvimento de cripto tem sido centrado nos EUA, mas os problemas que cripto soluciona não são pontos problemáticos principais nos EUA.

O dólar ainda está forte e estável em comparação com outras moedas no mundo; Visa, Venmo e PayPal trabalham com baixo custo, então é fácil as pessoas não entenderem a utilidade do bitcoin.

A “utilidade” do bitcoin é escassa e resistente à censura e ao confisco e esses usos serão mais sentidos em mercados em desenvolvimento com regimes monetários instáveis e falta de confiança no governo e em instituições financeiras — é aqui onde a adesão em massa do mercado cripto poderá emanar.

Já temos evidência disso, pois volumes em corretoras de bitcoin ponto a ponto em regiões como África e América Latina vêm crescendo ao longo do tempo de uma forma que não está diretamente correlacionada ao preço do bitcoin:

Volume histórico na África Subsaariana (equivalente em dólares) (Fonte: Useful Tulips)

 

Volume histórico na América Latina (equivalente em dólares) (Fonte: Useful Tulips)

Avaliação institucional da oportunidade de cripto para uma reserva de valor não soberana

Hoje, a capitalização de mercado do bitcoin está em US$ 200 bilhões, mas até onde o mercado poderia ir e por que investir hoje? John Pfeffer escreveu um caso canônico sobre a Visão de Investidores Institucionais sobre Criptoativos há alguns anos, que ainda tem a ver com a visão atual.

Se queremos saber o que esperar de um criptoativo que serve como uma reserva de valor controlada e não soberana, o melhor lugar a se olhar é para a tecnologia atual que tem esse papel: ouro.

Hoje, existem quase US$ 2,6 trilhões em posses privadas de ouro e US$ 2,1 trilhões em reservas governamentais de ouro.

No longo prazo, acreditamos que o valor de mercado do bitcoin poderia totalizar e possivelmente ultrapassar o valor das posses privadas em ouro, dadas as inúmeras vantagens do bitcoin vs. ouro.

Também acreditamos que o bitcoin pode ter uma porção do mercado para reservas públicas de ouro.

Tesourarias nacionais podem demorar para aderir a cripto, mas diversos governos tentam diversificar suas reservas e reduzir sua dependência no dólar americano — em que os bancos centrais chinês e russos são os maiores compradores de ouro nos últimos anos — e, de novo, criptoativos possuem muitas vantagens em comparação ao ouro (custos de armazenamento são bem mais baixos e posses em cripto são instantaneamente verificáveis).

O bitcoin pode expandir o mercado para reservas privadas de ações de valor pois, para investir nele, é necessário apenas um celular e conexão à internet (Imagem: Unsplash/@silverhousehd)

A longo prazo, podemos imaginar que o bitcoin tenha uma vez o valor atual de mercado privado para posses em ouro e, talvez, ⅕ das reservas oficiais de ouro, representando um aumento de 15 vezes à atual capitalização de mercado de US$ 200 bilhões para o bitcoin.

Além disso, existem outros fatores que poderiam fornecer uma vantagem nesse caso.

Por um lado, já que qualquer pessoa no mundo pode acessar e armazenar facilmente qualquer quantia de cripto com nada além de um celular e uma conexão à internet, poderíamos imaginar que o bitcoin expandisse o mercado para reservas privadas de ações de valor.

Por outro lado, hoje, a maior classe de posses de reserva de valor são as Reservas de Moeda Internacionais, com um valor de US$ 11,7 trilhões.

Conforme cripto continua a se estabelecer como uma grande classe de ativos global, bitcoin pode se tornar em uma alternativa atrativa para muitos países que buscam diversificar suas reservas e minimizar sua dependência no dólar americano (e o controle que vem consigo).

Muitos países já possuem uma forma sintética de reservas em Direitos Especiais de Saque (SDRs) do Fundo Monetário Internacional (FMI), então quão difícil seria terem posses em cripto?

Existe uma usabilidade real em uma reserva de valor não controlada pelo governo em uma forma digital e o possível mercado para esse tipo de demanda será provavelmente enorme sob qualquer conjunto de hipóteses. Existem riscos em cripto mas se funcionar, seria extremamente valioso.

Conforme investimentos analisam essa oportunidade na atual recessão macro, essa distorção de risco/retorno de -1x vs. 15x+ para bitcoin o tornará em um investimento extremamente atrativo, que é por que acreditamos que o bitcoin deve fazer parte de cada portfólio diversificado e moderno e, nos próximos dez anos, esperamos que seja.

tether
Tether (USDT) é a maior stablecoin do mercado, com US$ 11 bilhões em capitalização de mercado (Imagem: Twitter/Tether)

2) Stablecoins e a dolarização de cripto

A maior história em cripto no último ano foi o surgimento de stablecoins lastreadas em dólar, que tiveram seu valor total de mercado explodir de US$ 3 bilhões para quase US$ 12 bilhões, dominado por meia dúzia de moedas (é importante destacar que Tether está no lado não regulamentado enquanto USD Coin está).

Apesar de possíveis preocupações sobre políticas monetárias dos EUA e níveis de dívida, para bilhões de pessoas em todo o mundo o dólar está mais estável do que sua moeda local e é considerado como um ativo de refúgio — principalmente em países emergentes. Pessoas querem dólares.

Existe evidência disso no fato de que US$ 1,9 trilhão na moeda física americana, mais da metade em US$ 1,1 trilhão detido no exterior ou no tamanho significativo do mercado Eurodólar estimado em US$ 13 trilhões.

Países como Equador dolarizaram completamente seu sistema monetário no passado e a Venezuela está indo pelo mesmo caminho atualmente. Stablecoins facilitarão o acesso a dólares, permitindo um sistema financeiro baseado em dólares para pessoas em mercados de todo o mundo.

Acreditamos que stablecoins lastredas no dólar americano, ou “criptodólares”, podem acabar sendo o “killer app” para cripto.

“Killer app” é o termo dado quando uma nova tecnologia se tornará indispensável e superior a qualquer outro competidor, aniquilando-o.

USD Coin (USDC) é a terceira stablecoin por capitalização de mercado, de US$ 1 bilhão, atrás de tether e True USD (TUSD) (Imagem: Medium/CENTRE Consortium)

Não devemos ficar chocados em ver que o valor de mercado de stablecoins ultrapassa o de grandes criptoativos como ether e bitcoin nos próximos anos, e poderemos começar a ouvir frases como “stablecoins, e não bitcoin” da mesma forma como ouvimos “blockchain, e não bitcoin” há alguns anos.

Por fim, acreditamos que bitcoin e stablecoins irão coexistir da mesma forma em que o dólar coexiste com o ouro, mas estamos otimistas do potencial aqui e tudo o que stablecoins trouxerem em termos de pagamentos, remessas digitais e movimentações de dinheiro.

Acreditamos que a natureza programável de cripto — a capacidade de transferir, firmar e verificar instantaneamente em qualquer parte do mundo, 24 horas por dia, 7 de dias por semana e 365 dias ao ano —, combinada com a estabilidade das stablecoins, os tornará nas principais vias de movimentação de dinheiro global do futuro.

3) Especulação cripto

Vamos à última crença principal sobre a especulação e permitindo que cripto se torne um cassino global.

Negociação especulativa tem sido o principal caso de uso para cripto até agora e existem diversos motivos para isso.

A proliferação de novas moedas e instrumentos derivativos forneceu ativos altamente voláteis que são extremamente atrativos e empolgantes para negociadores (Imagem: Unsplash/@cliffordgatewood)

Por um lado, de bitcoin/cripto irá se tornar o ouro digital e dinheiro digital para a era digital, criptoativos precisarão aumentar absurdamente em capitalização de mercado para haver liquidez suficiente e servir com um grande caso de uso — então existe um inerente aspecto de “grande aposta” para cripto.

Por outro lado, a proliferação de novas moedas e instrumentos derivativos forneceu ativos altamente voláteis que são extremamente atrativos e empolgantes para negociadores.

Além disso, a natureza de diversas corretoras cripto globais é que estão completamente disponíveis para qualquer um que tenha um endereço de e-mail e algumas cripto, permitindo que pessoas em todo o mundo façam suas apostas com pouca fricção.

Estamos muito otimistas com cripto — e, mais especificamente, com o bitcoin como ouro digital —, mas reconhecemos que a tecnologia ainda é nova, tem muito a provar e, assim, é muito arriscada.

O bitcoin ainda não é ouro digital, mas existe uma aposta de que será no futuro (é por isso que não foi surpreendente ver o bitcoin cair como caiu durante o pânico de mercado causado pela COVID-19, atuando como o ativo de risco que ele ainda é).

Até se tornar ouro digital, esperamos ver muita especulação e acreditamos que esse tipo de negociação continuará a ser o maior mercado para cripto no futuro próximo.

Tentando avaliar o potencial para esse caso de uso, um bom lugar para começar é com o tamanho do mercado atual de apostas, em que as melhores estimativas fazem com que o mercado global de apostas seja de US$ 500 bilhões.

Além disso, podemos estimar o tamanho do volume global de negociações de ações em varejo em US$ 1,2 trilhão.

É difícil obter uma estimativa corretora do tamanho do mercado de negociações de varejo, mas o recente aumento nos volumes direcionados por corretoras de desconto como Robinhood demonstrou claramente a forte demanda de varejo.

Se a especulação de cripto pode capturar pelo menos uma fração desse mercado especulativo de varejo, representaria outra grande fonte de possível valor para bitcoin e outros criptoativos.

Parte 2

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 03/08/2020 - 15:27