AgroTimes

Etanol de milho cresce no Brasil, mas expansão esbarra em desafio bilionário da biomassa; solução estaria na cana-de-açúcar?

18 set 2026, 7:30
etanol de milho cana-de-açúcar
O crescimento acelerado do etanol de milho acende um alerta para o maior custo com biomassa. Para o Rabobank, a integração tem um caminho. (Foto: Scott Olson/Getty Images)

A franca e acelerada expansão do etanol de milho no Brasil está criando um novo desafio para as usinas: garantir energia suficiente para acompanhar o crescimento da produção sem ampliar a dependência de biomassa de origem não sustentável.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Enquanto novas plantas entram em operação e a capacidade instalada deve mais que dobrar até 2030, a oferta de insumos como cavacos de madeira precisa crescer na mesma proporção. O problema é que formar florestas de eucalipto leva anos e exige capital, criando um descompasso entre a velocidade de expansão das usinas e o tempo necessário para assegurar uma fonte regular de biomassa.

Segundo cálculos de Andy Duff, analista do Rabobank, a biomassa representa aproximadamente 7% a 8% do custo total de produção da usina — uma parcela sensível, principalmente em períodos de margens pressionadas. O analista conversou com o Money Times sobre possíveis soluções.

Cana-de-açúcar pode ser uma opção?

Uma alternativa está na integração com a cana-de-açúcar, cujo bagaço pode abastecer a produção de etanol de milho. A vantagem, porém, depende da estrutura existente: Duff vê mais espaço para adicionar o cereal às usinas canavieiras do que para incorporar canaviais às plantas dedicadas ao milho.

Segundo um estudo recente do Itaú BBA, a capacidade instalada de produção de etanol de milho deve passar de 10,9 bilhões de litros, em 2025, para 25,3 bilhões, em 2030, avanço de 132%. Esse crescimento exigiria uma ampliação expressiva da oferta de biomassa.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Se o eucalipto fosse a única fonte de biomassa utilizada, o setor precisaria de aproximadamente 816 mil hectares de florestas plantadas no país para sustentar a capacidade projetada para 2030.

O desafio é especialmente relevante no Mato Grosso, principal polo produtor. A capacidade do estado deve subir de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros entre 2025 e 2030. No cenário do banco, seriam necessários aproximadamente 383 mil hectares de eucalipto, ante os atuais 165 mil hectares.

Considerando um custo de implantação e condução de R$ 35 mil por hectare ao longo de 13 anos, os 218 mil hectares adicionais demandariam investimentos próximos de R$ 7,6 bilhões. Em um cenário de menor eficiência industrial e florestal, a conta poderia alcançar R$ 14,3 bilhões.

Regras e prazo das florestas desafiam o planejamento

O abastecimento também envolve uma discussão regulatória. Em junho, o governo do Mato Grosso e o Ministério Público estadual firmaram um Termo de Compromisso Ambiental para reduzir o uso de biomassa proveniente da supressão de vegetação nativa pelas grandes indústrias consumidoras.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O processo passou por mudanças. O Ministério Público aceitou um pedido do governo para suspender o prazo de 30 dias para edição do decreto que regulamentaria a transição. Na ocasião, não havia uma nova data limite para a publicação.

Para Duff, a incerteza regulatória dificulta o planejamento e as decisões de investimento. Ele lembra que a discussão envolve outras indústrias que também utilizam biomassa para gerar energia.

Na avaliação do analista, os obstáculos à expansão das florestas energéticas estão principalmente no prazo necessário e no capital exigido. Avaliações internas do Rabobank identificaram pastagens degradadas e áreas menos favoráveis à soja com potencial para o cultivo de eucalipto nas proximidades de projetos de etanol de milho.

Em um estudo interno realizado há cerca de um ano e meio, o banco estimou a necessidade de aproximadamente 10 mil hectares de eucalipto para abastecer uma operação que processe 1 milhão de toneladas de milho. A conta ilustra a dimensão do planejamento florestal necessário para acompanhar a expansão industrial.

E como a cana-de-açúcar entra na equação?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O aproveitamento do bagaço é uma vantagem competitiva das operações que integram cana e milho. Ao incorporar o processamento do cereal a uma usina canavieira, a empresa pode utilizar a biomassa que já gera para abastecer a nova atividade.

Duff cita São Martinho (SMTO3) e Cargill como exemplos desse aproveitamento, por meio das suas plantas flex (usinas que permitem processar cana e milho ao mesmo tempo). Além do combustível para geração de energia, a integração permite aproveitar mão de obra e parte da estrutura industrial existente, como destilaria.

“É um menor custo significativo, mas não é uma diferença entre quebra e sobrevivência”.

Isso não significa, entretanto, que as plantas dedicadas exclusivamente ao milho, chamadas de full, percam sua competitividade. Essas operações se beneficiam da grande escala, que proporciona ganhos de eficiência.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“O capex por litro de capacidade de etanol para planta full ainda é menor em termos de investimento necessário”.

“Por mais que tenha essa atratividade, projetos de uma planta de etanol de milho anexado a uma planta flex, o desafio no momento é que, mesmo com a melhora dos preços, ainda estamos em um ciclo de baixa e ainda temos juros elevados. Mas isso continua no radar. São poucos projetos flex que temos hoje no Brasil”, completa.

Na avaliação do analista, a biomassa representa aproximadamente 7% a 8% do custo total de produção do etanol de milho. Um encarecimento desse insumo pressiona as margens, mas o cereal permanece como o principal componente dos custos.

“O milho seguirá como o principal fator de custo. Mas, é claro, se dobrasse o custo da biomassa, haveria uma erosão da margem. Mas as empresas estão cientes disso e estão melhorando a conversão de biomassa por metro cúbico de etanol produzido”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Há também uma escolha econômica para quem dispõe de bagaço excedente: utilizá-lo para processar milho, gerar eletricidade para comercialização ou vender a própria biomassa a outras indústrias. A decisão depende do retorno esperado e do investimento exigido para cada alternativa.

No caso do milho, o atrativo vai além do etanol. Duff destaca a contribuição das vendas de coprodutos, como os grãos de destilaria destinados à alimentação animal (DDG e DDGs) e o óleo de milho, para a rentabilidade das operações. “Esse é um plus na hora fechar a conta, pensando nos preços atuais de etanol.”

Adicionar milho à cana é diferente de fazer o caminho inverso

Se a integração aparece como uma oportunidade para as usinas canavieiras, Duff considera improvável que empresas dedicadas ao milho decidam implantar uma operação de cana para resolver o abastecimento de biomassa.

“Seria uma surpresa se alguém estiver falando seriamente sobre isso”, afirma.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Uma das razões é a localização. As plantas full buscam regiões com abundância de milho e condições favoráveis de compra, que não necessariamente contam com oferta de cana próxima.

Outra diferença está no modelo de negócio. Enquanto a indústria de milho compra o grão no mercado e investe em armazenamento para organizar seu abastecimento, as usinas canavieiras costumam produzir uma parcela relevante da própria matéria-prima. Incorporar essa atividade exigiria investimentos agrícolas recorrentes e uma nova estrutura operacional.

“Esse modelo até agora se mostrou bastante robusto”, diz Duff sobre as operações de milho, destacando a combinação das receitas do etanol, dos grãos secos de destilaria e do óleo.

Por isso, o analista vê mais espaço para a integração em regiões onde a cadeia da cana já está estabelecida, como Goiás, Triângulo Mineiro e São Paulo. Para essas empresas, adicionar milho representa uma forma de diversificar a produção e responder à concorrência das plantas dedicadas ao cereal.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Isso está sendo mais avaliado pelas usinas existentes para ganhar mais competitividade com esse setor de etanol de milho que existia há 10 anos e agora tem 25% do mercado, e deve seguir crescendo”.

O bagaço pode, portanto, aliviar o gargalo de biomassa para determinados projetos. A possibilidade de ampliar esse aproveitamento dependerá da localização, da estrutura industrial e das condições de investimento de cada empresa.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Compartilhar

WhatsAppTwitterLinkedinFacebookTelegram
Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
Linkedin
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
Linkedin

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies.

Fechar