Ações da Natura (NATU3) sobem com boa recepção ao novo CEO, mas dúvidas sobre recuperação seguem no radar
As ações da Natura (NATU3) operam entre os destaques positivos do Ibovespa (IBOV) no pregão desta terça-feira (1), estendendo o movimento de alta da véspera, quando anunciou a troca do atual CEO por um nome que já ocupou o cargo anteriormente.
A Natura elegeu Alessandro Carlucci como novo diretor-presidente, com posse do cargo em 1º de outubro de 2026, no lugar de João Paulo Ferreira. Carlucci já foi CEO da Natura entre 2005 e 2014. A transição busca preservar a continuidade estratégica e fortalecer a execução operacional.
Por volta de 11h55 (horário de Brasília), as ações NATU3 subiam 4%, cotadas a R$ 9,09. Na máxima do dia, até esse horário, o avanço chegou a 4,92%. Acompanhe o tempo real.
O Bradesco BBI destaca que as ações da empresa de cosméticos chegaram avançar cerca de 8% após o anúncio, mas perderam força ao longo da sessão, sinalizando que a reação positiva à mudança de liderança ainda convive com dúvidas sobre a recuperação dos resultados.
“O papel lidera o ranking de taxa de aluguel, em 88,41%, e apresenta 12,58 dias de cobertura, evidenciando um posicionamento vendido relevante e de custo elevado”, dizem os analistas.
A leitura do BBI é que novas sinalizações favoráveis sobre execução e rentabilidade podem ampliar a pressão por cobertura de short, enquanto a ausência de melhor operacional tende a preservar a volatilidade do ativo.
O Itaú BBA pondera que ambos os executivos são bem avaliados pelo mercado e possuem amplo conhecimento da Natura, enquanto a transição ocorre após a recente reformulação do Conselho e a eleição de dois representantes ligados ao investimento da Advent.
“Reforçamos que, no curto prazo, a Natura ainda precisa solucionar os problemas associados ao sistema de planejamento integrado, que esperamos que sejam totalmente resolvidos até o fim de 2026 ou no início de 2027”, dizem os analistas.
A execução continua sendo a questão centra, na visão do Itaú BBA.
O Citi chama atenção para o timing do anúncio, que ocorre pouco depois da Assembleia Geral de Acionistas de 27 de agosto, que formalizou o acordo da Natura com a Advent e levou à nomeação de dois sócios da Advent, Juan Pablo Zucchini e Rafael Leão, para o Conselho.
“Dessa forma, é provável que os investidores vejam as mudanças de gestão anunciadas como parte da transição mais ampla de governança em curso, embora nosso entendimento seja de que a decisão possa ter começado a ser discutida antes das recentes mudanças no Conselho”, dizem os analistas.
Embora a Natura tenha mudado significativamente desde que Carlucci deixou o cargo de CEO, em 2014, ele ocupa a presidência do Conselho desde abril de 2025. Dessa maneira, o Citi acredita que o profundo conhecimento da companhia e do negócio, especialmente do modelo de venda direta, o torna uma das pessoas mais bem posicionadas para apoiar a recuperação da empresa.
Pressão no curto prazo da Natura
O movimento ocorre em um momento de desempenho ruim para a empresa de cosméticos. No segundo trimestre de 2026, a Natura reportou lucro líquido de R$ 35 milhões, resultado 82% menor na comparação com o mesmo período em 2025.
Em teleconferência de resultados realizada após a divulgação do balanço, João Paulo Ferreira, CEO da companhia, reconheceu que os números do trimestre frustraram as expectativas devido à queda acentuada da receita no Brasil, que sofre com os impactos do cenário macroeconômico sobre a renda disponível, além de problemas relacionados à disponibilidade de produtos.
“As dificuldades operacionais no Brasil superaram nossas expectativas”, afirmou. “Reconhecemos, contudo, que grande parte dos problemas desse trimestre são internos, operacionais e fundamentalmente autoimpostos”, completou o executivo
A escassez de produtos é apontada como um dos fatores que controbuíram para o cenário, com estresse causado pela indisponibilidade de produtos e parada da operação, mesmo com uma implementação tida como bem-sucedida do sistema SAP.
O Itaú BBA destaca que a receita da Natura caiu cerca de 15% na comparação anual no segundo trimestre, enquanto problemas mais amplos de planejamento e integração de sistemas contribuíram para restrições na disponibilidade de produtos e pressão sobre a participação de mercado.
“A recuperação deve ser gradual, mantendo a pressão sobre a alavancagem operacional, as margens e a geração de caixa até que haja maior visibilidade sobre a recuperação da receita no Brasil”, dizem os analistas.
Na leitura da casa, o catalisador continua adiado: ainda é necessário observar evidências de que o sistema de planejamento integrado se estabilizou e de que o Brasil voltou a uma trajetória de crescimento mais sustentável antes de revisar a recomendação de Market Perform (equivalente à neutra).