Álvaro Frasson: A Retroalimentação das Concordâncias

Por Álvaro Frasson, economista
A afeição, coisa típica nossa, é uma forma instintiva de buscar certo conforto em meio a um grupo, seja de pessoas ou ideias. Fácil imaginar que as relações humanas se formaram a partir da identificação no outro e na consequente coletividade de construir abrigo, segurança e, sobretudo, aceitação.
Esta coletividade extinguiu povos nômades, moldando sociedades nas mais distintas formas de organização. Em meio a evoluções e retrocessos, a estranheza ao outro nos fez levantar muros, atacar o que se denomina bárbaro e conquistar para pacificar, sob a ótica do conquistador. O senso comum “juntos somos mais fortes” é um destes reflexos curiosos: mais fortes que quem? Após nossa evolução biológica, organizamos estruturas para nos proteger daquilo que não conhecemos e, de maneira reativa, talvez nem pretendamos conhecer.
Não é surpresa, portanto, que a tecnologia tenha nos mapeado de forma tão eficaz, já que nossas relações interpessoais e coletivas migraram para um ambiente retroalimentado. Se antes haviam lugares específicos para a arte, ciência e política que mais nos afeiçoasse, hoje não temos escolha senão a repetição do que já sabemos.
Nossa superficialidade e empobrecimento intelectual não é, apenas, o destampar de um pote podre de milhões que agora possuem acesso on-line. Nossa atual decadência está fundada na incapacidade de se conectar com o desconhecido, transformando o mais do mesmo em ração diária, guarnecendo-nos sob um abrigo seguro e confortável.
Infelizmente, nos dias atuais nada mais improfícuo que os debates de ideias, pois as rações algorítmicas alimentam o ponto de vista do coletivo que sempre se pertenceu. Perdemos a vontade de ler, ouvir e interpretar com independência; estamos sempre enviesados, previsíveis e involutíveis. Se do ponto A ao B da história foram precisos séculos para aceitar o estranho, na era digital não será preciso décadas para retornarmos ao mais primitivo preconceito.
Perdemos a capacidade de ponderar, de segmentar o que pode, ao mesmo tempo, ser admirado e evitado, sem que haja uma hipérbole perceptiva para quaisquer dos extremos. Pressões coletivas nos predefinem e fazem questão que predefinamos o jornalista, o escritor, o político, o músico e qualquer outro que ameace sua certeza. Antes, o ponto de vista era somente um mecanismo; hoje, um fim em si próprio.
Vivemos uma inabilidade interpretativa que dá medo: a falta de leitura nos condenou formar opinião através de algumas linhas e alguns stories. Nos deixamos enganar com a agilidade dos dias atuais, que não passa de uma falsa sensação de movimento, condenando-nos a conviver com milhares de opiniões rasteiras: se mil palavras demoram muito para serem escritas e lidas, melhor publicar um meme, uma foto com frase pronta ou, a mais elucidativas das imagens atuais, um bumerangue. Não saímos do lugar.
Concretamos nossos likes em rancor ao ponto de cairmos na armadilha “de que lado você está”. Vejam só a piada: na era das múltiplas possibilidades, tornamo-nos binários. Resultado da nossa mais completa ignorância: a impossibilidade de admirar, ou interpretar honestamente, o contrário.