Análise: Em um raro debate ‘civilizado’, Tarcísio ‘concurseiro’ prega continuidade e Haddad foca em segurança e cobra gratidão
A vinheta com a tradicional música das eleições tocava no encerramento, as luzes principais do estúdio já haviam sido apagadas, mas o telespectador e internauta atentos puderam perceber uma cena rara em tempos de polarização extrema: Um longo cumprimento, com direito a tapinhas no ombro, entre dois candidatos de correntes políticas opostas.
Foi assim que Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) encerraram o debate da Band TV, o primeiro das eleições 2026 em São Paulo, na noite deste domingo (9). Os candidatos evitaram ataques pessoais, até esticaram a corta, mas mantiveram a polidez quase o tempo todo.
E o formato do debate era propício para o baixo nível. Dois dos três blocos do programa foram reservados para que os candidatos fizessem perguntas entre si e respondessem sobre qualquer tema. Com 15 minutos cada, em cronômetros regressivos ao início das falas, Haddad e Tarcísio justificaram o nome programa e debateram ideias e propostas para São Paulo, maior colégio eleitoral do País.
O petista focou na segurança, um dos setores mais mal avaliados do governo do adversário. Citou números negativos escolhidos a dedo, como o avanço das facções criminosas em São Paulo e aumento dos crimes de estupro, feminicídio e roubos de celulares.
Tarcísio, que passou a ser vidraça após três anos e sete meses de governo, respondeu com outros números. Citou, a redução de outros crimes, como homicídio, roubo de carro e cargas e furto. Segundo ele, em 173 municípios não houve um roubo sequer e quase metade dos 645 municípios paulistas não registraram homicídios em 2025.
Ainda sobre o tema principal do debate, Haddad prometeu criar um gabinete institucional de segurança pública no Estado caso seja eleito. Segundo ele, o gabinete será presidido pelo governador e reunirá, em parceria com o governo federal, polícias, Ministério Público e Receita Federal, entre outros órgãos.
E foi sobre o tema que quase o caldo da civilidade e gentileza entornou. Tarcísio lembrou de ações durante o seu governo, inclusive na favela do Moinho na capital paulista, com a prisão de Alessandra Moja, irmã de Leonardo Moja, conhecido como Leo do Moinho e apontado como chefe do tráfico de drogas do Primeiro Comando da Capital (PCC).
O governador lembrou que ela foi fotografada em um palanque ao lado de Haddad. O ex-ministro, de pronto, rebateu e chamou Tarcísio de deselegante, pediu respeito e que ele “baixasse a bola”. Afirmou que não sabia quem era Alessandra e devolveu: “Se você sabia, deveria tê-la prendido”, afirmou Haddad.
Haddad bateu também na questão fiscal de São Paulo, na demora para Tarcísio aderir ao programa de refinanciamento da dívida estadual com o governo federal, que teria custado R$ 8 bilhões em juros ao Estado e da ajuda que deu ao governador ao renegociar um calote de R$ 45 bilhões dado pelo governo de Jair Bolsonaro, seu padrinho político.
O petista ainda criticou o desempenho da educação em São Paulo, o baixo crescimento da economia do Estado e a privatização da Sabesp com o aumento da tarifa de água e esgoto, temas recorrentes desde sua pré-campanha.
Tarcísio citou realizações, prometeu investir em inteligência artificial nas escolas e manter parcerias público privadas (PPPs) e privatizações que sejam necessárias. Ao elencar nomes de vários municípios e ao perguntar se Haddad tinha lido o “anexo 5” do contrato de privatização da Sabesp, foi chamado pelo adversário de “decoreba” e “concurseiro” que joga nomes.
Do outro lado, Tarcísio lembrou que o adversário foi mal avaliado como prefeito de São Paulo e que não conseguiu ser reeleito. Nas considerações finais, Haddad disse não ter desrespeitado Tarcísio e que gostaria de não ser desrespeitado nos próximos debates.
Foi um raro debate civilizado sobre temas sensíveis. É o que o eleitor espera de ambos também nos próximos encontros.